Meu caro – Fim da fonte (primeira parte)

Foto: Brigitte Tohm

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

Meu caro,

Peço sinceras desculpas pela demora na resposta dessa mensagem. Passei o dia todo deitado, preocupado. A quantidade de boletos é inversamente proporcional ao vazio de meu estômago. Certeza que é a pior crise em que estive inserido (pessoal e econômica). Tenho um restante de grana que acaba em 3 semanas mais ou menos, mas parece que acaba amanhã. Parece que estou no caixa de algum supermercado prestes a gastar os últimos trocados com pão que colocarei farinha dentro para maior sustância. Lembra que te falei da entrevista semana passada? Não passei! Saí com diversas críticas sobre a vaga. Afinal, fluência em inglês, espanhol e francês, sendo o mandarim um diferencial, pós-graduação e sono em hotel londrino em troca do equivalente ao pagamento de boletos e arroz/feijão é um tanto quanto exploratório. Mas precisava, ué. Não foi uma pré-cuspida no prato. Juro! Mas você sabe bem. É um reflexo da crise. Oportunismo! Entendo a profunda mágoa do patrão na queda de 2 milhões para 1,800 nos lucros. Deve ser foda estar menos rico, apesar de ainda ser muito rico. Deve ser foda a falta desses 200 para os prazeres que a vida oferece. Aí deixam tudo menor. Menor o quadro de funcionários, benefícios, carreira. Sobrecarrega quem está dentro e ao menor sinal de insatisfação, usa o novo bordão empresarial: agradeça por ter um emprego! Me lembro de ter ouvido isso em meu último trabalho. A chefe gritava, pedia coisas absurdas e justificou o salário menor que o mínimo por lei na premissa de “é o que tenho”. A fome me fez aceitar! Lembro também que me negava o registro formal em contrato justificando em relação à insatisfação ao meu desempenho profissional. Ela “ia ver se ia conseguir” realizar o procedimento correto em relação à contratação. Seria mediante ao atendimento de suas ordens absurdas. O mais louco é que mesmo com minha saída, ela ainda me ligava dando ordens, estas prontamente não atendidas. A crise acentuou a vontade de ter poder e explorar.

Sabe? Me ocorrem diversas coisas. Estava no trem e o com fome. Observava a quantidade de marreteiros e me pareceu tão maior do que antes. Estavam vendendo coisas de comer, beber, enfim, e comprei duas besteiras qualquer. Me arrependi! Mas me arrependi na imensidão do mar! Acredita que a compra de duas besteiras qualquer alterou meu orçamento? Acredita que toda e qualquer saída de grana é determinante para esse fim da fonte? São trocados divididos para os próximos dias de formas iguais, para coisas iguais. Não posso me dar “ao luxo” de transpor essa barreira com uma bolacha que seja. Pão, um tanto da carne mais barata e o resto do pão a noite. Caso tenha resto porque, caso contrário, duas colheres de açúcar enganam bem. Se eu inventar de ter qualquer vontade, o último dia desse período será bem antes. A sorte é que alguns amigos me emprestaram grana. O problema é que foram tantos que não sei e tenho a quem mais pedir. Tampouco sei como e quando vou pagar. Mas vou! Questão de honra. Penso que se não fossem eles, como estaria? Porque essa grana que tenho foi ajuda deles.

Meu caro, sinto uma sensação estranha. Pela primeira vez me vejo no lugar de impossibilidade da resolução de meus próprios problemas, sabe? Perdi minha autonomia e não consigo organizar absolutamente nada em mim. Cabeça e corpo não são dissociados e as coisas mínimas, que amava fazer, se perderam. Logo, meu dia é ficar basicamente com cara numa tela de computador escrevendo textos de apresentação e anexando meu currículo. Por vezes mando para vagas que tenho total convicção que não serei chamado, mas é uma forma de sentir algum dever cumprido. Tipo… “bati minha cota de vagas enviadas. O dia rendeu!” Outras… mando para as que tenho aptidão e, em dias, recebo o não.

Bom…fora isso, tá, tudo bem sim. Desculpa o desabafo. E você? Como vai o trabalho?

Guigo RibeiroGuigo Ribeiro é ator, músico e escritor.

2 COMENTÁRIOS

  1. Tentarei não cometer erros de português, sou um gaúcho nascido do outro lado da fronteira, Uruguai.
    Estava atentamente lendo a publicação e fiquei impactado com a semelhança com a minha vida.
    Moro em São Luis MA desde janeiro de 2015, vim do Ceará, mais precisamente de Viçosa do Ceará, onde estava Secretário Municipal responsável pela TI do município. Alguém do Governo do Estado do Maranhão achou que eu seria uma boa aquisição para desenvolver projetos de TI na Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação. A história é cumprida e não vale a pena estender.
    Depois de três anos fui “obrigado” a trocar de trabalho. Agora, com 63 anos, estou na pior época da minha vida. Nem minha condição de emigrante em Europa, onde residi 25 anos, passei por uma situação parecida. Porque moro no Brasil? Porque achei que, vindo cá no ocaso da minha vida, poderia de alguma maneira fazer alguma coisa de positiva para este povo nordestino tão sofrido. Agora vejo que ninguém está interessado em um “gringo” que ajude por convicção.
    Agora, com dois salários mínimos, dos quais o BB fica com a metade para cobrir um empréstimo que fiz para tratar da minha saúde, tenho que escolher entre reduzir os medicamentos ou a comida. Mas, sou um privilegiado em amizade, moro na casa de um amigo que me a cedeu gratuitamente e isso faz com que possamos subsistir, minha esposa, eu e minhas duas cachorrinhas.
    Porque não volto para Uruguai? A situação econômica te transforma em um refém das tuas decisões e te deixa prisioneiro em liberdade.
    Estas situações fazem entender o artigo e me pôr num amplo grupo de pessoas que sofremos pela volta do fascismo no Brasil.
    Desabafo feito, só resta agradecer pela paciência de que leia estas linhas um pouco incoerentes.

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