Araguaia: para salvar ou para destruir mesmo?

Por Lúcio Flávio Pinto.
Araguaia é um álbum em formato grande, com capa dura, papel de qualidade e fotos bonitas, que se espalham por 116 páginas, não numeradas. O autor da apresentação é Luiz Carlos Santos, então presidente de Furnas Centrais Elétricas, empresa estatal do sistema Eletrobrás. Em muitos aeroportos, um anúncio bem visível proclama o orgulho da empresa de ser responsável por 40% da energia gerada no Brasil todo.

Furnas decidiu patrocinar essa publicação para comemorar “o renascimento de um rio”, que é “a alma do Centro-Oeste”. Embora dotado de grande vitalidade, o Araguaia “já esteve ameaçado pela ação irresponsavelmente predatória do homem em relação ao meio ambiente”.

O que ameaçava o rio, divisa natural entre Goiás e Mato Grosso, eram “o desmatamento e as queimadas de suas matas ciliares, transformadas em pasto; a caça impiedosa; a poluição em seu leito e margens, causada por turistas sem preocupação ambiental; a pesca fora das épocas recomendadas”, relata o presidente de Furnas.

Seu curto texto é único contraponto por escrito às dezenas de fotografias de vegetação, animais, peixes, pessoas e paisagens, “o registro silencioso de imagens fascinantes”, a atestar a “exuberância da natureza, (que) explode em uma magnífica festa de vida”. Começando no Pantanal, passando pelo Bananal (a maior ilha fluvial do planeta) e terminando no Tocantins.

As imagens e o texto proporcionariam ao leitor uma excursão maravilhosa, convida o executivo: “embarque nessa viagem, mergulhe no Araguaia e terá vivido uma experiência inesquecível”.

Entusiasmado por essa apresentação, o leitor antenado nos acontecimentos recentes podia concluir, otimista: a mais poderosa das estatais da energia é contra violar o magnífico ecossistema do Araguaia. Ela quer que essa região única, que renasceu nas páginas do álbum-documentário, permaneça como reino da natureza.

A impressão pode ser falsa. O livro de Furnas não tem data. Não é detalhe irrelevante. Certamente um leitor mais exigente há de se perguntar: e quando foi mesmo que ocorreu o tal renascimento do Araguaia, citado na apresentação?

Nada há a respeito. Serve de parâmetro o fato de que o polêmico Luiz Carlos Santos presidiu Furnas entre 1999 e 2002, na conturbada passagem do poder dos tucanos para os petistas.

O livro é um mero portfólio visual. Por isso mesmo, desmerece o trabalho de mais de uma década que a empresa vinha desenvolvendo, “no elenco dos protetores da região do Araguaia”, segundo seu então presidente. Nada fala dessas pesquisas importantes.

Mesmo com essa incomum escassez de referências, há uma informação solta que contrasta com a pretendida visão panteísta e bucólica, rara numa corporação energética: além de varejar pela natureza selvagem, Furnas vinha pesquisando na área “dos reservatórios da Serra da Mesa e Corumbá”.

Os dois conjuntos aquáticos não foram criados pela natureza: são lagos artificiais, reservatórios de água para mover as máquinas que geram energia. É o homem aparecendo nos domínios da natureza. Todos os que intervieram no Araguaia o destruíram um pouco. O barrageiro seria a gloriosa exceção?

Diga-se que as duas represas de concreto não se localizam no Araguaia. O rio se junta ao Tocantins, do qual é gigantesco afluente, de tamanho equivalente ao do curso d’água principal, mas dele não recebe águas. Claro que os estudos nas bacias vizinhas dos rios Parnaíba, Corumbá e Alto Tocantins podem ser úteis e proveitosas. Mas não é no Araguaia.

Este é outro “detalhe” que não pode ser subestimado. Há duas décadas trava-se uma queda-de-braço entre os “desenvolvimentistas”, que querem aproveitar todos os rios amazônicos com potencial energético comprovado, e os que pretendem manter intactas algumas bacias especiais.

A do Araguaia, com 357 mil quilômetros quadrados (seria o 5º maior Estado brasileiro), tem sido considerada, pelos especialistas, como exemplo categórico de um rio que não deve ser barrado para geração de energia. Seu uso mais recomendado pela ciência é aquele ilustrado pelas imagens do álbum anódino que Furnas mandou publicar, como se não fosse um trabalho de defesa da natureza, embora aparentando ser, mas uma gazua de relações públicas subliminar em defesa das hidrelétricas. Um habeas corpus preventivo. Ou um boi de piranha para permitir a passagem sem risco da manada de máquinas pesadas pelo rio futuramente represado.

Em 2001, surdo aos argumentos contrários, o governo federal abriu licitação para a construção da hidrelétrica de Santa Isabel, a maior das sete inventariadas como possíveis no Araguaia. No ano seguinte foi assinado o contrato de concessão com um consórcio liderado pela Vale, a segunda maior mineradora do mundo, e outras corporações gigantescas: a americana Alcoa (líder mundial do produto que mais absorve energia, o alumínio), a também multinacional anglo-australiana BHP Billiton, Votorantim e Camargo Corrêa.

Em 2009 a tramitação do projeto foi suspensa. O Ibama se recusava a conceder o licenciamento ambiental da obra. Hidrelétrica e Araguaia eram incompatíveis, à luz do conhecimento científico. O governo, finalmente, se sujeitou à razão? Ledo engano, como o do álbum.

A capacidade de geração da usina foi reduzida à metade, embora ainda do porte de uma hidrelétrica de pouco mais de mil megawatts (menos de 600 MW firmes, disponíveis o ano inteiro). Com um paredão de concreto 20 metros mais baixo, o reservatório ficou bem pequeno, com 160 quilômetros quadrados (5% da área do lago de Tucuruí, embora a usina do Tocantins, a 4ª maior do mundo, tenha potência de energia oito vezes maior). Suas máquinas funcionariam a “fio d’água”, em regime de água corrente, sem estocá-la.

Um perfil supostamente definido para não causar maior impacto ambiental, combinar com a paisagem do Araguaia, não destruir o Éden que Furnas teria ajudado a criar (ao menos no álbum fotográfico) e fornecer a energia necessária aos donos da hidrelétrica. O novo licenciamento caminha agora tão silenciosamente quanto o livro sem data e sem maior identificação da grande estatal.

O fato logo estará consumado, restando ao leitor, extasiado pelas belas imagens relaxar e aproveitar, como recomenda aquele típico ditado dos nossos irmãos da América do Norte?

Parece que sim. Mesmo que não gerasse energia, a barragem de Santa Isabel seria necessária para garantir a plena navegabilidade do rio, a regularização hídrica da bacia e outras obras ditas “complementares”, sem as quais os muitos bilhões de reais já aplicados iriam por águas abaixo.

Quando a imprevidência é um reservatório sem limites, o seu resultado é o prejuízo. No caso, sua materialização no Araguaia seria o fim do trombeteado renascimento. À maneira de Carlos Drummond de Andrade, seria possível dizer que ele é uma fotografia sobre papel cauché. E como doi.

Lúcio Flávio é jornalista paraense. Publica o Jornal Pessoal (JP).

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