A questão climática nas grandes cidades

Por José Gonçales Junior*.

 

I.  As mudanças climáticas e seus impactos globais e locais

As mudanças climáticas ocasionadas pelo aumento dos gases de efeito estufa, desde o início da revolução industrial, é um dos principais impactos ambientais vivenciados pela nossa civilização nas últimas décadas, e se apresenta como um alerta inexorável de que nosso modelo sócio – produtivo e urbano industrial necessita ser repensado profundamente nos seus paradigmas.

De acordo com Biderman (BIDERMAN, Raquel. Introdução à mudança climática global: desafios atuais e futuros. p.9-10) inúmeros efeitos são e serão sentidos em todo o planeta como: alterações nos padrões de chuva regional, mudança das zonas agrícolas e climáticas em direção aos pólos, derretimento de geleiras e dilatação de águas oceânicas, aumento de tempestades tropicais, aumento de doenças propagadas por vetores principalmente nas zonas tropicais (malária, dengue), impactos nos recursos hídricos e seus reflexos nas zonas mais pobres do planeta, desertificação, diminuição de biodiversidade em vários ecossistemas mundiais. No Brasil tais efeitos já podem ser sentidos com o aumento de 0,7º C observado no último século como o furacão Catarina, no sul do país, ou as secas amazônicas registradas nos últimos anos, como também as enchentes que avassalaram diversas cidades próximas à costa litorânea de Santa Catarina e o litoral sul do Rio de Janeiro (precisamente Angra dos Reis e Ilha Grande).

De forma específica são verificados nas grandes cidades aumentos significativos das variantes de gradiente térmico entre dia e noite que podem ir de 5º C a 12º C (em relação aos ambientes rurais), tais variações estão afetando a qualidade de vida e causando inúmeros prejuizos a todos, sem excessão.

De acordo com Roberto Smeraldi (O novo manual de negócios sustentáveis, 2009) as mudanças climáticas afetará a todos os setores empresariais “desde uma multinacional da energia a um quiosque de praia, desde um banco a um pequeno agricultor.”, ou seja, de uma forma ou de outra, é um tema que ultrapassa as discussões acadêmicas e dos círculos ambientalistas e se estende por toda a sociedade, que já sofre e sofrerá ainda mais os efeitos de tais mudanças.

Dados do IPCC de 1995 a 2006 demonstram que nesse período ocorreram os 11 anos mais quentes desde os registros atmosféricos que datam de 1850 e, provavelmente nos últimos 50 anos, foram registrados os menores períodos de noites frias nos inversos e um aumento proporcional de dias quentes nos verões.

Após a Rio Eco – 92, surgiu a Convenção do Clima apresentada após os trabalhos do IPCC, suscitando a reunião dos países para discutirem como reduzir a emissão dos GEE´s na Convenção das Partes (COP), que teve seu início em 1995, do qual derivou no Protocolo de Kyoto, durante a COP realizada no Japão e na Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima.

O fato constatado é que não houve muitos esforços por parte dos países signatários do Protocolo de Kyoto para alterar o quadro de aquecimento global, a exemplo dos Estados Unidos, como também os países em desenvolvimento, que vieram aumentando a emissão de seus GEE´s desde então. A efetividade de se reduzir as emissões em 5,2% dos níveis de 1990 se tornou uma promessa abstrata e não resolvida.

Protocolos e intensões à parte os efeitos do aumento das emissões vieram provocando alterações visíveis no clima, do qual pode ser contemplado nas zonas urbanas em diversas áreas do Brasil.

As grandes regiões metropolitanas no Brasil se tornaram, devido ao intenso processo de urbanização das últimas décadas, em áreas que influenciam decisivamente nos inputs e outputs do sistema atmosférico. De acordo com Magda Ap. Lombardo (Mudanças climáticas em áreas urbanas e qualidade de vida) o lixo gerado em São Paulo emite 15 milhões de toneladas de CH4 por ano, somado a 16 milhões de toneladas de CO2 gerados pelas emissões do tráfego dos veículos da capital. Não conta-se aqui as emissões de metano, CO2, CO, aerossóis em outras regiões do país, derivadas dos processos de extração de matéria prima e produção destinada ao abastecimento das metrópoles brasileiras.

De acordo com Rogers (1997) as cidades são apresentados como gigantescos elementos metabólicos, porém lineares, e emissoras de altas quantidades de resíduos, entre eles os GEE´s.

Tais cifras geram um alerta claro e evidente de que é preciso rever o modelo de “desenvolvimento econômico” urbano, evidenciado por sua irracionalidade e inviabilidade sócio ambiental futura.

II. Fontes de emissão de GEE´s urbana

As cidades são sistemas abertos e apesar de emitirem grandes quantidades de GEE´s, induzem outras regiões, por vezes distantes, a emitirem tais gases. Busca-se na presente discussão apenas tratar das emissões internas às zonas urbanas, do qual é necessário levantar quais são os principais setores econômicos que comandam as emissões; sendo assim, é possível discorrermos sobre ações pontuais em nossos ambientes de trabalho que efetivamente contribuam para a diminuição de tais emissões.

De acordo com Denise Imori e Joaquim José Martins Guilhoto (Economia Socioambiental.

p.232) os setores mais emissores de GEE´s nos centros urbanos são: transportes (39,34%), agropecuária (12,75%), metalurgia (14,99%), produtos alimentícios (11,26%), serviços

industriais de utilidade pública (11,36%) e químicos/farmacêuticos (3,44%); nota-se que entre esses os setores ligados à alimentação da população somam 24% das emissões aqui expostas, ou seja um quarto do total.

O fato que preocupa a respeito das emissões dos gases estufa é reconhecer que o setor de transportes corresponde a quase metade das emissões urbanas, e o quadro tende a se agravar por alguns motivos:

a) o aumento desmesurado da frota urbana de automóveis, ônibus e caminhões;

b) o aumento da conurbação urbana e das redes urbanas em todo o país;

c) aumento dos transportes de cargas intrametropolitanos e entre regiões do país;

d) aumento dos deslocamentos de trabalhadores entre cidades formando uma “regionalização do trabalho”;

e) ampliação e reforma de rodovias, corredores metropolitanos, grandes eixos e avenidas, facilitando e incentivando o uso intensivo de automóveis e demais veículos;

f) ausência histórica de incentivos para o transporte metroviário, hidroviário, elétrico e outras modalidades pouco poluentes;

g) aumento do uso dos transportes aéreos entre grandes regiões metropolitanas no país (São Paulo – Rio de Janeiro, Porto Alegre – Curitiba, etc).

O aumento e uso intensivo dos transportes movidos à combustíveis fósseis nas cidades do país e o aumento exponencial do consumo de alimentos industrializados, que se utilizam fartamente de transporte por caminhão para chegar ao consumidor final, aponta um quadro preocupante de ampliação das emissões de GEE´s; fato que deve ser enfrentado nos próximos anos, pois há tendências claras no país de surgirem novas metrópoles e centros regionais dotados de infra-estruturas que irão incentivar modelos altamente emissores de poluentes atmosféricos.

III. Ações para reversão do aquecimento global a partir do local

Inúmeras ações globais e casos de sucesso estão sendo direcionados nos últimos anos, como o trabalho intensivo do IPCC, as estratégias de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo com a compra e emissão de créditos de carbono, ações intersetoriais de combate ao desmatamento e preservação das florestas como o REDD+ no Brasil, o lançamento (ainda que tímido) de carros elétricos no país, ações de educação ambiental conduzidas por diversas ONG´s e instituições focadas no assunto, as estratégias de pesquisa e sensibilização do grupo “Empresas Pelo Clima” e o “Observatório do Clima”.

Apesar de todas essas ações serem fundamentais, devem ser apoiadas por micro ações em outras regiões do país, pois o desafio da reversão das duras perspectivas do quadro climático global suscita ação e mobilização de todos os setores que integram a sociedade brasileira e mundial.

Atuo no ramo de educação superior e consultoria empresarial; a convivência diária com o tema e com um público que age diretamente com o planejamento e gestão de projetos que incidem na produção de bens suscita focar ações em educação ambiental e formação de núcleos de estudos em sustentabilidade nas universidades, destinados a atuar na formação de gestores que:

a) sejam conscientizados quanto à gravidade da situação climática mundial e nos relatórios emitidos pelo IPCC; b) sejam o público alvo de grades e conteúdo que levem em conta modelos de gestão e planejamento de projetos, cuja preocupação com a redução de GEE´s seja intrínseca às mesmas; c) alinhe o núcleo e suas empressa com ações como “Empresas Pelo Clima”, “Observatório do Clima”, “IPCC”, “CES/FGV”, outras instituições de ensino e pesquisa sobre as mudanças climáticas; d) possibilite uma estrutura de provisão e captação de recursos para ampliação das ações do núcleo entre o currículum da instituição e ações de conscientização ante empresas da região de abrangência da IES.

Núcleos em tal formato poderiam contribuir na pesquisa e disseminação de conhecimento nas áreas de:

a) O papel do consumo nas emissões de GEE´s;

b) Ações para redução por parte das empresas de GEE´s, principalmente na área de transportes;

c) Ações intersetoriais entre empresas, sociedade e governo na criação de bolsões e áreas verdes para inversões locais de carbono e promoção de MDL´s baseados em ações locais;

d) Formação de um núcleo de empresas norteado pelo Núcleo de Estudos em Sustentabilidade, focadas em ações pela clima global e integradas com as ações do grupo “Empresas Pelo Clima”;

e) Proposição de grades curriculares para cursos de administração e afins, no nível técnico e superior, voltadas à gestão para a sustentabilidade e, dentro desse universo, à redução das emissões de GEE´s;

f) Proposição e incentivo à meios de transportes não emissores de GEE´s e discussão junto à opinião pública de modelos de transportes alternativos na cidade.

De acordo com José Eli da Veiga, estamos entrando em uma nova era da sociedade industrial onde a transição ora em andamento será tão importante quanto à transição no passado que nos levou à Era Industrial. Se no passado a educação e a ciência produzida nas centenárias universidades da Europa e América do Norte produziram o que seria a próxima civilização denominada urbano – industrial, hoje a educação e a ciência possui os meios e condições para construir a civilização da responsabilidade social e sustentabilidade ambiental. O conhecimento uma vez produzido e disseminado é um instrumento por excelência das grandes e profundas transformações que a humanidade vem passando pelos milênios. Nunca a educação teve papel tão crucial em reescrever a história universal e compor uma civilização sustentável.

 

 

* Geógrafo formado pela USP, esp. IEA, MBA pela Fundação Getúlio Vargas em Sustentabilidade. Consultor e docente de pós graduação em Campinas e São Paulo na área ambiental. Blog: http://josegjunior.blogspot.com/

Fonte: http://pensareco.blogspot.com

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