Eu apanhei Urda, e o motivo foram as brumas que dançam no espelho do rio. Por Claudia Weinman.

Imagem: Pixabay.

Por Claudia Weinman, para Desacato. info. 

Tive muita sorte com as educadoras de português. Foram três no ensino médio, todas mulheres. Sempre tinha quem reclamasse pois em algumas aulas a professora sentava-se sob a mesa e conversava nos 45 minutos que seguiam. Às vezes lá em casa estávamos com muitos problemas, o pai vivia desanimado nos últimos tempos pois trabalhava muito e recebia pouco.  A mãe sofria calada, então quando a porta do ônibus se abria eu só pensava na hora que chegaria aquela aula de português. Têm dias que o estudante precisa da gramática mas noutro, só deseja escutar uma boa história e quem sabe, consiga falar também. 

Em alguns momentos o/a educador/a aparece como uma água transparente, que enche o copo da gente e mata toda aquela sede que doía, que secava a boca, como em uma corrida de 10 voltas em torno da quadra.

É.  Eu bebia de cada palavra e quando voltava pra casa já me sentia melhor.

Pensava, que melhor mesmo seria, abrir aquele livro de vez, da Urda, que eu nem conhecia, para escrever o poema que o grupo à mim destinou. Li cada página, ponto e vírgula, formei poesia e até um verso sobrou para o menino que nada ajudou.

Quem fugia da aula naqueles tempos vai me odiar mas eu entreguei o safado, que nem se deu ao trabalho de decorar o versinho que pra ele deixei. Só precisava fazer isso, mas o pai se achava rico, então o verbo explorar era o seu mais próximo amigo.

Falei, na frente da classe, “professora esse traste nem pra apresentar se dispôs”.  Sem nota ele ficou e eu fui pra casa bem “gala”, de alma lavada, gritando: “pra esse explorador eu não sirvo”.

Sentei bem quietinha no banco do ônibus e fui conversando com as palavras, minha cabeça comemorava, o feito do dia. Levantei-me pra descer, alguém me chamou, olhei pra trás e um tapa me atravessou a cara. Senti a mão dele se cobrar, pois covarde não pode falar, a violência é seu doutor.

Saí do ônibus naquele dia, me defender não podia, mas preservei a poesia que fiz com tanto amor.

Se me perguntarem eu digo, quem foi, pois no conhecimento eu acredito. Faria outras mil vezes pois a denúncia faz parte deste caminho. Depois daquele dia eu passei a acreditar e entender, porque o poeta dizia que poesia causava dor.

Com cinco dedos na cara, também ele não me pediu mais nada, nem desculpas nem por favor. Melhor se for desse jeito, quem afinal quer amizade de um sujeito que mascara seu coração, que age na contramão da ternura e do respeito.

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Claudia Weinman é jornalista, vice-presidenta da Cooperativa Comunicacional Sul. Militante do coletivo da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) e Pastoral da Juventude Rural (PJR).

A opinião do autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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