Maciez do cetim, aspereza do tule

Por Luciane Recieri, para Desacato.info.

Era véspera de carnaval. A moça, nervosa, discutia na minha frente ao telefone: quanto seria o cachê. Se teria cachê. Nunca teve cachê. Sempre dançou à toa. Remexia as peças na mesa da oficina e não fazia nada. Dobrava, desdobrava. Levava o dedo à boca e lambia as unhas lisas e perfeitas como um Cadillac.

Nunca antes vira cousa tão comprida, só naquelas edições do Guinness Book, mas as dos indianos eram retorcidas feito raiz – as da moça não – eram guitarras do Jimi Hendrix.

Eu lá. E ela nervosa. Nenhum contato visual. Nunca me lembro de ver gente tão nervosa, salvo em filmes de naufrágio e de quedas de avião com sobreviventes. Embaixo da bancada, uma sacola com a sua fantasia que transbordava e roçava as minhas pernas, ora com a maciez do cetim, ora com a aspereza do tule e um pouco com o flu da seda. Ela olhava as unhas de porcelana chinesa. O relógio. Escrevia nervosamente. Falava ao telefone. Tamborilava os dedos, até que saiu pra fumar.

Voltou rápido, quanto tempo dura um cigarro? Procurou o meu olhar, veio direitinho a mim e disse: ajuda! Tem uma borboleta no caminho. Levantei depressa e, na rampa da oficina, agitava seus flus de asas, uma borboleta. Levei-a pra rua e ela achou o rumo do vento. Voltei ao meu posto. A moça baixou os olhos e continuou indiferente a tudo. Dada a hora, levantou-se aliviada, abraçou sua fantasia e saiu. Sorri por dentro. Como ela sabia de mim e da borboleta? Ela não arriscou. Sabia.

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