Cuba e as eleições

Por Elaine Tavares. 

Aviso aos navegantes. Cuba é um país socialista, então não esperem os espetáculos pirotécnicos nas eleições gerais. Lá, quem manda não é o dinheiro, muito menos grupos de empresários ou multinacionais. Lá, quem manda é a população organizada e atuante. O sistema não se organiza como nas ditaduras capitalistas, nas quais existem vários partidos – muitos deles apenas legendas de aluguéis –  que, na prática, são dominados por grupos de interesses. No Brasil, por exemplo, temos os fazendeiros, os pastores, os empresários, que conformam os núcleos mais poderosos dentro do Congresso Nacional e nos governos. A vontade popular se expressa apenas nas eleições e, no geral, manipulada pelo poder da propaganda. Ou seja: o partido que tem mais dinheiro é o que aparece mais sedutor na televisão, além de comprar descaradamente os votos.

Em Cuba é diferente. Lá, a população se organiza por bairro e o processo de poder é capilar. A participação não se dá apenas na eleição, ela é cotidiana e sistemática. Existem comitês de defesa da revolução por rua, existem movimentos de massa, existem as instâncias municipais, estaduais e nacionais, todas conduzidas pela vontade popular. Os representantes são escolhidos em assembleias de bairro e escolhidos pela sua ação na comunidade. Impensável alguém que não tem trabalho comunitário comprovado atuar como representante de alguma região.

Assim que as eleições gerais realizadas nesse domingo – que a mídia comercial tripudia chamando de “combinadas” – são eleições de referendo de decisões tomadas anteriormente, nos debates de bairros e municipais. Nesse sentido podemos dizer que são combinadas mesmo. A diferença é que a combinação não é feita numa sala fechada, visando os interesses de grupos bem específicos. É uma combinação que a população faz consigo mesma.  A mídia comercial brasileira trata de ridicularizar porque se ela disser a verde pode fazer com que as pessoas comecem a querer viver numa democracia como a cubana. Porque lá, quem mada são as gentes organizadas. O índice de presença nas urnas registrado nesse domingo foi de 68%.

E a combinação popular também já tem bastante claro que Cuba precisa avançar. A ilha ainda vive o bloqueio criminoso imposto pelos Estados Unidos, que impede o país de negociar com muitos parceiros, encarecendo assim a vida e provocando a escassez. Ainda assim Cuba vem resistindo bravamente por conta do compromisso do seu povo com a revolução.

Na eleição realizada nesse domingo foram escolhidos os representantes nas assembleias estaduais e os da assembleia nacional. Agora, são os membros da Assembleia Nacional que escolhem a pessoa que será o novo presidente da nação. E, como já mostramos, na democracia cubana, quem decide sobre as coisas é o povo. Por isso, o nome que deverá ser indicado para a presidência já está bastante claro para toda a gente. Porque esse tema vem sendo debatido à exaustão pelos movimentos sociais, sindicatos e outros movimentos de massa cubanos. Esse tema é falado na televisão aberta e discutido pelos dirigentes abertamente. Nesse sentido, tudo já está combinado mesmo. A população sabe quem é o nome proposto e já discutiu por anos a fio essa possibilidade.

Cuba viveu uma revolução em 1959 e, desde aí vem sendo governada por pessoas que construíram esse processo revolucionário. Fidel Castro e seu irmão Raul foram líderes da guerrilha, estiveram na linha de frente, comandaram a revolução. Assim como eles, outros revolucionários estiveram nos cargos mais importantes até o momento. A chamada geração direta da revolução, os históricos. Agora, é chegada a hora de passar o bastão. As lideranças dos anos 50 já estão idosas e uma nova geração, preparada na difícil tarefa de enfrentar o império, se formou. É tempo então de essa juventude assumir o comando da ilha.

Uma das pessoas que tem sido preparada para a direção do processo cubano é Miguel Diaz-Canel, nascido em Villa Clara, em 20 de abril de 1960. Formado em engenharia eletrônica em 1982 ele foi parte das Forças Armadas até 1985 quando então passou a lecionar na Universidade de sua cidade, Las Villas, onde também foi primeiro-secretário da União de Jovens Comunistas. Nos a nos 90 iniciou sua atividade diretamente no Partido Comunista e em 1993 foi eleito primeiro-secretário do Comitê Provincial de Villa Clara. Mais tarde foi escolhido pela sua comunidade para a assembleia provincial. Em 2009 assumiu o Ministério da Educação e em 2012 foi escolhido como vice presidente do Conselho de Ministros. No ano seguinte chegou ao posto de primeiro vice-presidente do Conselho de Estado e seu nome já começou a aparecer como o provável sucessor de Raul.

Essa caminhada de Miguel foi acompanhada passo a passo pela sua comunidade que veio respaldando seu nome a cada eleição. Logo, o nome dele para assumir a presidência não é surpresa para ninguém. Porque, ao contrário das chamadas democracias burguesas, nas quais um presidente pode ser construído artificialmente pelas forças empresariais e/ou religiosas, em Cuba isso seria impensável. Alguém para ser apresentado como possível presidente tem de ter vivido a vida comunitária em todas as suas instâncias. É o caso de Miguel.

Por isso que no dia 19 de abril, quando a Assembleia Nacional se reunir para escolher o novo Conselho de Estado e o presidente do país, não haverá surpresas. Não porque Cuba seja um país antidemocrático, no qual a cúpula dirigente decide tudo. É o contrário. Não haverá surpresas porque Miguel foi sendo preparado e testado às vistas da população e com o aval dela.
Sendo assim, esqueçam as pregações ideológicas dos meios de comunicação brasileiros que insistem em chamar Cuba de ditadura e seus líderes de antidemocráticos. Pensem que o sistema é outro, que a organização é outra e procurem entender o processo fora da caixa do pensamento burguês.

Vejam bem, por que a mídia não questiona o sistema estadunidense de escolha de presidente, que também não é por eleição direta? Quem vota para presidente são delegados eleitos nos estados, e com todo o processo dominado por grupos de interesse empresariais. Lá, é o dinheiro que comanda. Em Cuba não. O processo é outro. A população participa diretamente e discute as questões do país de maneira aberta e massiva. Não é um voto ritual. É participação direta desde a base.

Na ilha socialista Miguel Diaz-Canel será o primeiro dirigente fora do grupo histórico, e terá grandes desafios pela frente. A mídia ocidental burguesa já arreganha os dentes dizendo que a Cuba vai cair. Sem os irmãos Castro o socialismo vai se acabar. Anunciam que os novos dirigentes, fruto de uma geração que não viveu nem o que havia antes da revolução, nem a revolução, levarão Cuba de volta ao capitalismo. Bom, é um processo que precisamos acompanhar. A  população cubana tem bastante clareza de como era a vida antes da revolução, sabe que ainda tem muito que avançar, mas não abre mão das conquistas da revolução. O desafio de seguir sendo livre e soberana, apesar de bloqueada criminosamente, seguirá sendo enfrentado. Não dá para fazer previsões sobre o que passará com Cuba. Só o povo cubano pode dar essa resposta.

Que venha o novo tempo e que Cuba siga seu caminho soberano.

_

 

Elaine Tavares é jornalista.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.