Governo demite professor e desrespeita pesquisadores

Renato Cotta foi surpreendido pela demissão - Foto: Divulgação Coppe/UFRJ
Renato Cotta foi surpreendido pela demissão – Foto: Divulgação Coppe/UFRJ

Por Ana Beatriz Magno e Kelvin Melo.
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A politicagem sacrificou a ciência mais uma vez. Na última sexta-feira, 17, o professor Renato Cotta, titular da Coppe, foi demitido da presidência da Comissão Nacional de Energia Nuclear pelo ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha.

A exoneração foi provocada pela resistência do docente em aceitar a indicação de nomes sem capacidade técnica para ocupar cargos na Nuclebrás Equipamentos Pesados (Nuclep), empresa subordinada à CNEN.

Os indicados, segundo reportagem da Folha de S. Paulo do dia 19, seriam apadrinhados de políticos contrários à reforma da Previdência. Ou seja, os cargos seriam trocados por votos a favor da reforma.

Detalhe: os profissionais indicados já haviam sido rejeitados por uma comissão técnica da própria Nuclep. “Fui supreendido pela demissão, mas estou feliz em voltar para a sala de aula. A UFRJ é a minha base”, diz o docente, professor da universidade desde os 27 anos de idade.

A demissão indignou a comunidade científica. “Este governo está expulsando nossos talentos”, lamenta Alberto Luiz Coimbra, 93 anos de idade, fundador da Coppe que empresta o nome à Unidade. A atual direção da instituição se manifestou por meio de nota. Segundo o texto, “o governo revela descaso em priorizar quadros técnicos qualificados na área da Ciência e Tecnologia”.

Outra instituição que não se calou foi a Sociedade Brasileira de Física. Belita Koiller, presidente da SBF, enviou uma carta ao ministro de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação, Gilberto Kassab, cobrando a reversão da exoneração. “O Brasil precisa prestigiar suas competências e deve apoiá-las quando exercem cargos de direção em órgãos governamentais”, completou.

Belita leu a matéria da Folha de S. Paulo que relaciona o loteamento dos cargos da CNEN à troca de votos pró-reforma da Previdência: “Não é de se espantar, mas entristece. Acho tudo isso lamentável”, observou.

Na avaliação de Odair Dias Gonçalves, professor do Instituto de Física, que presidiu a Comissão Nacional de Energia Nuclear, de 2003 a 2011, a decisão ameaça a política nuclear brasileira que, segundo ele, já vinha sofrendo desprestígio no governo de Dilma. “Sendo verdade (que os cargos seriam trocados por votos pró-reforma da Previdência), isso é um absurdo”, disse. Para ele, as indicações políticas são normais em órgãos do governo, mas a capacitação técnica sempre foi um ponto respeitado na CNEN.

O professor receia que o tratamento do governo faça o país perder uma capacidade em relação à tecnologia nuclear que poucas nações dominam em todo o planeta. Ele completou:  “Cada vez mais se usa radiação em Medicina, em processos industriais. Se não tivermos órgão regulador forte, se não tivermos pessoas dessa área que conheçam as questões, corremos um sério risco”, explica.

Até o fechamento desta edição, a assessoria do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações não atendeu os telefonemas nem respondeu à mensagem enviada pela reportagem para esclarecer as críticas da comunidade científica.

Atualização: Após o fechamento desta edição, a assessoria do MCTIC respondeu à reportagem, mas não justificou a demissão do professor Renato Cotta. Limitou-se a dizer que a exoneração é baseada no Decreto 40.110, de 1956. Segundo a legislação, o cargo de presidente da CNEN é de livre escolha e nomeação do presidente da República: “O Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC)  reconhece o importante papel da Nuclep para a cadeia produtiva do setor nuclear e a independência do país com o domínio da tecnologia para fabricação de peças e equipamentos que permitem o avanço nesse setor entendido tanto como energético como de defesa. O MCTIC esclarece que está em análise, o parecer da Nuclep que trata da elegibilidade de sua diretoria”.

Fonte: Adufrj.

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