Monumento ao esquecimento

Foto: Tania Rego/Agência Brasil

Por Viegas Fernandes da Costa.

O Museu Nacional virou cinzas! Talvez os restos de um crânio encontrados entre os escombros sejam de Luzia, e assim a gente se agarra no fetiche. A fachada do edifício, claro, ficou intacta, e o governo federal presidido por um missivista sem brio e sem votos anuncia 10 milhões para reconstruir o museu cremado em cena pública sem qualquer pudor. Como se reconstrói patrimônio imaterial?

Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo e professor do Museu Nacional, defendeu em entrevista ao jornal português “Público” que o prédio da Quinta da Boa Vista deveria permanecer como monumento em ruínas para servir de memorial. Concordo! Um memorial do descaso com as políticas de memória. Memorial da vergonha nacional, da barbárie.

O Brasil é especialista. Afinal, já transformamos sambaquis em adubo, asfalto e aterro. Milenares oficinas líticas compõem sofisticados muros, calçadas e ornamentam jardins em residências de veraneio. Coleções museológicas são vendidas em mercados de pulgas país afora. Já queimamos telas, livros e filmes, cerceamos a palavra e assassinamos corpos multicoloridos.

Como um cidadão que por acaso e formação leciona História, ando por museus, bibliotecas e arquivos do meu estado e do meu país: a terra arrasada não é exceção! Infiltrações, cupins, falta de preparo técnico, abandono. Em Laguna (SC), antiga capital da República Juliana, o arquivo histórico mofa em caixas abandonadas e o museu local não dispõe sequer de monitores preparados para guiar visitas. Em Imbituba (SC) o Museu da Baleia (único do gênero no país) fechou por excesso de lama (sim, lama!) sobre seu piso. Em Tubarão (SC), as preciosas telas pintadas por Wiilly Zumblick padecem na umidade e sob a incidência de luz solar. Em Blumenau (SC), lembro-me de quando vi a reserva técnica do Museu de Arte da cidade esturricando no calor de um sótão. Em Joinville (SC) o museu arqueológico míngua sob cheias, fungos e infiltrações. No deserto catarinense, poderia discorrer páginas a respeito dos equipamentos culturais abandonados, dos acervos em risco. Não é diferente no restante do Brasil, e o parque da Serra da Capivara (PI) está aí para resumir o estado das coisas.

O palácio “doado” por um traficante ao rei D. João VI não era o Museu Nacional, e reconstruí-lo não significa reconstruir o acervo irremediavelmente perdido. É importante lembrar que a cada dia destruímos museus pelo país, incineramos acervos, enterramos a memória nacional. A catarse da nação em torno do fetiche aquecido pelo fogo de nada servirá para mudar este estado de indigência. Um país que propõe extirpar dos currículos escolares o ensino de História não parece muito disposto a se mover para além da comoção de uma efeméride. Reconstruir rapidamente o palácio consumido no incêndio e reunir peças às pressas para compor uma exposição bizarra, será o mesmo que erigir um monumento ao esquecimento. E este país precisa muito de lembrar!

* Viegas Fernandes da Costa é Professor de História do Instituto Federal de Santa Catarina.

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