Açougue

Foto: Pexels.com

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

Congela! Congela na temperatura ambiente da madrugada mais fria do ano nos últimos anos dessa cidade todas essas histórias. Congela aos montes e sem pressa. Com calma! Use da calma nesta parte do processo de saber que o calor daquele corpo foi gradativamente indo enquanto, talvez, gastava a energia restante no caminho contrário. Aí corta! Corta essa carne que vive esquecida em cantos, envolvida em pedaços de papelão e indiferença. Em esquinas, becos, carnes diariamente (d)escritas nos olhares de nojo e julgamento. Corta essa carne que se junta em esquinas pedindo perdão por não ser tão bom quanto o ar demonstrado por quem nega a moeda conquistada com muito suor e paga pelo maravilhoso patrão. Ah… a moeda! Que brilho e significância! “O que fará com ela? Lá sei o que fará com ela? Dou não!”. Corta a alma e em bifes, pedaços de identidade, subjetividade, individualidade, toda e qualquer vontade e dignidade. Pode ser em cubinhos, mas a máquina necessita maior tempo e resultados. Pra isso corta aos pedaços. Grandes e assimétricos. Grandes e empilhados. Colocados em sacos. Mas só depois. Corta para esvaziar estoque, abrir espaço para a cidade limpa. Pra matar a fome dos homens. Chama os homens da lei para ajudar. Ou organiza o pessoal do condomínio com pedaços de pau e pedras. Os mais jovens podem participar. Ensino pra vida! Sabedoria! Etapa concluída, pesa. Joga tudo num saco plástico. Agora sim o plástico. Joga tudo um saco plástico e entrega. Quantifica. Confere:

4 – Deviam ser ladrões

6 – Bons não eram não

15 – Será que eram putas ou drogadas?

30 – Será que eram putas e drogadas?

17 – Malditos, pilantras e pagadores do mal cometido antes.

2 – Acasos do destino. Fatalidades.

Junta tudo e paga no débito da satisfação. Pega sua nota e dá seu número para nota fiscal. E vai ainda mais feliz por ser uma vassoura engajada, atuante na limpeza social. Organizacional. Porque aqui tinha muito mendigo. Um cheiro horrível. Sem condição! Ainda que não têm nenhuma educação! Seja o que for e queiram, tenho não. Caminhe com a carne e, chegando em casa, jogo com força na pia. Lave e tempere. Ao próprio gosto, tá? Dê calor para essa carne. O calor ausente quando abraçou a morte em silêncio e, mais uma vez talvez, alívio. Vai saber. Dê calor do fogo do carvão. Aquece isso que outrora era inverno. Abre uma cerveja comercial de verão. E come! Come com a satisfação de sentir o sangue esparramar quando a faca, de novo, corta em pedaços. Agora relativamente simétricos. Proporcionais ao tamanho da boca e da fome. Inclua também a vontade de comer. Não fará mal se limpar a gordura na manga. Quem liga? Nessa altura? Come! Se farta de morte em seu estômago. Enche de morte seu estômago e de satisfação. Põe mais pra assar. Tá chegando mais gente pra festa então põe mais carne. Completa a grelha! Vai, porra! Se farta! Se farta da dor do outro. Contribui um pouco, vai. Só um pouquinho! Se farta, mata sua fome. Mata o que tá te matando. Acorda ela quando a temperatura ambiente for a madrugada mais fria do ano em sei lá tantos anos com água fria. Cultiva a semente miséria para poder se alimentar dos frutos no futuro.

Guigo RibeiroGuigo Ribeiro é ator, músico e escritor.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.