Honduras: jornalismo sob a mira de fuzil (1)

Publicado em: 17/07/2011 às 23:56
Honduras: jornalismo sob a mira de fuzil (1)

ESPECIAL EM 11 CAPÍTULOS

Parte 1/11

Por Larissa Cabral

Honduras: jornalismo sob a mira de fuzil. Esse é o título do meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) para a minha graduação em Jornalismo, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mais importante do que apresentá-lo à banca examinadora, coisa que já o fiz no dia 8 de julho, acredito que seja apresentá-lo ao Desacato e seus leitores.

O texto original é uma grande reportagem, dividida em três capítulos. Dois deles eu deveria jogar no lixo, segundo alguns professores meus, mas irei publicá-los aqui na íntegra. Eles estão divididos em 11 partes, mais pelo tamanho do que pela lógica do texto. Essa reportagem fala sobre os meios de comunicação (como Radio Globo, Radio Progreso e Faluma Bimetu) e os profissionais da área , que enfretaram o golpe de estado em Honduras e que continuam lutando em defesa do Jornalismo e da democracia. Mas vou aproveitar a introdução redigida no trabalho para falar melhor sobre minhas intenções.

Honduras: jornalismo sob a mira de fuzil

Introdução

“Mas por que Honduras?”, foi a indagação que mais ouvi no período de produção desse trabalho, tanto aqui no Brasil, como lá. Sinceramente, também me faço ainda a mesma pergunta, mas nunca cheguei a uma resposta definitiva. Talvez, tudo tenha começado em março de 2010, quando tive a oportunidade de entrevistar o apresentador Rony Martínez, em Florianópolis, para o portal de notícias Cotidiano, onde eu tinha uma bolsa da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Nessa ocasião, minha primeira sensação foi de completa ignorância, pois confesso que, antes do encontro, tive que visitar o Sr. Google para checar se sabia mesmo onde está localizado o país.

Depois, senti um misto de perplexidade e admiração. Eu estava em frente a um jovem, poucos anos mais velho que eu, e que me contava como enfrentou a violência de autoridades estatais, ameaças de vida a ele e sua família, um verdadeiro terrorismo, para exercer o Jornalismo.O país onde ele mora estava vivendo uma crise muito séria e complexa, ocasionada por um golpe de estado (em pleno século XXI!) e a única coisa que eu me lembrava de ter visto sobre o tema, nos meios de comunicação, era quanto transtorno um senhor bigodudo e de chapéu de caubói estava causando na embaixada do Brasil em Honduras. Fiquei chocada, confusa, inspirada.

Rony Martínez narrou cenas cinematográficas e expressou profunda indignação por ter presenciado as invasões militares violentas, na rádio onde trabalhava. Mais revolta ainda era causada pela impunidade, pela falta de justiça e pelo sentimento de vulnerabilidade de um povo que não estava de acordo com a situação que havia sido imposta e que estava sofrendo forte repressão, sem poder reclamar, sem ter onde se amparar. Imaginei que poderia ter sido eu, tentei prever o que eu faria e estabelecer algum tipo de relação com o Brasil, buscando algum exemplo de coragem e ousadia como a da Rádio Globo e outros meios alternativos e independentes de Honduras, que emergiram nesse contexto.

No começo de 2010, eu estava em um momento decisivo no meu curso de Jornalismo da UFSC, em que tinha que definir o que eu iria fazer como meu trabalho de conclusão de curso, o temido TCC. A experiência foi mais que motivadora. No mesmo dia da entrevista com Martínez, encontrei-o juntamente com Ronnie Huete e um pequeno grupo, que agregava jornalistas, cineastas, estudantes e outros, para um bate-papo sobre Honduras. Fiquei mais impressionada e comecei a fazer contatos fundamentais. Estava decidido que aquele seria meu trabalho.

Diante de algumas dificuldades que surgiram de lá para cá, tentei mudar de tema, abortar o projeto e buscar algo mais simples e cômodo. Porém, eu estava tomada pela inquietação, vendo que eu poderia fazer algo que, para mim, fosse muito mais que um trabalho final da graduação, algo que poderia mudar a minha vida, ampliar minha visão do mundo e proporcionar uma vivência única, diante da incerteza do meu futuro, com o diploma na mão, em um país dominado por monopólios na comunicação jornalística. Mas afirmar que esse trabalho será igualmente importante para quem irá lê-lo e para as pessoas que conheci naquele país da América Central talvez seja presunçoso.

Sem nunca me sentir preparada, parti para Honduras no dia 28 de fevereiro de 2011 e lá fiquei por 14 dias. Não esperava viver metade do que vivi e nem ser tão bem recebida. O Jornalismo que vi lá me ensinou muito e me inspirou, porém as fronteiras do meu projeto, de certa forma, se ampliaram, pois aquela realidade se mostrou impressionantemente complexa e envolvente.

Essa grande  reportagem  é  o  resultado  de  meses de pesquisa e dessa viagem que, sem dúvidas, mudou minha vida como cidadã e como futura jornalista. Ainda tenho dúvidas, não escrevo como gostaria e vivo o conflito da prática versus teoria. Mas, tenho tranquilidade para afirmar que o primeiro grande desafio foi superado e tornou-se um passo muito importante no meu processo de aprendizagem.

                                  

Jornalistas no alvo

No dia 28 de junho de 2009, o então presidente de Honduras, Manuel Zelaya Rosales, pretendia aproveitar a ocasião das eleições no país para adicionar uma quarta urna e realizar uma consulta popular. Poderia ser uma manhã comum, em que David Romero Ellner e Rony Martínez, o primeiro diretor-executivo e o outro apresentador da Radio Globo Honduras, chegariam à sede da rádio às 5h55 para que, na companhia do técnico Frankie Mejia, dessem início ao programa Noticias Radio Globo. Essa data, contudo, é apontada por eles e outros profissionais do veículo, como o dia que não será esquecido.

A Boulevar Morazán, larga avenida onde está localizado o prédio rosa, onde estão instaladas a Radio e TV Globo, estava tomada por militares. Vários homens fardados quiseram impedir a entrada dos jornalistas no prédio. “Eram dois caminhões cheios de militares para tomar a rádio. Disseram-nos que não podíamos entrar porque tudo estava tomado”, conta Rony Martínez.

No trajeto entre sua casa e o trabalho, Martínez recorda que viu muitos comandos militares e caminhões, mas achou que as Forças Armadas haviam decidido apoiar Zelaya, em sua atividade de consulta popular. “Quando chegamos aqui, acessamos à internet e a Telesur já informava que houvera um golpe de estado em Honduras. O secretário privado do presidente, Eduardo Enrique Reina, me ligou para contar o que havia acontecido”, conta o apresentador, “como uma rádio identificada com o povo, não podíamos deixar passar a oportunidade de informar o que estava acontecendo”.

Na madrugada do dia 28 de junho, o Exército invadiu a casa do presidente e, pela força das armas forçou-o, ainda de pijamas, a deixar o país. A decisão foi tomada pela Corte Suprema de Justiça, que emitiu um mandado de prisão contra Zelaya. Além disso, o presidente, agora deposto, foi deportado para San José, na Costa Rica, atitude não autorizada pela autoridade judicial e que contraria o Artigo 102 da Constituição de Honduras, que determina que “nenhum hondurenho pode ser expatriado ou entregue pelas autoridades a uma nação estrangeira”.

Um dia antes, no sábado, o diretor-executivo da Radio Globo havia realizado uma reunião com a equipe de trabalho para combinar a cobertura da quarta urna, uma consulta popular em forma de plebiscito, para saber se os hondurenhos apoiavam ou não a realização de uma Assembleia Constituinte para alterar a Carta Magna do país. As atividades do domingo, depois que os profissionais conseguiram negociar a entrada na rádio, tomou outra rumo: informar ao país e ao mundo que em Honduras estava ocorrendo golpe de estado. “Imediatamente chamei os companheiros repórteres, dividimos as tarefas e em pouco tempo todos estavam incorporados na cobertura”, conta Ellner. Às 9h, ele recebeu uma ligação do assessor do chefe das Forças Armadas Romeo Vásquez Velásquez dizendo que deveriam baixar o tom, ameaçando-os.

MORDAÇA – A Radio Globo começou a sentir na pele as consequências de falar o que quase ninguém dizia e de ir contra as ordens arbitrárias das autoridades. A notícia veiculada na maioria dos meios de comunicação tradicionais, tanto hondurenhos como de outros países, era de que o que o que havia acontecido era uma sucessão constitucional. “Foi um domingo de esportes, futebol, igreja, religião, mas nada sobre os militares nas ruas, sobre a violência contra Zelaya e sobre nosso governo acéfalo”, indigna-se Rony Martínez.

Com menos de 20 minutos de transmissão, o sinal da Radio Globo foi cortado, configurando mais um ato de censura. Os técnicos da rádio conseguiram instalar outra antena, que tinha menor alcance na capital Tegucigalpa, mas estabeleceram a transmissão pela internet. “As pessoas buscavam saber o que acontecia no país, mas a maioria dos meios de comunicação não dizia nada. Já na Radio Globo, havia informação e nossa página teve muitos acessos. De lá, informávamos para o mundo inteiro”, conta o apresentador.

À tarde, o diretor-executivo da rádio recebeu uma nova ligação do Exército. Disseram que os jornalistas deviam se calar senão, iriam tirá-los de lá porque estavam “distorcendo a verdade”. Por volta das 17h, os militares voltaram ao prédio e começaram a golpear os portões com uma barra de ferro para forçar a entrada. David Romero Ellner ligou para o titular da Comissão Nacional dos Direitos Humanos (Conadeh), Ramón Custódio, e disse que necessitavam auxilio. Custódio afirmou que não podia atendê-los, pois a Radio Globo “tinha buscado aquilo”, e que tinha coisas mais importantes para fazer e que, inclusive, participaria da sucessão constitucional de Roberto Micheletti, que era presidente do Congresso Nacional e fora indicado ao cargo presidencial.

Naquele momento, Rony Martínez, David Romero Ellner, sua esposa e na época jornalista da Radio Globo, Lidieth Diaz, os técnicos da rádio Miguel Ordoñez, Frankie Mejia e Tito Villatoro, assim como o dono da Radio e TV Globo, Alejandro Villatoro, estavam no local. Algumas pessoas ligaram para avisar que havia uma ordem de captura contra David Romero Ellner. “Sabia que se me pegassem, poderiam me torturar ou sumir comigo. O instinto de sobrevivência me disse ‘Vai!’ e eu fui. Saltei pela janela do estúdio, que fica no terceiro andar. Quebrei meu braço, mas consegui escapar”, conta ele.

Rony Martínez, Lidieth Diaz, os técnicos e Allejandro Villatoro continuavam no prédio, quando às 18h, cerca de 50 militares entraram. “Todos no chão e mãos na cabeça!”, gritavam ameaçadores. Martínez conta que os invasores perguntaram quem é que estava transmitindo, de quem era a voz no ar, mas ele falou que era uma pessoa em outro setor. “Eles acreditaram porque eu vestia roupas muito simples, um boné e aparentava ser muito jovem para falar em um microfone. Isso me salvou”, conta o jovem aliviado.

Os militares mandaram todos deitarem no chão com as mãos na cabeça. Tomaram os telefones móveis e depois de pedirem a identidade de cada um, começaram a fazer seus registros, sob ameaças constantes de morte. O técnico Frankie Mejia foi um dos mais maltratados porque, na época, não tinha 18 anos e não andava com seus documentos. “Atiraram meu telefone contra minha cabeça, me levantaram e me agarraram pela camiseta, assustei-me bastante. Eu pedia ‘por favor’ para eles me soltarem e eles me respondiam ‘Não fale nada, negro, que nós vamos te matar’ ”, conta o jovem de apenas 20 anos, que foi o mais agredido na ocasião. Os militares também invadiram a sala do dono da Radio Globo, Alejandro Villatoro. “Apontavam seus rifles para mim, estragaram as câmeras de segurança e se foram”, conta.

Todos que  estavam  lá  tiveram  que  caminhar   com  as  mãos na cabeça em direção ao caminhão do Exército e foram levados  pelos  militares ao Ministério Público. “Foi feio, porque nos trataram como criminosos, na frente de todos. Pensávamos nas nossas famílias, mas de certa forma nos sentíamos mais fortes, naquela situação,  por  estarmos juntos”, revela o  jovem  técnico  Miguel  Ordoñez.  No Ministério Publico, ficou definido que só poderiam voltar a transmitir no dia seguinte.

 

3 Comentários para "Honduras: jornalismo sob a mira de fuzil (1)"

  1. EL ALINEADOR   02/12/2011 at 23:22

    desacato orgullo hondureño en brazil saludos a todos ny mil gracias por estar pendiente de mi pais su pais

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  2. el alineador   11/09/2011 at 18:58

    sos grande larissa te amamos en honduras soy adicto a desacato y la gigante radio globo

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    • Larissa Cabral   14/09/2011 at 10:40

      Gracias, amigo! Y yo amo mucho a Honduras tambien

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