Estudantes da Licenciatura Indígena da UFSC denunciam racismo institucional

Foto: Fabio Kuaray

Por Maria Alice de Carvalho, UFSC à Esquerda.

Na tarde de quinta-feira (24/05), os estudantes de Licenciatura Indígena da UFSC realizaram uma manifestação durante o Conselho de Unidade do Centro de Filosofia e Ciências Humanas – CFH. A manifestação se deu, de acordo com os estudantes, por conta da atitude da Diretora de Centro, Miriam Hartung, de impedir que as crianças indígenas circulassem pelo espaço do CFH.

De acordo com os relatos, Miriam Hartung teria ordenado aos funcionários do CFH que colocassem cones no hall do prédio administrativo, onde as crianças indígenas brincavam, para que estas deixassem de ocupar o espaço; o que fez com que as crianças, automaticamente, se retirassem do local, entendendo que ali não era o lugar delas.

Os universitários indígenas, então, ao saberem da reunião do Conselho de Unidade que aconteceria em seguida, pegaram os cones colocados no hall do prédio e os levaram até a sala onde o Conselho se reunia, colocaram-nos sobre a mesa de Miriam Hartung e defenderam, ali, que esse racismo que permeou a atitude da Diretora de Centro e que se faz presente todos os dias em suas vidas na Universidade não passará sem denúncia, e que eles defenderão sua permanência nesse espaço.

Diante desse ocorrido, houve na tarde de ontem (25/02) uma reunião dos universitários indígenas, e outros estudantes que estão contribuindo com a pauta, com o Chefe de Gabinete, Áureo Mafra de Moraes, e a Coordenação da Licenciatura Indígena. Nessa reunião, os estudantes da licenciatura levaram um documento no qual apresentaram demandas, como: punição para atos de preconceito e racismo no espaço da universidade, respeito à diversidade cultural, respeito à livre circulação dos indígenas em qualquer lugar da UFSC, capacitação de profissionais (professores e técnicos) que trabalharão com a licenciatura indígena, sala de aula fixa para suas aulas, espaço para as crianças, novo espaço para a Coordenação do Curso de Licenciatura Indígena, institucionalização do curso, alojamento (como o grêmio dos servidores e antiga DESEG), que os portões possam ser abertos durante os finais de semana permitindo que eles possam circular até o alojamento, maior disponibilidade de bolsas e cadeiras no Conselho de Unidade do CFH com direito a voto.

Com relação ao pedido de punição para atos de racismo e preconceito, os estudantes pediram, também, que algo fosse aplicado com relação ao que a diretora de Centro, Miriam Hartung, fez; o que é trazido pelo povo indígena como um ato de extrema violência e racismo institucional. A resposta do Chefe de Gabinete à essa demanda foi a de que não poderíamos partir de uma condenação a priori, pois em outros momentos em que acusamos sem provas e expusemos publicamente as pessoas dessa Universidade, o resultado foi trágico, fazendo referência ao ocorrido com o falecido Reitor Cancellier.

Compreendendo o argumento de Áureo, porém, os estudantes indígenas entendem que diferente do ocorrido com Cancellier, onde não se tinham provas da acusação que faziam a ele, o caso de racismo cometido por Miriam foi presenciado por várias pessoas lá presentes e se há provas concretas de que isso de fato aconteceu, e que eles não precisariam convencer ninguém disso. Acusaram, ainda, que durante o Conselho de Unidade onde se manifestaram com relação ao ocorrido, as outras pessoas lá presentes em nenhum momento questionaram à Miriam sobre a acusação, mas que sim fizeram o movimento de questionar aos indígenas se o que estavam acusando era mesmo real, tratando-os como “loucos”. Segundo a fala de um dos indígenas presentes na reunião de hoje, o que foi sentido por eles é que “índio tem que ter prova pra falar da doutora antropóloga”.

O que demandaram, então, como uma forma de punição a Miriam, era que ela pelo menos pedisse desculpas ou se retratasse publicamente pela violência que cometeu com as crianças indígenas ao expulsá-las de um espaço público da Universidade; de acordo com os estudantes, até mesmo durante o Conselho de Unidade, no qual a diretora de centro teve uma oportunidade de se desculpar, ela se manteve em uma posição de deboche com a causa. Inclusive, nem na reunião de hoje ela estava presente para responder sobre as acusações.

Nos relatos dos estudantes indígenas presentes na reunião de hoje, de como fatos como este influenciam em sua permanência na universidade, foi colocado que, inclusive, alguns deles haviam decidido em voltar para a sua aldeia na noite de hoje e não retornar mais à universidade para terminar o curso de licenciatura, pois sentem que ali não estão seguros e não são bem-vindos. Porém, afirmaram que hoje mudaram de ideia, pois fazer isso seria fazer exatamente o que pessoas, como a diretora de centro Miriam Hartung, querem  que eles façam, e que voltarão para a universidade; voltarão com medo, porém voltarão resistentes no movimento de ocupar esse espaço que os é por direito.

Questionaram, no final da reunião, ao Chefe de Gabinete quais seriam as condições de segurança que eles índios terão na Universidade daqui pra frente, tendo em vista que outras pessoas concordam com a forma racista com a qual foram tratados por Miriam e que essas pessoas, na maior parte das vezes, detém do poder, enquanto eles possuem apenas a voz. Denunciaram ainda que no alojamento no qual dormem hoje, nem sequer a porta fecha, e que qualquer pessoa poderia entrar lá, em qualquer momento.

A reunião de hoje terminou sem encaminhamentos certos sobre as demandas dos estudantes indígenas, os quais permanecerão na espera de uma resposta da reitoria. Foi tirado, apenas, um indicativo de reunião na quarta-feira da semana que vem para continuar as discussões e tirar encaminhamentos.

1 COMENTÁRIO

  1. A matéria é incompleta, precipitada e sensacionalista. Nunca existiu esta tal “ordem de proibição de circulação de crianças” nem tampouco a Diretora ordenou a colocação de cones. O Curso de Licenciatura Indígena tem várias necessidades, a maioria de responsabilidade do Governo Federal, em relação à permanência, moradia estudantil, creches para as mães, transportes para as aldeias na alternância entre aldeias e Universidade, sem falar na necessidade de regularização do Curso. O Estado sempre dificulta a liberação dos estudantes indígenas (que são na maioria professores nas aldeias). Nenhum destes problemas reais foi objeto da reportagem. Apenas a grave acusação de racismo contra a Diretora. A professora Miriam Furtado Hartung tem mais de 30 anos dedicados a luta anti-racista, fez isto razão de sua própria trajetória acadêmica, estudando comunidades quilombolas e lutando para o reconhecimento dos seus direitos territoriais, sociais e culturais. A quem interessa este tipo de confusão? Conheço muito bem os estudantes indígenas da UFSC e sei que não se trata de um grupo homogêneo.

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