Como trabalhar com o folclore em sala de aula?

2017-06-19 22:51
Como trabalhar com o folclore em sala de aula?

Por Ana Basílio e Julia Dietrich.

O termo folclore deriva do inglês folk-lore, folk (povo) e lore (conhecimernto) e contempla os vários tipos de saberes e vivências do homem – linguagem, crenças, brincadeiras, músicas, histórias, lendas e outras formas de expressão. O folclore está mais presente em nossas vidas do que imaginamos, isso porque ele contempla os saberes de cada um adquiridos ao longo da vida.

“Todas as pessoas são submetidas a essa série de conhecimentos desde o nascimento e vão, conforme a convivência, assimilando brincadeiras, gírias, expressões, o que leva à ampliação de seu universo de saberes populares”, explica o professor de cultura popular e etnomusicologia da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), Alberto Ikeda.

Isso significa que o folclore compreende as expressões, o repertório de cada indivíduo. O fato de o associarmos quase que exclusivamente às lendas, como Saci, Halloween e outras é um “equívoco”, na visão de Ikeda: “é preciso compreender o espectro folclore em todas as suas dimensões”, orienta. Embora as lendas sejam legítimas, elas acabam configurando um vício, sobretudo nas abordagens escolares. O importante, segundo o educador, é considerar saberes diversos, dos professores, alunos, familiares e de quem mais possa contribuir com o processo educativo.

Ikeda explica como esse repertório pode se aproximar da educação e ser trabalhado de maneira interdisciplinar.  “Por exemplo, as expressões orais, como os sotaques ou regionalismos podem ser abordados em português; as receitas de bolo das avós, por exemplo,  são repertório para as aulas de ciências, as cantigas e os jogos também têm essa força cultural e podem induzir a reflexões mais críticas, por exemplo, a brincadeira barra-manteiga mostra a partir do verso “barra-manteiga na fuça da nega” uma perspectiva autoritária, segregadora”.

No entanto, para que esse conjunto de saberes agregue didaticamente, é preciso colocar em prática uma educação aberta, que deixa de ser centrada e autoritária e incorpora diversos saberes. “A cultura popular pede o reconhecimento do saber do outro ”, aponta o especialista ao recomendar que as escolas não se pautem apenas por saberes específicos ou considerados válidos. “A ideia não é negar o saber canônico, mas aceitar que ele não é a única forma possível”, finaliza.

O folclore em sala de aula

Parintins, em Manaus (AM), a milonga em Porto Alegre (RS), a dança do coco em Fortaleza (CE), a viola de cocho em Mato Grosso, os vários Carnavais, em especial na capital baiana e no Rio de Janeiro, o pastoril em Recife (PE), as festas juninas do nordeste e sudeste e tantas outras manifestações que compõem o vasto repertório do folclore nacional não apenas traduzem a riqueza e a diversidade do país, como explicam muito da nossa história e das populações que aqui se integraram. Registradas nas danças, nos corpos, na culinária, na literatura, nas curas e rezas e no imaginário da sociedade, a cultura popular se relaciona diretamente com as áreas do conhecimento e com a perspectiva de desenvolvimento integral dos estudantes.

Buscando investigar essa relação, o Centro de Referências em Educação Integral apresenta algumas manifestações folclóricas de algumas capitais brasileiras e como elas podem ser trabalhadas no cotidiano das escolas.

Os fantasmas de Belo Horizonte (MG)

“Eu sou a moça fantasma; que espera na Rua do Chumbo o carro da madrugada”. O início de “Canção da Moça-fantasma de Belo Horizonte”, do poeta Carlos Drummond de Andrade resume de forma singela e triste a riqueza de um dos pontos altos do folclore da capital mineira. Espíritos, assombrações, aparições… os populares fantasmas, que assombram prédios e velhas casas esquecidas da cidade falam de importante período histórico da região, que, em constante mutação e processo de expansão urbana acabou por “abandonar” ou “destruir” importantes construções do território.

Segundo a pesquisadora Heloísa Starling, que estuda o folclore fantasmagórico da região, as aparições são formas dos moradores pensarem e, de certa forma, resgatarem a cidade antiga, e aquilo que foi perdido ou reconfigurado. Para ela, os fantasmas são a memória do lugar. Além de motivarem a discussão sobre o espaço público, a pesquisa sobre o folclore dos fantasmas pode estimular a contação de histórias e resgate da memória que as pessoas têm de suas cidades, origens e famílias.

Temática muito rica não apenas na capital mineira, os fantasmas podem ser bom ponto de partida para discussão sobre a história da cidade, estimulando que os estudantes pesquisem sobre a história e narrativas de determinado território. Outra ideia possível, é estimular a discussão de como o fenômeno aparece na literatura regional, como o exemplo apresentado de Drummond. Além de estimular a leitura das obras, é possível estimular que os estudantes criem suas próprias narrativas, inspirados na contação das histórias locais ou na leitura das obras.

Câmara Cascudo e a memória do Rio Grande do Norte

Os autos e danças populares marcam a cena folclórica do Rio Grande do Norte. São tradicionais o côco, o bumba-meu-boi, a emboladas, os presépios e os fandangos. Com inspirações do cenário regional, os autos narram, entre outros exemplos, a vida dos marinheiros e das conquistas marítimas, dos vaqueiros e da agricultura, das religiões e as manifestações de fé.

Considerado o maior folclorista do Brasil, Câmara Cascudo (1898), registrou a história das Danças Populares no estado desde a primeira apresentação oficial de uma dança folclórica em Natal, em 1812. Dentre suas obras, está o famoso Dicionário do Folclore Brasileiro, a maior obra sobre os personagens do imaginário popular brasileiro.

Além de viabilizar a discussão sobre História, Geografia e Estudos Sociais, o trabalho a partir da obra de Câmara Cascudo e das investigações das manifestações folclóricas do território permite estimular que o estudante se aproxime do território e dos conhecimentos e memórias da sua comunidade. Paralelamente, dada a característica das manifestações, é possível trabalhar a literatura, a partir da poesia e narrativas dos Autos, a prática física e cultural a partir das danças e as Artes Plásticas a partir das vestimentas e cenários das encenações.

Curitiba e a diversidade

A cidade de Curitiba foi um palco muito importante para a imigração da Europa para o Brasil. Diversa e miscigenada, a população da capital paranaense tem origem polonesa, grega, ucraniana, portuguesa, italiana e alemã, sem esquecer de outros países do globo, como o Japão e a Bolívia, cujas migrações muito contribuíram para a formação do folclore local.

Além disso, a cidade reúne muitas lendas e festividades locais, sempre em diálogo com a diversidade étnica que a compõe. Entre tantas outras, estão as festas católicas, como Nossa Senhora da Luz de Pinhais, as de colheita, como o Festival de Primavera Haru Matsuri e a Festa da Uva.

Para educadores, a chave está no trabalho dessa diversidade. Conhecer a origem das populações locais apoia a compreensão da própria formação e história da cidade,além de viabilizar a aproximação com a história de outros povos e da geografia, literatura e artes de outros países. Assim como Curitiba, muitas cidades brasileiras reúnem essa diversidade. Estimular que os estudantes pensem sobre seus próprios percursos e descubram suas origens familiares pode dar início a um trabalho de pesquisa coletivo sobre os diferentes povos que compõem suas origens, viabilizando ações interdisciplinares e relações potentes com o território.

Cultura Candanga e a criação de mitos

Seu Estrelo é um artista popular, que veio e celebra o povo; ele nasceu do ventre de uma árvore, filho de Laiá e de Rio. Reza a lenda que Laiá se apaixonou pelo Rio e seu irmão, muito querido, deu-lhe de presente um sonho, para que nele pudesse se encontrar com seu amado Rio. No devaneio, o Rio entrou em Laiá, inundando-a. Quando acordou, Laiá guardou o sonho em uma árvore e nove meses depois Seu Estrelo nasceu.

A narrativa, criada como uma brincadeira folclórica, é disseminada pela trupe Seu Estrelo e Fuá do Terreiro, que há mais de dez anos promove oficinas e apresentações de dança e precursão, confecção de figurinos e apresentações de circo para celebrar a cultura candanga – cultura de quem nasce em Brasília, e como eram chamados os trabalhadores que imigraram para construir a capital.

Candango é aquele que nasce em Brasília. Sua origem vem da forma como eram chamados os trabalhadores que imigraram para construir a capital. De origem africana, candango significa “ordinário”, mostrando como eram considerados aqueles que edificaram a cidade do Distrito Federal. Alguns estudos ainda apontam que os escravos utilizavam a palavra para se referir aos senhores de engenho.

O grupo, ao cantar e folguear o mito do Seu Estrelo, acabou criando um ritmo próprio, o “samba pisado”, que mistura elementos do maracatu rural e do cavalo marinho, típico de pernambuco. A iniciativa, celebrada por muitos brasilienses ou candangos, permite que histórias se disseminem e ajudem a popularizar a recente, mas presente cultura da cidade. Seu folclore, reinventado diariamente pelos moradores, reúne elementos de outros vários folclores, de diferentes regiões do Brasil.

Nessa perspectiva, educadores podem trabalhar a cultura do Distrito Federal e dos candangos, buscando compreender a origem e histórias dos seus estudantes. De onde vieram? Quais são suas memórias e tradições familiares?  Será que já ouviram falar de outros Seus Estrelos, Laiás e Rios? E, mais ainda, a partir do exemplo, é possível investir na criação coletiva de um novo mito, discutindo os processos de construção do folclore e memória local.

Fonte: Educação Integral.

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