Marcha da Família com Deus II – O retorno

Publicado em: 10/03/2014 às 06:45
Marcha da Família com Deus II – O retorno

marcha2-820x300Por Kiko Nogueira.

De todas as sandices surgidas com a atual onda de paranóia anticomunista no Brasil — e não são poucas –, uma das mais impressionantes é a chamada Marcha da Família Com Deus II.

Como o nome indica, é uma reedição da Marcha da Família com Deus Pela Liberdade, ocorrida em 1964 em resposta ao comício da Central do governo João Goulart.

Desta vez, uma “convocação para o povo brasileiro” está marcada para o dia 22 de março. Pede-se uma “intervenção militar” e não um golpe, embora seja evidentemente um apoio a um golpe. O site “oficial” é ideia da paulistana Cristina Peviani, “desempregada atualmente, graças às nossas faculdades falidas”.

“Vivemos em um versão “DEMO” de uma “DITA” Democracia, que nos foi: AMPUTADA, SEQUESTRADA E CONDICIONADA por que LUTOU CONTRA O BRASIL no passado e estão colocando em prática os seus planos de COMUNIZAÇÃO DO PAÍS, que eram os planos desde a década de 60, quando o povo brasileiro que lia jornais e não limpava a bunda com ele, saiu nas ruas no dia 19 de março de 1964, pedindo a INTERVENÇÃO CONSTITUCIONAL MILITAR para evitar que o mal que abateu o leste europeu, se abatesse no Brasil…

Dia 22 de março é o GRANDE DIA, o dia do despertar de nosso povo para sair nas ruas e CLAMAR mais uma vez pela INTERVENÇÃO CONSTITUCIONAL MILITAR, pois precisamos fazer uma verdadeira FAXINA nos 3 PODRES PODERES de nossa Nação que vem sendo comunizada, graça ao apoio dos ABUTRES TOGADOS que ajudam e assinam embaixo todos os crimes cometidos por estes ESCROQUES COMUNISTAS…”

Mas há diversos outros sites divulgando essa conclamação. Um dos mais ativos é o de Ricardo Ribeiro. É uma ode ao pânico e ao nonsense. O site de Ribeiro tem campanhas contra a pedofilia, o Google (!?), a rede Globo “homosatânica” etc. Ribeiro é evangélico fundamentalista e se arrisca na poesia. Escreveu versos sobre homofobia:

“Nesse macabro cenário, só enxergo Bolsonaro

A erguer a voz, sem medo, igual ao Silas

Pelas nossas famílias, combatem essa folia

Mas, quem afinal, soltou e alimenta, a fera da homofobia?”

Ele é nascido no Recife se autointitula “capelão” e “conferencista”. É um pregador. Diz que já foi “diretor de presídio”, embora tenha um crédito de “jornalista” numa reportagem muito louca sobre o bairro de Castro, reduto homossexual em São Francisco.

Já foi bloqueado várias vezes no Facebook por postar fotos e “denúncias” contra gays, socialistas e outras desgraças. Afirma que “os donos do Face são os maiores ativistas gays do mundo”.

Na louca cavalgada de Ribeiro, ele acabou endossando um texto satírico sobre a marcha, publicado na coluna Jornalismo Wando, do Yahoo. Wando foi evidentemente caricato — mas tanto quanto os organizadores do evento.

“Com negros, gays, índios, sem-terra, rolezeiros e toda uma gente diferenciada aninhada no governo, já estava mais do que na hora do gigante se levantar novamente contra o perigo socialista. (…) A nação que salvou a si própria tinha um governo apoiado pela imensa maioria de sua população, e que se mostrava favoritíssimo para a reeleição em 65, o que não quer dizer muita coisa quando não se está em sintonia com militares e civis mais esclarecidos. Hoje, as coisas se encaminham para o mesmo perigoso cenário. Com a iminente reeleição dos esquerdistas e a consequente consolidação do regime totalitário, só mesmo Deus para iluminar nossa Marcha e ajudar a nos livrar desse mal”, escreve.

No ano passado, perto de cem pessoas se reuniram no vão livre do Masp numa manifestação a favor de um golpe militar. Mas os marchadores já conseguiram o apoio de gente como Roger, Lobão e outros para suas hostes. Um general de brigada chamado Paulo Chagas manifestou seu apoio porque acha que a “debacle da Suprema Corte, desmoralizada por arranjos tortuosos que transformaram criminosos em vítimas da própria justiça, compromete a crença dos brasileiros nas instituições republicanas”.

Agora vai. Sangue de Cristo tem poder.

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Fonte: Diário do Centro do Mundo.

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