Amigo velho

Por Luciane Recieri.
Tenho amigos velhos. Muitos. Digo isso, velho, com a licença que Ariano Suassuna me deu. Disse que esse “negócio de idoso fica feio, é velho mesmo.” Então, tenho amigos velhos e esta é uma grande vantagem. Sei que sempre estarão disponíveis, não que eu queira escravizar alguém pra ter na hora certa, é que amigo tem por natureza estar à disposição, mas nos tempos que se seguem as pessoas estão muito ocupadas com o vazio e não sabem mais conciliar o sono e a vigília, o tempo e o ouvido. Velhos sabem conciliar tempo e ouvido.Tenho sabido que é muito comum velhos morrerem de solidão. Tenho sabido que é muito comum “novos”morrerem de solidão. Digo novo mesmo, porque acho cafona a palavra jovem e Suassuna não me deu outra pra botar no lugar.
Tem hora que acho que os novos vão morrendo de Alzheimer, vão perdendo a memória afetiva e a orientação. Também acometem os novos os distúrbios da linguagem e uma incapacidade de comunicação.
Tenho amigos velhos pra saber que se ficar doente um dia terei sopa e mezinha, não me trarão drogas inúteis que me farão piorar. Aprenderei a adivinhar as chuvas e sem qualquer ciência inútil, me falarão da vida e como resolver qualquer problema do jeito mais simples. Amigos velhos ensinam que chorar pela morte não adianta e que paciência é algo que a gente adquire tendo paz para esperar, não sendo covarde ou omisso, apenas reconhecendo que a paz nos ajuda a esperar que o outro tenha paz para refletir também. Tendo amigos velhos não fugirei aos velórios e aprenderei a fazer visitas. Velhos visitam sempre, seja um bebê que chega, um amigo doente, alguém que sofreu enchente, um recém chegado da guerra, um companheiro defunto, isto porque talvez entendam que estão por pouco aqui e que devem usar o tempo que têm para ir encerrando o expediente do coração.

Tenho amigos velhos porque eles me ensinam palavras que, com alguma surpresa, acho depois no dicionário, escritas completamente diferentes do que me falaram, eles, os velhos, têm um dialeto próprio, quase um pidgim, misturam em suas gramáticas rudimentares uma língua de contato, contato mesmo, entre o que vemos e nunca vivemos. Vemos e ainda não vivemos.

 

Imagem tomada de: http://www.lukor.com/ciencia/ilusiones_opticas_viejoonina.htm

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