Egito: condenação em massa e falta de estratégias

Publicado em: 04/04/2014 às 07:03
Egito: condenação em massa e falta de estratégias

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Por John Wight* 

Os recentes acontecimentos no Egito são prova de que as revoluções podem agravar tanto avanços quanto retrocessos – e muitas vezes acabam combinando ambos.

A sentença de morte adotada por uma corte no Egito contra 529 membros e simpatizantes da Irmandade Muçulana no início da semana passada, proferida em apenas duas horas, sem júri e sem a presença da maioria dos acusados, não deixa dúvidas de que a coragem e a esperança dos milhões que tomaram as ruas para lutar por seus direitos em 2011, chocou-se com as rochas duras da realidade. Quando se trata de movimentos de massa e revolução, mesmo que você tenha sua própria estrategia, tenha certeza de que você também é parte da estratégia de alguém.

Na sociedade egípcias, os militares combinaram, no passado, o papel de defensores da dignidade na nação e o de força que une o povo em torno de uma identidade nacional comum, independente da religião ou qualquer outro fator. O afeto pelo exército, e a confiança depositada nele pelas massas, tem origem na Revolta dos Oficiais Livres de 1952, que derrubou a corrupta monarquia e colocou Gamel Abdel Nasser no poder, inspirando, pela primeira vez em tempos modernos a ascensão política dos povos árabes.

A capacidade egípcia para se libertar do jugo colonialista ocidental em 1956, na esteira da Crise de Suez produziu um momento de orgulho na história do país, e em suas forças armadas. Esse vínculo foi reforçado em 2011, quando o exército recusou-se a disparar contra as pessoas que lotaram a Praça Tahrir, no Cairo, exigindo a saída de Mubarack do poder. O slogan “O exército e as pessoas são um só” foi destaque durante a onda de protestos, que culminou no fim do reinado de Mubarack, em fevereiro daquele ano.

Porém, a fraqueza da revolução egípcia foi sua falta de unidade ideológica. As milhões de pessoas que saíram às ruas, incluindo socialistas, liberais, nacionalistas e secularistas de todas as matizes, estavam unidas por aquilo a que se opunham, mas não pelo que queriam no lugar. O único grupo político que sabia o que queria e para onde ia era a Irmandade Muçulmana. Assim como o exército egípcio tem desfrutado de uma relação simbiótica com o povo, a Irmandade se juntou com ambos complementando e antagonizando com eles ao longo de sua história. Ela chegou ao poder na sequência das primeiras eleições democráticas na história do pais. Ganhou com uma delicada maioria de 51%. Entretanto quando no poder, sob a presidência de Mohamed Morsi, comportou-se como se o sistema democrático se resumisse a um jogo em que “o ganhador leva tudo”.

Morsi e a Irmandade Muçulmana tentaram forçar uma Constituição que os partidos políticos não-muçulmanos se recusavam em aceitar e que fornecia imunidade judicial ao presidente. Isso disparou alarmes em todo o país. No contexto dos acontecimentos na Líbia e Síria, em que islamitas e extremistas sunitas semearam caos e mortes, Morsi e a Irmandade Muçulmana apoiaram os rebeldes síria sob o slogan “o Islã é a resposta”. O medo, entre liberais e secularistas, de que a lei islâmica (Sharia) fosse imposta no Egito tinha bases.

Mas o estado precário que se encontrava a economia do Egito não foi obra de Morsi ou Irmandade. A recente crise global do capitalismo atingiu o Egito com força, manifestou-se no forte aumento do custo das importações. Em um país que importa grande parte de sua alimentação, a alta dos preços de necessidades básicas representou um desastre.

Morsi viu-se à mercê do FMI, que exigiu, em troca de empréstimo de UR$ 4,4 bilhões a implementação de austeridade, o que significaria o corte de subsídios estatais de que milhões de pessoas dependiam para sobreviver. Some a isso o impacto devastador das revoltas sobre o turismo e os investimentos. Estava dadas as condições para a instabilidade e a rebelião que varreram o Egito.

O ressurgimento dos protestos de massa, que irromperam no verão (egípcio) de 2013, clamando pela remoção de Morsi e da Irmandade no poder, era uma autêntica manifestação da vontade popular. De fato, saíram às ruas mais pessoas do que em janeiro de 2011, contra a ditadura Mubarack. Também é fato, que sem a intervenção do exército, apoiado pela maioria, teria havido uma explosão violenta.

Contudo, desde que assumiu as rédeas do poder, o exército, liderado pelo general Al-Sisi, assumiu o caminho do autoritarismo, adotando como pretexto de restaurar e manter a segurança e a estabilidade. A proibição da Irmandade Muçulmana e a prisão em massa de seus membros e lideranças, abriu um precedente perigoso; a sentença de morte num processo judicial farsesco, que condenou mais de 500 pessoas deveria abrir os olhos de milhões de pessoas que saíram as ruas exigindo o fim do mandato do ex-presidente Morsi. A satisfação das pessoas sempre foi o álibi dos tiranos.

*Tradução Cauê Seignemartin Ameni

Fonte: Outras Palavras

Foto: Divulgação Outras Palavras

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