América Latina em luta, e o mundo a arder

2017-04-07 10:10
América Latina em luta, e o mundo a arder

Por Elaine Tavares. 

Essa semana marcou grandes protestos em vários países da América Latina, deixando claro que a nova investida do capital não é algo que acomete apenas o Brasil, com Temer e suas contrarreformas, destruidoras de direitos. Na verdade é uma ofensiva mundial, com consequências desastrosas para a maioria da população. Mortes, destruição, superexpoloração, incentivo à violência, à discriminação, fomento do medo e do ódio. O mundo caminhando sob o signo da barbárie.

E, para quem estuda história, tudo acaba se ligando e fazendo sentido. Não foi sem razão que na mesma semana em que no Brasil, Argentina e Venezuela as gentes se mobilizaram na defesa de direitos e contra o avanço da exploração capitalista, as redes sociais foram inundadas com cenas horripilantes do ataque a um povoado na Síria, com armas químicas. Como um vírus, as imagens de crianças morrendo asfixiadas, se espalhou, levando com elas toda a carga do terror que se desata pelo oriente médio desde a chamada “primavera árabe”, que foi, na verdade o início de um tenebroso inverno para as gentes daquela região. Vítimas de sua riqueza, as populações amargam a batalha das grandes potências pela região. E como sempre, na luta entre os interesses do capital, o que menos importa são as pessoas. Pelo contrário, elas são varridas sem dó.

Assim, quando essa triste sexta-feira amanhece, o que toma conta dos noticiários e das redes sociais é o ataque dos Estados Unidos à Síria, sendo saudado como uma necessidade da “democracia” e do “mundo livre” contra os “loucos” árabes. A ideologia fazendo seu papel com maestria. As imagens dos 56 mísseis sendo disparados em direção do país governado pelo “carniceiro Assad” que espalhou arma química nos seu próprio povo, foram as que  dominaram os noticiários. Agora sim, dizem os comentaristas e até certa “esquerda”, o oriente médio vai entrar na paz. Agora sim os Estados Unidos, a grande esperança branca, vão acabar com o terrorismo islâmico.  Todo o resto está borrado. Inclusive a verdade sobre as armas químicas.

A luta gigantesca do povo argentino que realizou ontem uma greve geral simplesmente não apareceu no jornal. Uma notinha de rodapé, talvez. Pois na Argentina tudo parou. Nas ruas não se via qualquer movimento, a não ser o das marchas e o dos milicos. Não circularam os transportes públicos, não saíram os aviões. O aeroporto simplesmente fechou, coisa que não acontecia há décadas. O confronto foi feroz. O governo colocou na rua todo seu efetivo policialesco, disposto a tudo. A ministra de Segurança, Patrícia Bullrich saudou, nas páginas do La Nación, que o governo aplicou em 100% a ação anti-piquetes mostrando que não precisa de nenhum juiz para garantir a ordem. O governo de Macri a garante com as armas. Uma frase do mais alto nível de fascismo. E uma ação da mais extrema violência contra os trabalhadores que lutam contra o empobrecimento que Macri tem causado ao país e às gentes.

E por que pararam os argentinos? Porque o desemprego aumentou, a miséria é corrente, voltou a fome, há perdas sucessivas de direitos sociais e trabalhistas. Todo o receituário neoliberal outra vez sendo aplicado nessa nova etapa de acumulação capitalista. E a repressão também recrudesceu. A ação da polícia foi de impedir as marchas. Nada de manifestação. Professores, operários, estudantes, velhos, crianças, todos foram submetidos à violência do estado. A velha máxima da segurança interna do período militar. Ou seja, o inimigo é o próprio povo em luta.

Na Venezuela, foi o contrário. A oposição de direita chamou manifestações de rua cujo objetivo principal era o de provocar a violência. E o que se viu nas ruas foi a ação de grupos extremamente violentos, atacando os policiais que faziam a contenção. A mesma lógica das “guarimbas”, pelas quais Leopoldo Lopez está na cadeia. Ou seja, a violência orientada pelos dirigentes de direita justamente para provocar a perda do estado que ainda garante alguns direitos sociais e trabalhistas à maioria da população. As cenas dos manifestantes gritando para as pessoas num condomínio popular, de moradia digna, garantida a partir do bolivarianismo, foram paradigmáticas. “Sujos, ladrões, ratos”, assim gritavam as mulheres na passeata, para as famílias que assomavam na janela. O velho ranço da classe média que quer ser rica contra os pobres que conseguem garantir algum direito. Esse era o tom da caminhada. Deputados e lideranças políticas comandando a violência e alguns deles chamando repórteres para a briga. Cenas patéticas. E na mídia, o que saiu? Que o governo usou a repressão contra eles. De novo, a mentira. O mundo virado. A polícia foi usada para impedir que a violência chegasse aos cidadãos que não participaram da caminhada proto-facista. Tanto que na caminhada realizada pelos bolivarianos, gigantesca, o que se viu foi apenas o povo defendendo as conquistas garantidas pela luta incessante contra a direita e o capital.

No Brasil, os trabalhadores também se levantam contra as reformas que vão destruir a vida dos velhos e também dos trabalhadores ativos. As chamadas reformas da Previdência e Trabalhista provocarão o desmonte total da frágil proteção que ainda têm os trabalhadores. E tudo segue num ritmo febril no Congresso corrupto. Tanto que as mudanças nas leis trabalhistas devem ser votadas na semana que vem. Eles estão como o coelho de Alice, sem tempo, sem tempo, ávidos por mostrarem aos amos – classe dominante – que são capazes de cumprir a tarefa de destruir o país a partir da derrocada dos trabalhadores. Afinal, são os que trabalham os únicos que geram valor e riqueza. Por isso as reformas, para avançar cada vez mais sobre o corpo dos trabalhadores, tirando deles mais do que o máximo, exaurindo de tanto trabalhar e sem a garantia de qualquer direito. Trabalhar até morrer, para encher as burras dos que tem os meios de produção.

Enquanto isso, no centro do império, os mísseis fazem a limpeza necessária para o avanço do capital.

Destroem países inteiros, que serão reconstruídos pelas empresas multinacionais, a maioria estadunidense, garantindo assim a posse das riquezas, aumentando as dívidas impagáveis. E, de quebra, geram uma multidão de desgraçados, fugitivos, perdidos até de sua própria humanidade, prontos para se digladiarem uns com os outros para serem explorados pelo capital. A guerra gera a massa humana que vai se entregar por alguns centavos, que vai encher as cadeias privadas, os centros de refugiados mantidos por empresas privadas também, lucrando, lucrando e lucrando sobre a morte, a dor e o desespero. Nada de novo debaixo do sol. Essa é a natureza do capitalismo desde a primeira acumulação, narrada com detalhes por Marx no capítulo 24 de O Capital.

Esse é o sistema de produção que tanta gente defende. O mundo das “oportunidades”, no qual quem trabalha vence. É hora de desmontar essa ideologia. A realidade mostra que não é assim. Quem trabalha não vence, apenas engorda os baús dos donos do capital. E são esses os que vencem. Sempre. Mesmo na “crise”. Porque para eles não existe crise. Eles sempre encontram caminhos para expandir seu capital. A crise é dos trabalhadores, das gentes, dos que sofrem as guerras. Uma crise que não forjaram, mas da qual participam como peões no tabuleiro de xadrez.

Como diz Marx no manifesto comunista: a história da humanidade é a história da luta de classes. E nesse momento essa é aluta que se trava: os trabalhadores contra os donos do capital. O capital tem os juízes, a polícia, os meios de comunicação. Os trabalhadores têm apenas os seus corpos nus. Mas, os trabalhadores são a maioria. E os exemplos históricos estão aí para mostrar que é possível vencer. Basta lembrar o povo de Leningrado, que enfrentou o exército alemão apenas com os corpos, avançando, desarmados, para conquistar os fuzis do exército. Resistiram por um ano. Um milhão de pessoas perderam a vida, mas a vitória foi garantida. Porque eram maioria e sabiam que ali se decidiria a guerra.

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E é assim. Contra esse feroz sistema de dominação só resta a luta renhida do povo organizado. Por isso estão nas ruas os brasileiros, os argentinos, os venezuelanos bolivarianos e tantos outros. Nessa batalha, irmanados com os povos do oriente médio, que vivem sob o massacre diário das armas.

Nesse espaço geográfico do planetinha azul, só entendendo as intricadas jogadas da geopolítica para seguir na luta com consciência crítica. É bem mais doloroso, mas é necessário, porque como dizia El Che, enquanto um irmão estiver sob a injustiça, somos companheiros.

Fotos: Romina Vermelha.

Fonte: IELA. 

 

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