Jussara e os Guardiões da Galáxia

Imagem: Antônio Augusto Bueno

Por Désceo Machado, para Desacato.info.

“- Aquela vadia cara… putz, virei todo o milk-shake, caraio…”

“- Hahahaha!”

“- Vai se foder, ainda falando dela? Esquece meu. Tu viu a parte que o homem aranha…”

“- … que ele dá um jump por cima do… o malvadão aquele, como é o nome?”

“- Groot.”

“- Que Groot? Groot é a árvore maluca.“

“- Cara, deixa eu falar pra vocês, podem dizer que estou viajando, mas esse filme fala da política atual. Os políticos só querem o poder para eles, a todo custo. Tá faltando alguém pra detonar com esses caras, alguém que chegue detonando.“

“- Tipo um Senhor das Estrelas?”

“- Isso, um cara meio doido e trapaceiro, que seja esperto entendeu? Não tem problema ele se dar bem, é que nem todo mundo. A gente tem que se proteger do governo. Fica pagando imposto, pagando imposto. Tem mais é que sonegar mesmo. Daí o cara esperto chegava detonando.”

“- Licença.” Jussara não se sentia humilhada por estar abaixada limpando a sujeira dos garotões. Trabalhava na praça de alimentação do shopping há três meses e já havia encontrado outros mais folgados. Não tinha visto o filme, na verdade nem gostava de ver filmes. Pensava no sobrinho que tinha aquela idade e via ele ali, com aquelas roupas, com um celular daqueles, tomando refrigerante. Também via a política como uma briga de figurões, heróis e bandidos, ou os dois misturados.

“- Que filme é esse?” Arriscou, com seu sotaque baiano.

Absolutamente ignorada, ficou pensando como chegaria em casa, na greve dos ônibus, no gás que poderia faltar, no Esteves, que talvez já estivesse no bar quando passasse pra pegar as crianças.

“- Vida de merda. Não e não. Não posso deixar de agradecer por ter emprego, graças a Deus!”

“- Ihh… A baiana tá falando sozinha.”

“- Hahahaha!”

E lá se foi Jussara, passos firmes, bonita, cansada, preocupada e remexida. Queria ouvir uma canção da infância, dormir e esquecer. Aqueles garotos babacas não importavam. Passou pelos elevadores de serviço e viu o cartaz do filme de que falavam: os heróis, os guardiões e salvadores do universo. Riu de uma mulher verde. Achou que se ela existisse, talvez trabalhasse ali, fosse sua colega. Imaginou um herói mal caráter assumindo o poder e não viu nada de estranho, era assim.

 

Thiago de Castilho Soares Désceo Machado é repórter em Florianópolis.

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