‘Baronesa’: o potente retrato da periferia sob a ótica da mulher

Andreia vive o grande dilema de sair de sua comunidade, onde tem o suporte de amigos e familiares, para ir para uma ocupação por conta da violência. Imagem: Divulgação.

O universo da produção cinematográfica, dentre os vários recortes que podem ser feitos, perdura como sendo um dos meios profissionais mais sexistas. O cinema brasileiro também não escapa desta crítica. Apenas mais atualmente, com uma maior visibilidade de pautas feministas, esse quadro tem se revertido (a passos de formiga, diga-se de passagem) — e é dentro dessa conjuntura que encontra-se o cinema de Juliana AntunesBaronesa (2016) é um dos diamantes do novíssimo cinema brasileiro ao abordar a vida na periferia de Belo Horizonte com a protagonização de mulheres, sob a direção de mulheres.

A história de Andreia, Leid e “Negão” (Felipe Rangel Soares) em uma periferia da capital mineira sintoniza todas as temáticas do dia a dia dos seus arredores, captadas por uma câmera que se movimenta em harmonia com os personagens. Os tópicos são variados, versando desde o orçamento para a reforma da casa de Andreia, tabus sobre masturbação feminina, criação de filhos ou sobre personagens paralelos que não estão mais ali (ou estão encarcerados ou a sete palmos do chão). Ao mesmo tempo, surge um perigo constante de uma iminente guerra entre a polícia e as facções. A protagonista Andreia, então, sai daquele lugar em busca de mais segurança em uma ocupação — Baronesa, que dá nome ao filme.

Com a ameaça constante da eclosão de uma guerra entre os policiais e os moradores, Andreia luta pela sobrevivência junto a seu amigo, “Negão”. Imagem: Divulgação.

Longe da narrativa que constrói o filme, um de seus maiores trunfos, no entanto, é a capacidade de unir ficção e documentarismo num estilo próprio, muito único de Juliana. Baronesa se encaixa num rol de grandes filmes que conseguem ser críticos de uma sociedade oprimida, porém sem necessariamente ser panfletário — ao mesmo tempo em que temas muito carregados são abordados, há uma leveza no discurso, difícil de encontrar. O estopim e o que move os personagens é apenas um: a violência de um ambiente tão hostil e pouco amistoso, onde a resistência é a própria sobrevivência.

‘Baronesa’ demonstra uma consciência de alteridade bastante madura entre sua realizadora e suas personagens.

Não bastassem todas as qualidades de um filme que transcendem tanto a estética quanto a temática, a história por trás de sua produção é ainda mais interessante. Juliana produziu Baronesa como um trabalho de conclusão de seu curso de graduação. Durante três anos de intensa pesquisa em torno de comunidades em Belo Horizonte cujas as alcunhas eram nomes femininos, a diretora passou a se inserir também em ambientes femininos, especialmente em salões de beleza.

Foi além: chegou a morar na casa de Leid, onde era vista constantemente como uma estranha fora do ninho. Lá, ao encontrar suas personagens, fez todo um preparo muito bem elaborado — de aproximação e escuta. Talvez seja esse o tempero que faz do filme um tanto singular: seu processo de produção, quase que artesanal e tão raro em tempos de extensa produção de filmes sobre a temática. É certo que nesse processo houve uma construção muito madura de alteridade, tanto da realizadora quanto de suas personagens.

O roteiro, também de Juliana, é tão orgânico que poderia muito bem ser um episódio de uma série, uma vez que instiga o espectador a querer saber mais sobre a vida de cada uma das personagens, muito pelo carisma e pela empatia que transmitem. Qual é, afinal, o destino de Andreia ao mudar-se para Baronesa? Leid continua criando seus filhos e separa-se da companhia da amiga? “Negão” permanece na favela, mesmo na iminência de uma guerra? São pontas que acompanham quem assiste mesmo após o fim do média-metragem — e que, como sabe-se, são questões cotidianas de quem vive e resiste dentro desses espaços.

Baronesa nasce, enfim, como uma pérola do cinema de resistência — desde sua produção com recursos escassos até sua potente história, que faz um recorte muito contemporâneo e, infelizmente, ainda pouquíssimo abarcado no cinema brasileiro.

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