A Praça é nossa?

Por Míriam Santini de Abreu, para Desacato.info.

A polêmica gerada na imprensa de Florianópolis pelo fechamento da Praça XV no Carnaval de 2018 não tocou no fato principal: a acelerada privatização dos espaços públicos na Capital. A Praça XV é um entre várias outras que foi “adotada” por empresas privadas, no caso as Lojas Koerich.

Um indício revelador do processo de privatização foi uma pequena matéria publicada no site do jornal Notícias do Dia em 10 de março com o título “Primeira edição do ano do projeto Eu Amo a Praça é neste sábado, em Florianópolis”. O texto fala do evento, que tem atividades artísticas e culturais.

O primeiro de dois entrevistados é o presidente do Clube de Diretores Lojistas (CDL) de Florianópolis, que fala sobre o resultado das edições anteriores: “Conseguimos devolver aos moradores a sensação de pertencimento e apropriação do que é público, trazendo a comunidade para as praças e devolvendo a vida urbana dos espaços”.

O segundo entrevistado é o diretor da WOA Empreendimentos Imobiliários, que fala sobre os objetivos da ação: “As pessoas precisam se voltar mais para a nossa cidade, conhecer nossa cultura e desfrutar dos espaços públicos. O projeto Eu Amo a Praça agrega famílias e resgata com as crianças um pouco da tradição e cultura de Florianópolis. Não podemos perder nossas praças e parques, pois também é neles que está a vida do florianopolitano”.

Um primeiro elemento nestas falas é o conceito de espaço público, que se liquifidica quando as empresas passam a se responsabilizar pelas praças e parques. Quando fechou a Praça XV, a Prefeitura de Florianópolis alegou que a intenção era preservar o patrimônio público e histórico e a segurança no local. Mas não ficou claro se a decisão era da Prefeitura ou das Lojas Koerich, que foi buscada pela imprensa – ao menos em uma matéria – para falar dos gastos feitos ao longo dos anos para manter o local. Quando a Parceria Público-Privada foi assinada, em março de 2010, na gestão do então prefeito Dário Berger, a matéria divulgada pela prefeitura dizia: “Com a parceria firmada, ficou definido que a praça não será cercada” (em http://www.pmf.sc.gov.br/noticias/index.php?pagina=notpagina&noti=1245 ).

A fala do CDL citada acima evidencia que a “sensação de pertencimento e apropriação do que é público”, que é “devolvida” aos moradores nas praças adotadas, se dá apenas pela gestão privada, deixando subentendida a incapacidade da prefeitura de cuidar desses espaços.

Outro elemento importante para este debate é conhecer a dinâmica deste tipo de adoção. A WOA divulga em seu site que “revitalizou” cinco espaços: a Praça Getúlio Vargas, a Praça Eugênio Raulino Koerich, a rua Rui Barbosa, a Praça do Rancho, a Servidão Paulo Zimmer e a Praça Governador Celso Ramos, onde foi realizado o evento Eu Amo a Praça. Parte destas praças é vizinha de empreendimentos da WOA, e não é por menos que o título do pequeno texto que anuncia a lista de praças adotadas é “Uma marca  no entorno”.

Está aí a resposta para um segundo elemento a ser considerado nestes debates. As praças e parques adotados estão nas melhores localizações de Florianópolis, valorizando a vizinhança de prédios construídos, no caso citado, pela própria WOA. Praças precárias em bairros de periferia não recebem este tipo de atenção.

Então, a resposta à pergunta do título é: Não, as praças são cada vez menos nossas.

 

Míriam Santini de AbreuMíriam Santini de Abreu é jornalista em Florianópolis.

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