Desculpe dizer, mas sua tia é sim fascista

Foto: Sérgio Bernardo/JC Imagem

Por Fernando Horta.

Há algum tempo, circulou um texto argumentando que “Sua tia não é fascista, ela está sendo manipulada”. Ao mesmo tempo, há uma discussão sobre a aplicabilidade do termo “fascismo” para o momento atual no Brasil, sendo que uma grande quantidade de pessoas, que se dizem liberais, advoga a tese de que a esquerda usa o termo “fascismo” para tudo o que não é ela. Retirando a capacidade explicativa do termo.

Em verdade, o que temos aqui é uma enorme confusão, causada sim por falta de conhecer a historiografia sobre o fascismo, além de um interesse político de normalizar o que estamos vivendo. Talvez fruto de um medo desmesurado, o medo dos motivos “não ditos”.

Sobre o primeiro argumento, aquele a respeito da sua tia, sim ela é fascista. Sobre o segundo, o do uso indiscriminado do termo fascismo, é preciso fazer duas reflexões: a primeira sobre o caminho das ciências sociais para explicar o fascismo; e a segunda é reconhecer que sim, nos sistemas fascistas, exatamente os liberais somem e passam a compor as hostes fascistas. A esquerda acaba ficando sozinha contra todo o resto que, num piscar de olhos, vira fascista. Ou será que ninguém notou o fim de Alckmin e Marina enquanto personagens com alguma legitimidade eleitoral? Ou será que ninguém está percebendo o esforço de diversas figuras “liberais” em defender a “impropriedade do termo fascismo” como nunca defenderam, nos últimos 5 anos, a impropriedade do rótulo “comunista” ou “autoritário” para o PT?

É preciso colocar as coisas no lugar.

Sua tia é sim fascista.

A historiografia de explicação do fenômeno fascista passou por quatro fases diferentes. Inicia com uma discussão marxista gramsciana que ressalta a incongruência das condições de classe e de suas expectativas sociais para traçar o início da ruptura social que levaria ao fascismo. Ao mesmo tempo, Wilhelm Reich vai mostrar como o fenômeno, para além das concepções estruturais da economia, estava calcado na psicologia. É verdade que Reich usa o conceito de “psicologia das massas” que foi tremendamente questionado em suas bases, mas o caminho explicativo apontado por Reich foi bastante frutífero.

Num segundo momento, as explicações sobre o fascismo giraram sobre a noção de “mal”. No início da década de 50, buscando criar ferramentas para aproximar a imagem do velho inimigo (o nazismo) à do novo inimigo (a URSS), vários intelectuais foram incitados a produzirem “sínteses” históricas, políticas ou sociais com a antinomia “liberdade x autoritarismo” ou “democracia x totalitarismo”. Hannah Arendt sucumbe a esta força e consubstancia o conceito de totalitário num livro misto de propaganda política com fina reflexão. O “mal”, banalizado, seria a causa do fascismo e do estalinismo identicamente. Contudo, enquanto Arendt trabalhava estas noções a partir de um viés de impessoalidade, toda uma outra historiografia, mais tosca, descrevia o fascismo e o nazismo como fruto da “genialidade do mal”. Livros e mais livros se amontoavam falando sobre como Hitler, Himmler, Goebbels ou Göering eram “brilhantes” em seus campos de atuação. E como este “brilhantismo” seria responsável pelo crescimento e desenvolvimento da URSS, apenas afirmando que ele era o “mal” – tal qual o nazismo fora.

Arendt era tomada pelo seu avesso e a parte do livro que é mera propaganda falava mais alto do que a fina reflexão social e política da filósofa. O “mal” em Arendt é um desprezo coletivo pelos valores humanos (em grande medida expostos pelo liberalismo político do século XVIII), desprezo plasmado na sociedade como resultado de um processo. O “mal”, para a outra interpretação, é a “genialidade” que aliena, manipula, mente e sabota o indivíduo que é bom, transformando-o num monstro.

Aqui entra a sua tia. É preciso efetivamente se perguntar se algum “gênio da maldade” opera mudanças bruscas na mentalidade das pessoas, transformando boas, caridosas e inofensivas “tias” em monstros sociais capazes de apoiar a tortura e defender execução sumária a partir do uso da cor vermelha. Será que aquela cândida cuidadora de gatos e frequentadora assídua de rodas de bate papo informais se transformava em um carrasco medieval pela força mágica do gênio que mente?

A História se pôs a campo e esta tese caiu no desprezo. Primeiro, porque verificou-se que os líderes fascistas e nazistas nada tinham de “brilhantes”. A imensa maioria era inclusive incapaz de raciocínios de mediana complexidade. O que se chamava de “genialidade da simplicidade” na comunicação fascista era, em verdade, uma incapacidade para construções compreensivas de maior monta. Em outras palavras, o fascismo não é obtuso, inconsistente e tosco por “estratégia política” no intuito de dialogar com as massas. Ele é assim porque é assim exatamente que seus integrantes entendem o mundo. O limite cognitivo é a própria incapacidade intelectual dos fascistas. E é também sua força.

No final da década de 70 e início da 80, a historiografia sobre o fascismo e nazismo dava outro giro. Passava a buscar unir as pesquisas sob psicologia (realizadas desde a década de 50, 60 e 70) para recuperar insights de Reich e Arendt dentro de teorias mais robustas. Os assustadores experimentos de Solomon Ash (sobre reações individuais frente a grupos), de Stanley Milgran (sobre obediência), Jane Elliott (os olhos azuis e marrons) e Philip Zimbardo (sobre os papeis de execução e sofrimento) davam pistas brutais de que, possivelmente, as origens da espiral fascista não fossem sociológicas ou políticas, mas psicológicas. Sua tia, muito provavelmente, tem uma predisposição a se tornar monstro que apenas aflora em ambientes sem controle de normas sociais ou jurídicas. A frustração, o autoritarismo, o egoísmo, o egocentrismo, se misturam com uma débil formação humanista e podem ficar latentes a vida toda. Contudo, em situações de afrouxamento dos controles sociais, culturais e jurídicos a tia boazinha e inofensiva canalizava a frustração da vida toda e se transformava na bestialidade que podia, ao mesmo tempo, se emocionar ao ler e reviver a “Paixão de Cristo”, enquanto defendia a morte, açoite e tortura de jovens e crianças infratoras de pequenos delitos.

Delleuze e Gauttari propuseram uma nova mudança nas explicações sobre o fascismo transitando entre a visão totalmente histórica e sociológica (de Arendt) com os insights de Reich e os novos aportes da psicologia. Não era um fenômeno SOMENTE social, político, econômico, mas um fenômeno complexo em que as predisposições psicológicas latentes (chamadas de “microfascismos”) poderiam ficar acobertadas muito bem sob o manto de um “liberalismo difuso”, até serem canalizadas por meio de um discurso de interpretação da realidade que jogasse todas as frustrações individuais como culpa de um grupo social, usado como “bode expiatório”. Tal discurso precisava ser raso, simplista, direto e apelativo. E só isto. Nada precisava ter empiria, crítica ou de qualquer profundidade.

É claro que o problema da violência no Brasil, por exemplo, não é o fato de a população “não ter armas”. Nem é verdade que a difusão das armas vai resolver a questão. Este é um discurso raso, simplista, direto e apelativo, que associa as frustrações sociais a um grupo usado como “bode expiatório”. Este discurso ainda precisava de duas condições mais: um meio de difusão social e a indiferença institucional para as micro-rupturas dos padrões sociais, políticos, jurídicos e culturais de comportamento. Em outras palavras, era preciso que as autoridades permitissem as violências e que houvesse um meio de difusão destas violências e seus resultados para o público. Delleuze mostra que ambas as condições eram aceitas, nutridas e postas em prática por “liberais”, no afã de diminuir a influência popular das esquerdas sobre as massas. Dito de outra forma, um falso liberalismo (essencialmente econômico e não político) que coloca o “mercado” como necessariamente livre, mas nada fala sobre as liberdades do indivíduo, via na aceitação das vilanias fascistas, ainda pequenas, um caminho para o enfraquecimento de movimentos reformistas ou revolucionários de caráter popular. Desde que o conflito distributivo fosse presente o suficiente para ordenar as percepções coletivas e oferecer uma ideia de “escassez” a ser utilizada pelas elites de forma a eludir o conflito de classes com a ideia mal delimitada (propositalmente) de “corrupção”.

Neste discurso, a carência que os grupos sociais sentem de recursos econômicos ou financeiros não vem da essência do capitalismo (um sistema que só sobrevive dentro da ideia de carência), mas de grupos que se “apropriam” de tais recursos mediante meios políticos que não são frutos de “méritos próprios”.

O imediato resultado é a criminalização da política, das ideias de igualdade social e de qualquer projeto de mudança social.

E tudo seria perfeito aos liberais se tal estratégia terminasse aqui. O que estes “falsos liberais” não compreendiam (e parece que seguem sem compreender) é que os condicionantes psicológicos do comportamento fascista transformavam esta estratégia numa perigosa aventura, já que a espiral de apoio popular do fascismo, dadas as condições de propagação do discurso e do conflito distributivo, não eram possíveis de serem contidas. A plasticidade do conceito de “corrupção” passava a ameaçar a todos, já que este poderia ser uma corrupção administrativa, mas SEMPRE terminava como um conceito difuso em que se enquadrava toda e qualquer ideia de crítica ou oposição ao ideal social fascista. Assim, o fascismo passava a perseguir os corruptores de costumes, de pensamento, de religião e assim em diante.

Habermas e todo o esforço de auto-compreensão histórico da Alemanha demonstravam como os discursos moldavam a realidade fática em que os sujeitos se moviam, e como a reconstrução dos tempos – a partir de uma memória fabricada com fins políticos – absorvia as micro-violências e transgressões sociais num projeto conservador de dominação e controle, dando significação aos pensamentos individuais e reinterpretando as sociedades a partir da vazão coletiva das vilanias em benefício de noções abertas e sem concisão como “pátria”, “nação” e “país”.

O nacionalismo completava o caminho explicativo do fascismo que iniciava nas frustrações psicológicas da sua tia e terminava por ressignificar os conflitos econômicos e reforçar as diferenças entre o “eu” e o “outro”, num moto-contínuo virtualmente imparável. Quanto mais a sua tia era convencida que ela estava “certa” em odiar, mais ela amava quem lhe permitia – finalmente – dar vazão aos seus motivos “indizíveis” do ódio . Não se trata do déficit público, da redução de investimentos em educação ou saúde, de um mal feito administrativo aqui ou acolá. Não é pela independência dos preços da Petrobrás ou pelo fim da administração governamental dos preços da energia. É claro que estas ações interessam materialmente a grupos específicos que são capazes de pagar milhões de mensagens falsas em redes sociais. Mas o fato é que sua tia não é “vítima” de uma maquinação ardilosa. Sua tia é parte feliz na bestialidade que surge a partir das maquinações. E isto porque ela sempre quis ser o que finalmente poderá ser, findas as amarras sociais e comportamentais.

O romantismo sobre as massas, vistas pela esquerda sempre como oprimidas e injustiçadas, se esvaia ante aos olhos incrédulos de uma interepretação marxista clássica.

O fascismo se espalha como uma chaga porque efetivamente sempre esteve lá, latente. Basta um ambiente propício. Nos anos 30, o rádio, e hoje as redes. Bastava um conflito distributivo acirrado como a crise de 1929 ou de 2008/2010. Basta que os liberais e as instituições abram mão de punir o policial abusador, o juiz político, o parlamentar incitador de ódio e o empresário corrupto.

O Brasil pode ser o único caso de vitória democrática sobre o fascismo. Ainda há tempo. Ainda é possível.

Eu acredito.

Eu preciso acreditar.

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