‘Exodus – De Onde Eu Vim Não Existe Mais’: retrato dos dramas e esperanças de refugiados

Publicado em: 07/10/2017 às 15:23
Perigos da guerra e saudades: a síria Dana vive no Brasil e espera poder reunir sua família no Canadá (Foto: Divulgação)
Por Xandra Stefanel.
Longa-metragem conta a história de seis pessoas de diferentes partes do mundo que foram forçadas a deixar suas casas para reconstruir suas vidas sob novas e desafiadoras circunstâncias

Segundo a Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), uma em cada três pessoas no planeta é solicitante de refúgio, deslocada interna ou refugiada. Pela primeira vez na história, o número de deslocamentos forçados ultrapassou os 60 milhões de pessoas e chegou à marca de 65,3 milhões, de acordo com o relatório Tendências Globais.

Para dar cara e vida à essas histórias, o cineasta Hank Levine decidiu fazer um documentário que acompanha a trajetória de seis pessoas de diferentes partes do mundo que tiveram de abandonar seus lares e tentar recomeçar a vida em outra cidade ou país. Produzido por Fernando Meirelles, Exodus – De Onde Eu Vim Não Existe Mais tem estreia comercial nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (28). Ele foi exibido pela primeira vez em dezembro de 2016, na Mostra Internacional de Cinema.

O longa-metragem começa com impressionantes cenas no deserto do Saara: crianças gritam por direitos humanos na caçamba de um caminhão e uma multidão forma na imensidão arenosa um gigantesco apelo por liberdade ao som da narração de Wagner Moura: “Eu não sei onde estou indo, sei que ainda não cheguei. Os campos, as marchas, a espera constante, a caminhada sem parada. Uma vida pausada. Uma língua estrangeira, uma angústia estrangeira. Tudo o que deixei para trás: lembranças de sementes de esperança, o cheiro de casa e o próprio sentido. O medo de ser esquecido, o medo de ser temido, a distância de casa,” anuncia a abertura.

Durante dois anos, a equipe acompanhou os protagonistas, que contam suas histórias em primeira pessoa: a ativista política Napuli foi obrigada a deixar o Sudão do Sul e ir para a Alemanha, onde luta por seus direitos e contra a saudade da família. Tarcha nasceu no Saara Ocidental e teve de fugir para a Argélia em 1975 devido à invasão do Marrocos, e vive desde então em campos de refugiados. Dana, nascida na Síria, chegou ao Brasil e está desesperada para poder reunir sua família no Canadá. O jovem sírio-palestino Nizar veio para o Brasil, encontrou o irmão em Cuba e seguiu para a Europa, onde espera receber refúgio e reunir a família. Bruno, de Togo, ficou nove anos em campos na Alemanha, até ser finalmente legalizado e passar a lutar pelos direitos de refugiados. Lahtow e Mahka, de Kachin, em Mianmar, tiveram de abandonar suas casas por causa de conflitos militares.

Não há no filme discussões sobre a legalidade ou ilegalidade de cruzar fronteiras e permanecer. O que ficam evidentes são as problemáticas que obrigam as pessoas a deixarem tudo para trás para começar – muitas vezes do zero – uma nova vida. “Eu fui presa e torturada durante quatro dias. Saí e escapei para Uganda em abril de 2011, depois da separação [de Sudão do Sul]. Em 2012, eu vim para a Alemanha e não tinha ideia de que eu pediria asilo. Eu achei um jeito de vir para cá e pensei: ‘Ok, já estou aqui. Agora eu preciso dar continuidade aos meus sonhos, estudar, terminar a universidade – eu estudei Artes e Desenvolvimento em Uganda e no Sudão. Mas não tinha como, havia bloqueios em todos os lugares: sem estudo, sem trabalho, sem nada. Eu não posso alugar uma casa, eu não posso fazer nada. Então, o único jeito de ficar aqui é pedir asilo”, afirma Napuli.

Segundo o filme, as leis alemãs determinam que a maioria das pessoas que pedem asilo vivam em campos até que seus status sejam determinados. Enquanto esperam pela sorte, eles são proibidos de procurar trabalho e têm a liberdade de movimento severamente restrita. Bruno Watara passou sete anos em um campo de refugiados em Crivitz enquanto esperava a resposta para seu pedido de asilo. “Em algumas noites, não conseguíamos dormir e tínhamos de tomar soníferos, mas às vezes nem isso funcionava. Você fica na cama o dia inteiro e não consegue dormir. E durante o dia, o que poderíamos fazer? […] Poderia dizer que eles roubaram sete anos da minha vida”, afirma o togolês que hoje faz parte do Conselho de Refugiados de Berlim-Brandemburgo.

Para os deslocados e refugiados, muitas vezes, a única coisa que sobra, além da imobilidade forçada e do silêncio, é a esperança de poder recomeçar sua caminhada em paz e sem sofrer preconceito. Exodus – De Onde Eu Vim Não Existe Mais faz um apelo poético por dignidade e respeito para essas pessoas que já viveram tantas situações complexas: “De onde estou agora, posso ver a casa que deixei. Milhas acumuladas atrás de mim e muros em minha frente. A casa ainda vive dentro de mim, é música para meus ouvidos, é ar na minha pele, é paz nos meus sonhos. Eu vou construí-la de novo. Mas onde? Fora do fogo e no frio, eu começo a mais longa jornada. Milhas à frente antes que eu esteja livre. Milhas à frente antes que eu esteja em casa”, resume a narração.

 

Fonte: Rede Brasil Atual.

Deixe uma resposta