É hora de reagir contra a arrogância violenta dos EUA

Publicado em: 14/12/2013 às 12:45
É hora de reagir contra a arrogância violenta dos EUA
Devyani Khobragade, Vice-Consulesa Geral da Índia em Nova York
Devyani Khobragade, Vice-Consulesa Geral da Índia em Nova York

Por MK Bhadrakumar.*

Qualquer pessoa que conheça o mundo da diplomacia sabe que o que acontece no front consular é quase sempre excelente barômetro para aferir a temperatura política das relações entre estados. O Irã exige certificados de que os empresários que compõem a delegação da Câmara de Comércio e Indústria da Índia [orig. FIICCI] que visitará o país não são portadores do vírus HIV; Cingapura trata trabalhadores migrantes indianos como se fossem cães vira-latas; um influente agente de um think-tank norte-americano sugere que Narendra Modi seja excluído da lista das pessoas que não podem pisar em território dos EUA — todos esses são sinais muito significativos.

Seguidamente, esses sinais exibem padrão comum. Foi o que se viu quando, semana passada, sem mais nem menos, os EUA apareceram com uma lista de graves acusações de fraude contra 11 diplomatas russos que trabalham em New York — e mais 38 que trabalharam na cidade em anos anteriores.

Por tudo isso, a detenção da vice-consulesa geral da Índia em New York (Devyani Khobragade), na 5ª-feira, merece atenção. É violação da Convenção de Viena prender e deter diplomata estrangeiro durante horas em delegacia de polícia do país hospedeiro – mesmo que o hospedeiro seja a única superpotência.

Pois foi o que os norte-americanos fizeram – e tampouco foi a primeira vez em tempos recentes.

E, para cúmulo dos males, fizeram o que fizeram no momento em que a Ministra de Relações Exteriores da Índia, Sujatha Singh, concluía visita e consultas em Washington. Sem dúvida, é ação que deve ajudar a abrir os olhos de Singh, a qual, recentemente, “beliscou” o artigo 377 das leis indianas sobre homossexualidade e fez favor especialíssimo a um diplomata norte-americano homossexual, que lhe pediu um visto diplomático para seu companheiro – e a ministra até rebaixou a colega que não atendera imediatamente o pedido do diplomata dos EUA. (Mas a Suprema Corte já suspendeu o rebaixamento da colega da ministra Singh.)

Mas a real questão é outra, e muito mais séria. Por que os EUA estão tomando como seus alvos seletivos os diplomatas indianos em New York? O xis da questão é que a embaixada da Índia em Washington e nossos consulados nos EUA, assim como nossa missão indiana na ONU, em New York, tornaram-se absolutamente “mal faladas”, por pesadas razões, ao longo dos últimos anos.

O material trazido à luz pelo ex-analista da CIA e “vazador-alertador” Edward Snowden é, para dizer o mínimo, chocante.

O caso é que uma missão diplomática é como um castelo de cartas, erguido com cuidados extremos; e a gestão de pessoal é questão sempre muito sensível. A inteligência paquistanesa tinha o hábito de deter e interrogar nossos diplomatas durante horas, para arrancar-lhes informação sobre deveres e funções de vários dos nossos em Islamabad ou Karachi.

Depois que a segurança de uma embaixada é quebrada, todos ali ficam indefesos e a própria embaixada deixa de poder operar como deve, e pode demorar anos para que volte ao nível ótimo. O caso dos russos, referido acima, é exemplo clássico de desmonte de missão diplomática estrangeira. Com a simples expulsão de um diplomata, um país hospedeiro pode instalar confusão total no funcionamento de uma missão diplomática estrangeira.

É o mesmo que dizer que os diplomatas indianos agora, nos EUA, estão funcionando como macacos nus, sem qualquer “cobertura”. A inteligência dos EUA sabe bem o que faz cada funcionário na estrutura daquela embaixada, conhece a vida privada de cada um, o quanto cada um é sensível a estímulos etc., etc.

Eles conhecem cada elo frágil na cadeia de comando indiano em New York ou Washington, quem está disposto a colaborar e quem não colaborará. O mais lógico para eles sempre é começar por assediar os “não cooperativos”; assim mandam um “recado” para todos os diplomatas indianos, de que os norte-americanos podem, sim, fazer da vida deles, um inferno.

Claro que o que torna nossos diplomatas particularmente vulneráveis é o desejo ardente que os consome de serem mandados trabalhar nos EUA, desejo profundamente ligado a outro – de conseguir lá uma boa escola ou faculdade para os filhos. Por causa da ruína do sistema indiano, os norte-americanos conseguem facilmente chantagear vastas fatias de nossas elites, oferecendo-lhes vistos ou cidadania norte-americanos.

Mas em última análise, tudo depende de como a Índia reaja a essas provocações. Moscou, por exemplo, decidiu chamar de volta à Rússia aqueles 11 diplomatas. E certo como o dia raiará depois da noite, Moscou retaliará.

É claro que os diplomatas norte-americanos que servem na Índia – são centenas – não são seres de imaculada perfeição e pureza, que jamais cedem a nenhuma tentação. Com absoluta certeza é possível fotografar um ou outro deles ou delas em Goa ou Pondicherry, praticando turismo gay [na Índia, é ilegal]; levá-lo(a) para a delegacia mais próxima e mantê-lo(a) preso(a) por algumas horas. E nem precisa ser quando a ministra Wendy Sherman, contraparte de Singh, estiver em Delhi em sua próxima visita.

Vários jornais sugerem que Singh assinou a extradição de David Headley, paquistanês-norte-americano que fez todo o trabalho de reconhecimento para os ataques terroristas em Mumbai, dia 26/11. É possível que os norte-americanos tenham decidido demitir Singh – e seus superiores em Delhi. Seja como for, a coincidência entre a prisão dos diplomatas indianos e a presença da ministra em New York, na 5ª-feira, obriga pensar muito seriamente sobre tudo isso.

[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

Fonte: http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2013/12/e-hora-de-reagir-contra-arrogancia.html

Deixe uma resposta