Egito jamais terá Presidente com “direito divino”

O embaixador do Egipto em Lisboa, Hamdi Loza, não espera mudanças radicais após as presidenciais egípcias, mas referiu que algo de essencial já mudou após a revolução de 2011 – não haverá poder supremo ou divino para o presidente.

“Não creio que o Egipto mude completamente. Há um processo de mudança gradual encetado a 25 de Janeiro de 2011 e algo de essencial que mudou: já não haverá ditador ou poder supremo que seja exercido sem qualquer contradição da parte do povo”, afirmou o diplomata em entrevista à Lusa.

“É uma ideia que já existia há muito mas depois desta revolta popular não haverá outro Presidente da República que sinta que tem um direito divino para fazer o que quer. Haverá sempre um poder controlado pelo Parlamento e pelo povo”, reforçou.

Questionado sobre a ausência de uma Constituição que defina claramente os poderes presidenciais, Loza apontou que não há um vazio, “há uma declaração constitucional que foi referendada e aceite” pela população.

“Todos concordam que se o presidente tiver muito poder será difícil controlá-lo e convencê-lo que não tem um poder supremo”, afirmou, sublinhando que há a intenção de dar ao próximo presidente um poder mais limitado do que o previsto na anterior Constituição.

Para o diplomata, o país está “num momento de transição com todas as perturbações e a tensão que isso implica. É um período muito delicado para o futuro do Egipto”.

“Durante um período de transição é de esperar que haja sempre problemas nas ruas”, apontou, convicto de que “ninguém poderá aceitar todas as reivindicações que são feitas nas ruas”.

Mas, Hamdi Loza não deixou de considerar que se a situação no país for comparada à de outros países em convulsão, como a Síria, a Líbia ou até o Iémen, nota-se que o Egipto está em melhor posição”.

Sobre a intenção dos militares de abandonarem o poder, que lhes foi entregue por Mubarak quando se demitiu, há 15 meses, o embaixador disse acreditar que cumprirão a promessa.

“Os militares prometeram e confirmaram e não há nada que deixe antever que não vão cumprir a promessa de entregar o poder a um presidente que seja eleito de forma democrática”, disse, acrescentando que o exército vai ter de apoiar “o poder e a determinação do poder eleito, quer venha da parte dos islamitas ou dos liberais” e o próximo presidente precisará do apoio dos militares para manter a ordem.

Em relação ao julgamento do presidente cessante, o embaixador egípcio disse acreditar que “a decisão dos juízes será respeitada pelos egípcios”.

O tribunal que está a julgar Mubarak deverá divulgar o veredicto a 02 de Junho, entre a primeira e uma provável segunda volta das presidenciais.

Quanto ao processo eleitoral das presidenciais, Loza disse que os observadores falam de cinco ou seis candidatos com mais hipóteses. “É muito difícil prever”, adiantou.

“Há muitas sondagens, mas são uma novidade no Egipto, por isso há algumas questões quanto à sua credibilidade, mas parece que ninguém terá a possibilidade de ganhar à primeira volta e terá provavelmente de haver uma segunda volta”, afirmou.

Hamdi Loza disse ainda acreditar que as relações estratégicas com os Estados Unidos serão preservadas.

“Todos os candidatos reconheceram que é importante que essas relações continuem, mesmo os islamitas”, indicou.

Questionado sobre o risco de islamização do país, Loza respondeu que “o movimento islamita sempre existiu no Egipto. Há muitos observadores que pensam que estes movimentos uma vez representados no parlamento se tornam mais abertos”.

 

Fonte: http://www.portalangop.co.ao

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