Despatologização das Identidades Trans é tema de campanha no DF

Publicado em: 14/09/2017 às 11:08
Despatologização das Identidades Trans é tema de campanha no DF

Diversas ongs, associações e grupos a favor das identidades trans (travestis, mulheres e homens trans) promoveram na segunda-feira (11) a campanha “Trans Não é Doença! Despatologização das Identidades Trans”, na OAB de Brasília.

A campanha tem como meta a retirada das identidades trans como transtornos mentais e patologia na Classificação Internacional de Doenças (CID). E que tenha um novo nome e a relocação, após a revisão do CID pela Assembleia Geral da Organização Mundial de Saúde em maio de 2018.

De acordo com Maria Léo Araruna, membra da ULTRA, o objetivo é que seja retirada a palavra “transexualismo” da seção de “transtornos metais”. Pois há um consenso de que transgeneridade/transexualidade não se trata de doença. E que estejam presentes no capítulo “condições relacionadas à saúde sexual”, sendo chamada “incongruência de gênero na adolescência e vida adulta.

Desta forma, a população trans tem a sua identidade legitimada, como uma possibilidade dentro da diversidade humana (e não patologizada e alvo de preconceito) e continua tendo direito ao acesso à saúde. Afinal, fazendo um paralelo com pessoas grávidas, elas não estão doentes, mas constam no CID porque requerem tratamentos médicos específicos, como a hormonioterapia, cirurgias e outros.

A campanha é promovida pela ULTRA (União Libertária de Travestis e Mulheres Transexuais, IBRAT (Instituto Brasileiro de Transmasculinidades), ANAVTRANS e ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), além do apoio institucional da Akahatá, CRP e OAB-DF. O lançamento contou com a presença do Ministério da Saúde, Dapartamento de HIV e Aids, OAB-DF, Conselho Federal e Regional de psicologia.

PATOLOGIZAR É DOMINAR A DIFERENÇA

Além dos folders sobre a despatologização, foi divulgado um vídeo em que diversas pessoas falam sobre a importância de a transgeneridade/transexualidade deixar de ser considerada doença. O vídeo começa com Christopher João, WanndaSaulo e Kikadizendo que são homens trans, mulheres trans e travestis e fazendo o questionamento: “Você sabia que veem a nossa identidade como transtorno mental?”.

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A coordenadora do projeto Akahatá Viviane Vergueiro diz que o processo de despatologização parte da disputa política em torno do poder e da produção de conhecimento sobre as identidades trans.

“Colocar no campo da saúde mental foi um instrumento atualizado do que era o instrumento religioso para dominar a diferença. Quando as identidades trans só existem no discurso da patologia médica, você perde toda riqueza cultura e histórica da diversidade de gênero”.

A conselheira do Conselho Federal de Psicologia, Sandra Sposito explica que identidade de gênero é uma marca individual construída singularmente na história de vida. “E que não existe um padrão de normalidade que possa aprisionar no certo ou errado no ponto de vista patológico”. “Que coloque a transexualidade como uma expressão como muitas possibilidades que nós, humanos, temos de expressar nosso gênero”, defende o Médico do Adolescente, Luiz Fernando Marques.

DESPATOLOGIZAR É HUMANIZAR

Tatiana Lionço, professora e doutora do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília, explica que a ideia de que a transexualidade é uma doença mental implica diversos prejuízos nas relações sociais de uma pessoa trans. “A despatologização traz essa potência do reconhecimento da diversidade corporal, da diversidade subjetiva e não precisar ficar medindo as pessoas por meio de uma norma estereotipada de gênero”.

Dentre elas, perde-se o direito da autonomia sobre a própria identidade e coloca a legitimidade e os direitos de ser reconhecido como se é na mão de um profissional de saúde ou de direito.

Leonardo Luiz, membro do IBRAT-DF, declara por exemplo que precisou de vários laudos psiquiátricos para dar seguimento em sua transição e documentação. “Você depende de uma pessoa pessoa para dizer aquilo que você sabe o que é. Você tem que passar por um estereótipo para dizer que você é homem”, frisa. Além de colocar as pessoas em um patamar de preconceito e discriminação, diz Ludymilla Santiago, da ANAVTrans e da ANTRA.

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Segundo a professora e doutora do Curso de Psicologia do IFRJ, Jaqueline Gomes de Jesus, patologizar as identidades trans é desumanizar pessoas. “É dizer que eu preciso controlar a pessoa porque ela não pode falar por ela mesma”, reflete.

Jaqueline explica que “mudando o CID não acabará com a transfobia, mas terá um instrumento para acabar com a produção da transfobia e a reprodução do pensamento transfóbico no fazer social de saúde”.

A campanha finaliza com travestis, mulheres e homens trans reafirmando suas identidades de gênero e dizendo que não são doentes.

Assista ao vídeo abaixo e compartilhe nas redes sociais com a hashtag: #TransNãoÉdoença #despatologizaçaotrans

 

Fonte: NLucon

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