Integrantes de força-tarefa da PUCRS contra o coronavírus perdem bolsas Capes

Foto: Arquivo EBC

Por Luciano Velleda.

Guilherme Camargo Brito começou o ano animado. Em 2020, aos 26 anos, iniciaria o doutorado no Programa de Pós-graduação em Medicina e Ciências da Saúde da PUCRS. Na área de neurociências, o tema de sua pesquisa é “envelhecimento saudável e doença de Alzheimer”. Um tema caro para o jovem pesquisador em função de laços familiares, a sua avó Maria, portadora da doença.

Ao final de 2019, o médico obteve a bolsa de estudos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Para iniciar o doutorado com dedicação exclusiva, largou o emprego na Unidade Básica de Saúde (UBS) Primeiro de Maio, em Porto Alegre. Começou a se dedicar ao projeto do doutorado em janeiro e, em março, iniciaria as aulas. No começo de março também abriria o sistema no qual a bolsa de estudo, no valor de R$ 2.200, seria confirmada. O procedimento atrasou. No final do mês, por volta do dia 26, o sistema enfim abriu. E foi então que a PUC constatou que o número de bolsas previstas tinha sofrido cortes.

Guilherme Brito iniciava o doutorado em neurociência, na PUC, quando soube que perdeu a bolsa. Ele colabora com pesquisas sobre o coronavírus no Instituto do Cérebro. Foto: Arquivo Pessoal

A notícia chegou a Guilherme Brito por e-mail. Sua bolsa de estudos simplesmente não existia mais. Se quiser manter o sonho do doutorado terá agora que arcar com um boleto de R$ 3 mil por mês. E a vaga no emprego que deixou para trás já foi ocupada por uma colega. “O problema é que não dão nenhum tipo de aviso. Tenho que ver o que vou fazer da minha vida agora. É inviável pagar três mil por mês de doutorado. Mudou totalmente minha vida”, afirma. Ele não foi único a ter a vida revirada. Ao todo, foram 196 bolsas cortadas na PUC, entre mestrado e doutorado.

Em nota, a Capes diz que a Portaria 34, publicada no último dia 18 de março, “não implica em nenhum corte ou descontinuidade de pagamento das bolsas”. Segundo o órgão, a medida “ampliou a velocidade de convergência das diretrizes para privilegiar os cursos mais bem avaliados”.

A explicação, todavia, não tem convencido estudantes e reitores de universidades. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), por exemplo, afirma que perdeu 250 bolsas devido aos novos critérios de distribuição da Capes. Desse total, 202 foram em programas com avaliações 3, 4 e 5, e 48 bolsas em programas com avaliação 6 e 7. Na Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), a Portaria 34 diminuiu em 7,8% o número de bolsas disponíveis para mestrado e em 7,5% para doutorando, afetando 21 dos 42 programas de pós-graduação da instituição. Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) a situação é ainda pior, com o corte de 262 bolsas (169 de mestrado e 93 de doutorado), em relação a 2019.

“No momento em que a sociedade brasileira mais vem notando que ciência e tecnologia não são brincadeira, é uma real necessidade, na contramão disso, o governo federal diminui o investimento em ciência e tecnologia. Não faz nenhum sentido. Além de ser um medida equivocada por todos os motivos óbvios, investimento em ciência e tecnologia jamais deveria ser cortado, o momento é de uma falta de sensibilidade. Nenhum país do mundo sai de crise sem investir em ciência e tecnologia”, disse Pedro Rodrigues Curi Hallal, reitor da UFPEL, em entrevista ao repórter Luís Eduardo Gomes, do Sul21.

União contra o coronavírus

Perto do final de fevereiro, quando não havia mais dúvida de que o novo coronavírus chegaria ao Brasil e ao Rio Grande do Sul, o Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul (InsCer/PUCRS) começou a montar uma força-tarefa “em prol do combate, prevenção e contingenciamento do COVID-19”. Liderado pelo professor Jaderson Costa da Costa, diretor do InsCer e vice-reitor da PUC, o grupo reúne profissionais, pesquisadores e professoras de diversas áreas, tais como imunologia, biologia molecular, medicina assistencial, bioquímica, radiologia, geoprocessamento e inteligência artificial.

Guilherme Camargo Brito ingressou na força-tarefa, assim como outros colegas que também começaram a se dedicar à pesquisa sobre o coronavírus em paralelo a outros projetos e trabalhos. O pesquisadores passaram se debruçar sobre questões envolvendo o diagnóstico, o tratamento, o mapeamento dos locais onde habita a população mais vulnerável à doença, quais as melhores intervenções para diminuir o impacto econômico, entre outras abordagens.

O corta da bolsa de doutorado arrefeceu o ânimo do jovem pesquisador. “Essa coisa da bolsa foi um baque para mim. Estava embalado e tudo se interrompeu. É um baque muito grande”, reconhece Brito. Assim como ele, outros cinco integrantes da força-tarefa do Instituto do Cérebro também perderam as bolsas. “Eu tava muito animado pra fazer acontecer, tinha motivação de superar o mais rápido possível o problema do coronavírus e seguir com meu projeto”, afirma.

Apesar da rasteira, Brito mantém a disposição em fazer o doutorado. Está agora procurando emprego, buscando um modo de pagar os R$ 3 mil mensais da pós-graduação, ao mesmo tempo que tenta voltar o foco para a pesquisa sobre o coronavírus. “É uma pena essa desvalorização da ciência no Brasil. Sempre ouvi que fazer ciência no Brasil é complicado… e não adianta agora que deu um grande problema, botar dinheiro. Tem que ser permanente. Não vou desistir. Mas quantas vezes vou resistir?”.

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