Livro da EdUFSC mostra o humor usado pelo Império como arma na Guerra do Paraguai

Escrita por um jornalista e doutor em História Ibero-americana pela PUC do Rio Grande do Sul, A batalha de papel, livro publicado pela Editora da UFSC, mostra como o arsenal satírico da imprensa ilustrada da Corte de D.Pedro II foi acionado para deformar a imagem do Paraguai e fincar as raízes da carga de preconceito que ainda recai sobre o país guarani, 140 anos depois do final da Guerra.

Resultado da análise de 202 charges publicadas no Rio de Janeiro, entre 1864 e 1870, a obra de Mauro César Silveira também revela que o jornalismo brasileiro contribuiu para reforçar uma conhecida história oficial – aquela que define o episódio como a cruzada civilizadora a libertar um povo oprimido por um tirano cruel e sanguinário, o então presidente Francisco Solano López. Trata-se de um documento histórico de resgate sobre o período da chamada Guerra do Paraguai, em que morreram pelo menos 600 mil soldados entre 1864 e 1870.

O conflito (1864-1870) foi o maior empreendimento bélico da história brasileira e o esforço do governo imperial para conquistar apoio ao envio de tropas contra o país vizinho envolveu escritores, jornalistas e até artistas plásticos, entre eles os maiores cartunistas da época.

Para revelar esse lado pouco conhecido da campanha antiparaguaia, Mauro Cesar Silveira mergulhou nos arquivos imperiais e analisou as revistas ilustradas do Rio de Janeiro, principal meio de informação dos 15 por cento de brasileiros alfabetizados no reinado de D. Pedro II. A pesquisa exaustiva resultou na seleção de 202 caricaturas que fazem referência direta ao inimigo.

Os desenhos expressam a imagem desdenhosa do Paraguai que criou raízes durante a guerra e que até hoje sobrevive na memória coletiva dos brasileiros. O paraguaio Solano López, principal personagem das charges reproduzidas neste livro, é retratado sempre como um tirano sádico e sanguinário. Os soldados inimigos aparecem desumanizados, como ratos medrosos. Já o Brasil é apresentado, pelos maiores chargista da Corte, como o portador da nobre tarefa de levar a civilização ao solo guarani.

A batalha de papel mostra em detalhes como se realizou essa gigantesca manobra de manipulação ideológica, moldando um preconceito que até hoje dificulta uma reconciliação entre os dois povos sobre os alicerces do respeito e da justiça.

Mauro César Silveira, natural de Porto Alegre. Trabalhou nos jornais Diário de NotíciasZero Hora e Folha da Manhã, todos de Porto Alegre, e nas revistas Veja e IstoÉ, entre outros.

O livro também oferece a receita de uma grande reportagem, com os ingredientes de um trabalho investigativo, observa o jornalista André Pereira.

Segundo André Pereira, a A batalha de papel faz também surgir nas entrelinhas, respeitando-se o tempo, claro, a pergunta feita pela sociedade nos dias de hoje: a imprensa está mesmo retratando com fidelidade os fatos reais?  Ou mesmo com as ferramentas digitais oferecidas pela modernidade se vale do mesmo jornalismo ufanista do século passado diante do oficialismo?

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