Máquina de fazer clones

Por Gabriel Priolli*.

Quando eu pilotava uma TV universitária, recebi um rapaz que pedia estágio. Estudante de jornalismo, boa figura, boa voz, bom currículo, demonstrando desembaraço e informação, ele atendia os requisitos mínimos e decidi testá-lo. Pedi que se apresentasse no dia seguinte, sem dar nenhuma instrução além dessa. Mas, quando ele chegou para o trabalho, mal o reconheci. Estava de terno e gravata, barba feita, cabelo penteado. Nada do jeans, camiseta, tênis e pelagem desgrenhada que usou na entrevista comigo. Estava “montado” de telejornalista.

Quem disse a ele que esse shape era conveniente a uma TV universitária? Quem disse que queríamos repórteres que não parecessem estudantes? Ninguém. No entanto, assim julgou o jovem foca. Que veio não apenas com o vestuário, mas com todo um repertório de posturas e manias típicas do telejornalismo tapuia. Aprendidas de assistir os noticiários.

Nunca deixo de me espantar com a persistência da tradição no telejornalismo. Ele é o que existe de mais conservador na televisão, uma indústria sempre ávida por novidades. Basta uma semana de redação para que o mais singular dos iniciantes se transforme num veterano da mesmice. Vale dizer, da caretice. Parece que se instituiu, ao longo de tantas décadas de experiência mundial, uma máquina de conformação de jornalistas ao padrão “correto” de atuar na TV. Quase todos se vestem igual, escrevem igual, falam igual.

A locução declamada, “batatinha-quandonasce”, com ênfases ridículas e maneirismos interpretativos, é particularmente irritante. Idiotiza o repórter, independente do que ele diga. Penso que a fonoaudiologia existe para destravar a fala, não para uniformizá-la. Mas deu nisso, aplicada ao telejornalismo.

E o texto? Um mesmo infeliz parece escrever tudo que vai ao ar. Eu sei que “a festa não tem hora para terminar”, se for uma boa celebração. Mas, diabos, todas as festas do universo têm de ser cobertas com essa mesma frase idiota? Os coleguinhas não se avexam de proferi-la, vezes sem fim? Não tem chefia para corrigir isso?

Um truque de editor, para enquadrar repórteres metidos a besta, é cortar fora da matéria a passagem que eles fizeram. É um tiro de bazuca naqueles egos portentosos. Pois há vezes em que eu gostaria de cortar a matéria inteira e enviar o repórter para trabalhar de operário em linha de montagem, se gosta tanto de repetição.

Ninguém faz nome nessa profissão se não tiver a sua personalidade, seu estilo, sua singularidade. Não há nada errado com a criatividade, a experimentação. Tudo tem de avançar, evoluir. Quando o pessoal vai entender isso, no jornalismo de TV?

*Coluna publicada na edição de abril (277) da Revista IMPRENSA

Imagem: Leo Garbin

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