A promiscuidade entre poderes adoeceu a República

A promiscuidade entre poderes adoeceu a República – Foto: Renato Aroeira

Por Mailson Ramos.

O Brasil parece ter se esquecido das gravações de Sérgio Machado, onde Romero Jucá colocava em evidência os planos para deter a Lava Jato; ninguém mais se lembra do modo como o peemedebista respondeu à questão de Machado sobre o acordo nacional para colocar o Michel Temer no poder: “Com Supremo, com tudo”.

Por muito menos os ministros do STF colocaram o Delcídio na cadeia, com uma prisão preventiva relâmpago. Jucá, pelo contrário, recebeu o apoio de Gilmar Mendes que disse não ter visto tentativa de obstrução da Lava Jato. Naturalmente, a resposta se aplicaria também aos áudios divulgados da conversa entre o presidente do Senado, Renan Calheiros, e o mesmo Sérgio Machado.

Renan sugeriu que se alterasse a lei da delação: “Primeiro, não pode fazer delação premiada preso. Primeira coisa. Porque aí você regulamenta a delação”. O que aconteceu? Absolutamente nada. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, enviou um pedido de prisão para Romero Jucá, Renan Calheiros e José Sarney (este último receberia uma tornozeleira e teria prisão domiciliar); além disso, pediu a prisão de Eduardo Cunha.

Foi tudo cortina de fumaça. Ninguém está preso, nem mesmo Eduardo Cunha; pelo contrário: após renunciar, ele teve os processos enviados à segunda turma do STF presidida por Gilmar Mendes. Todas as decisões tomadas em Brasília, nos últimos tempos, seguem roteiros de encontros furtivos entre personagens dos principais poderes da República: Temer recebeu Gilmar, depois recebeu Cunha; Gilmar recebeu Jucá e Renan. Não há mal-estar, pois tudo se reveste do verniz institucional.

De vernizes vive esta política, mascarando uma superfície apodrecida pelas práticas. Por interesses próprios estão entregando o país a preço de banana. Bitolados e revoltados online dizem preferir isso à corrupção do PT, uma excrescência; nem mesmo uma besta quadrada acreditaria que este governo veio para limpar alguma coisa, além dos cofres. Mas, em pleno 2016, tem gente acreditando até na inocência de Eduardo Cunha.

O seu sucessor na presidência da Câmara, Rodrigo Maia, tratou de enterrar a CPI do Carf tão logo se apossou de suas atribuições. Livrou dos crimes de sonegação grandes empresas e cumpriu com preeminência a tarefa que seria digna de Eduardo Cunha. Tudo a mesma sopa, diria Mino Carta. Tão mórbida e nociva é a relação promíscua entre os poderes da República que aceitaram um impeachment sem crime de responsabilidade, uma fraude gritante imposta por um vagabundíssimo golpe político.

Às vésperas da Rio 2016, chefes de Estado admitem que não comparecerão à abertura dos jogos. Estão assustados com a onda de terror, mas também com a crise institucional brasileira; possivelmente não querem aparecer ao lado de figuras que aceitaram e impuseram um golpe à democracia; congressistas norte-americanos, por exemplo, já abriram o olho de John Kerry: longe do Temer! Recados como este aqui no Brasil, para boa parte da imprensa, são exageros de petistas: ela, como o quarto poder da República – e que se torna o primeiro – disse sim ao golpe no altar da promiscuidade.

Fonte: Nossa Política.

 

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