Cartografia dos Ataques Contra Indígenas convida a reflexão sobre dor, tempo e indiferença

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Cartografia dos Ataques Contra Indigenas (Caci) se baseia em registros de assassinatos de indígenas feitos entre 1985 e 2015.

Por Alceu Luís Castilho*.

Mapa lançado em SP permite que internauta perceba a dimensão da violência contra etnias no Brasil; o que se vê entre 1985 e 2015 é um bombardeio, redimensionado com a soma das histórias esquecidas

Assassinado: Adenilson Barbosa. Idade: 15 anos. Ano: 2013. Local: Terra Indígena Caarapó. Município: Caarapó (MS). O internauta pode ver no mapa. Clicar, mecanicamente, e observar que, somente ali, mais 26 indígenas foram assassinados.

Adenilson e dois amigos saíram para pescar no Córrego Mbope’i, que cruza fazendas do entorno da Aldeia Tey Kuê. Foram abordados por pistoleiros ligados a Orlandino Gonçalves, criador de gado na Fazenda Sardinha. Os homens atiraram. Os três fugiram. Mas Adenilson ficou preso a uma cerca. Foi agredido a coronhadas e depois alvejado com um tiro na cabeça. O fazendeiro confessou o crime e responde em liberdade.

Essas duas formas de ver o mesmo fato convivem na Cartografia dos Ataques Contra Indigenas (Caci), lançada nesta terça-feira (11/10). O projeto desenvolvido pela Fundação Rosa Luxemburgo, em parceria com armazém Memória e InfoAmazonia, baseia-se nos registros de assassinatos de indígenas feitos entre 1985 e 2015 pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). Isolados, não são inéditos.

O que muda é a percepção da dor. “Caci”, em Guarani, significa exatamente dor. A cartografia oferece uma concretude espacial e (diante do padrão observado nos assassinatos) uma amplitude. Um fato, uma sequência de fatos, e uma lógica. A história que se segue a cada assassinato é um zoom e um soco no estômago do homem branco. Pois alguém, ali, atirou, ou espancou – em nome de algo. De um modelo.

É como se fosse a cartografia de um bombardeio.

Observemos um caso de 1985. O Brasil vivia o período de redemocratização. Adolfo Macaxali morre em Bertópolis (MG), quase na Bahia. (O internauta deve clicar em 1985, na busca, e observar a lista – sim, ainda incompleta – de cinco casos reunidos pelo site.) Motivo: “A vítima foi morta de fome por um empregado da cantina da Funai”.

Mais um caso de 1985. Waldemar Apinajé é assassinado em Tocantinópolis (GO). Descrição: “A vítima foi morta por um delegado policial”.

E vejamos outro caso daquele ano, quando o Brasil chorava a morte de Tancredo Neves. Oedson Eduardo da Silva, em Cantá (RR). “Encontrado morto na maloca do Moscou, em Serra da Lua”.

Notem que, nesta narrativa, passamos do tempo passado para o tempo presente. Pois é disso que se trata. De reavivar a memória de uma civilização que, há 500 anos, mata indígenas.

Essa história nos é lembrada a partir da cartografia. Clicamos em um caso e lá vai o cursor para o local exato. 1990. Oito casos registrados. Damião e Mário Macuxi são mortos em Normandia (RR), na Raposa Serra do Sol. 1995. 54 casos registrados. Ângelo Miguel é assassinado a tiros na Terra Indígena Inhacorá, em São Valério do Sul (RS). Conflito de terras. Os indígenas pediam que os acusados deixassem a área.

2000. Os casos não aparecem. (O site precisa de atualização. Mas não faltam horrores.)

2005. O cacique João Guajajara é executado com três tiros na Terra Indígena Bacurizinho, em Grajaú (MA). Milton Careca fazia ameaças, dizia que todos os Guajajara deviam deixar a aldeia. A Funai e a polícia sabiam das ameaças. A Cartografia dos Ataques Contra Indígenas nos conta que o conflito ocorreu pela “pressão dos exploradores irregulares da soja, carvão e eucalipto”. A filha de 16 anos do cacique foi estuprada.

2010. “Jovem não identificado”. “Adolescente não identificado”. “Homem não identificado”. Mas são 61 casos, ao todo. Muitos são de brigas familiares, ou entre os próprios indígenas – em boa parte potencializadas pelo álcool. Outros, não. Ou não se sabe o motivo. Quem matou a pauladas Raimundo Anilton Alves da Silva, em Paragominas (PA), na Terra Indígena Alto Rio Guamá?

2015. Semião Vilhalva é assassinado na Terra Indígena Ñande Ru Marangatu, em Antônio João (MS). Ele tinha 24 anos. Seu rosto foi perfurado por uma bala. “O ataque foi premeditado e perpetrado por fazendeiros”, diz o site. Lemos que a morte de Simeão é uma consequência da decisão do governo federal de paralisar os procedimentos de demarcação. A Terra Indígena foi homologada em 2005, mas o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu a decisão, “submetendo as famílias a uma crise humanitária já apontada por organismos internacionais como uma das mais graves do mundo”.

Se o leitor der um zoom verá mais seis casos na mesma TI. Se diminuir o zoom, constará que houve 400 assassinatos de indígenas no Mato Grosso do Sul. E pode voltar ao texto sobre Semião: “Além da situação de vulnerabilidade, os Guarani são alvos, diariamente, de ações e discursos criminosos de incitação ao ódio e à violência proferidos por parlamentares ruralistas com o objetivo de colocar a sociedade sul-mato-grossense contra eles”.

2020. 2025. 2030…

*De Olhos nos Ruralistas

Fonte: MST.

 

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