A política como uma questão de vida e morte para os dominados

Foto: Pexels

Por Evânia Reich, para Desacato.info.

Aqueles que têm tudo, não irão nunca ver o mar para festejar uma decisão política, porque para eles a política não muda nada. Eu me dei conta quando fui morar em Paris, longe de ti: os dominantes podem reclamar de um governo de esquerda, eles podem reclamar de um governo de direita, mas um governo não lhes causa nunca um problema de digestão, um governo não quebra as suas costas, um governo não lhes impulsiona a ver o mar. A política não muda suas vidas, ou muito pouco. Isso é também estranho, são aqueles que fazem a política, embora a política não tenha nenhum efeito em suas vidas. Para os dominantes, na maioria das vezes, a política é uma questão estética: uma maneira de pensar, uma maneira de ver o mundo, de construir sua pessoa. Para nós, era viver ou morrer.

Esse paragrafo é do livro “Quem matou meu pai”, do jovem escritor francês ?douard Louis. Uma das leituras que mais me impactou neste ano. De forma direta, ?douard Louis aponta onde reside o verdadeiro problema da nossa política. Através de uma narrativa que conta a história de vida de seu pai, antes e após um acidente ocorrido na fábrica onde ele trabalhava. Acidente este que teria causado lesões corporais irreversíveis.  Dores que o levaram aos gritos durantes muitas noites. Dores que necessitaram de tratamentos e remédios que dependiam do Estado para obtê-los. E dores da alma pela perda da juventude e de um corpo ainda jovem.

O livro de ?douard Louis é impactante não porque conta a realidade de uma França que talvez o Brasil esteja somente descobrindo agora, com as manifestações dos “coletes amarelos”, mas, sobretudo porque pode ser aplicado em qualquer sociedade no mundo, para além do Ocidente. Através de uma história particular, sua narrativa universal apresenta os efeitos da política que ocorrem em qualquer país. A política para os ricos, os dominantes, como enfatiza o autor, é uma questão estética, uma maneira de ver o mundo, até intelectual, eu diria. Enquanto milhares de pessoas no Brasil foram e continuarão sendo afetadas com o congelamento do investimento público na educação e na saúde por 20 anos, os que financiam seus próprios estudos e seus planos de saúde pouco serão afetados com tal decisão. No entanto, para a maioria que enfrenta as filas de um hospital público e necessita de tratamentos/remédios fornecidos pelo Estado, que depende da escola pública do seu bairro para a escolaridade dos seus filhos, das cotas que possibilitam a entrada em universidades públicas, para estes a política define questões substanciais.

Para aqueles que ganham o salário mínimo, a política de preços e reajuste é questão de vida ou morte. Para aqueles que dependem do programa Bolsa Família para prover o mínimo de calorias na mesa de sua família, a política é questão de vida ou morte. Para aqueles que dependiam dos médicos cubanos, nas regiões do Brasil  profundo, onde a classe médica elitizada brasileira nunca chegaria, a decisão politica é sim questão de vida e morte.

Por isso Edouard Louis não se cansa em repetir que a política tem menos efeitos sobre os corpos dos dominantes, do que sobre os corpos dos dominados. A política se torna um mero jogo de poder para financiar os grandes projetos econômicos dos que detém todo o poder e dinheiro e não conseguem perceber ou não se importam o quanto suas decisões atingem negativamente milhares de homens, mulheres e crianças, levando-os ao sofrimento social.

Quantas mortes são cometidas por políticas desastrosas? Os assassinos não são nunca nomeados porque sob o manto da crise econômica o aniquilamento de pessoas  ocorre sem que os culpados sejam punidos. Edouard Louis tem a coragem em seu livro, “Quem matou meu pai”, já mencionado, de nomear os culpados pela morte simbólica de seu pai. Emmanuel Macron, Nicolas Sarkozy, François Hollande, Chirac, etc. Através de políticas desastrosas que priorizaram a retirada do Estado na subvenção de remédios, da moradia, na diminuição do valor do seguro desemprego, seu pai e milhares de franceses passaram para o grupo dos desassistidos. Enquanto se tem saúde e um trabalho é possível “ver o mar” e festejar um reajuste salarial. Mas quando tudo isso acaba, quando se perde a garantia do emprego, a comida na mesa e a saúde física e mental e então nenhuma comemoração já não pode mais ser feita, resta esperar que os atores sociais negligenciados se unam em reinvindicações, protestos, insurreição. Como o que vem ocorrendo nestas três últimas semanas na França. São os dominados gritando para que os ouvidos surdos dos dominantes possam escutá-los.

É possível falar da existência de uma guerra implacável feita pela sociedade dos dominantes, pelo inimigo invisível, ou muito visível  contra as classes populares? Esta é a pergunta feita por Didier Eribon, professor de filosofia e ciências sociais, também na França. Outro livro notável “O retorno à Reims” que conta a história cotidiana da classe operária marginalizada, banida das oportunidades que são guardadas e alocadas apenas à elite social, a burguesia, como escreve Eribon. Para o filósofo está muito claro que as classes populares são afetadas por um inimigo que se chama classe dominante. Esta está no poder, decide e faz política para a sua própria classe. Basta olhar as estatísticas da população carcerária para se convencer. Para os homens jovens da periferia e do morro é sinistra e descomunal a probabilidade de terem um destino na prisão. A situação dos guetos urbanos nos mostra como determinada categoria da população é tratada; são excluídos para os confins da vida social e política, reduzidos à pobreza, à precariedade, à ausência de futuro.

Há igualmente uma eliminação sistemática das classes populares do sistema escolar. O questionamento de Bourdieu sobre a função real do sistema educacional, cujo funcionamento elimina da escola as crianças das classes populares, ao longo do percurso escolar, compreende não somente a realidade da França. ? outra questão que nos toca profundamente. Que sistema educacional é este que distingue a classe dominante daquela dos dominados? Que rejeita as crianças das classes populares, que perpetua e legitima a dominação de classe, o acesso diferenciado às profissões e às posições sociais? E quando miraculosamente temos um governo que advém dessa mesma classe popular e diz que o acesso universitário será igualmente dividido entre os dominantes e os dominados, aqueles que fazem parte do primeiro grupo gritam em alto e bom tom que esse sistema não pode perdurar. Que seus filhos estão sendo lesados porque apesar de estudarem nas melhores escolas são obrigadas a competir com os cotistas. A classe dos dominantes não quer concorrência. Ela precisa perpetuar a desigualdade social para que o filho da empregada não se torne um médico. Não faz nenhum sentido para os privilegiados ver toda essa gente nos aeroportos, nas universidades, nos lugares em que apenas eles têm a legitimidade para ocuparem.

É desse tipo de política que nos ocupamos agora. Não se trata de combater a famigerada corrupção que foi deflagrada no governo da esquerda brasileira. Esta já era um problema de outrora e que nunca tinha sido objeto de interesse da classe dominante. Não se está aqui querendo defender a corrupção. Mas colocar os pingos nos “is”. Como diz Jessé Souza, “a dominação social material e concreta de todos os dias só é efetiva e tende a se eternizar se é capaz de justificar e convencer”. A nova política está tentando nos convencer que o maior problema do Brasil é a “lava jato”, e não o assalto que sofre  todos os dias a classe pobre deste país. Uma classe que conseguiu ter acesso, ainda que modesto, nos lugares que ela nunca havia frequentado. “A realidade social não é visível ao olho nu”, diz Jessé. Nunca uma frase foi tão verdadeira nestas últimas eleições. A ideologia do poder dos dominantes foi colocada a serviço de uma grande mentira que escondia uma grande verdade. Ainda Jessé, parafraseando Max Weber: “Os ricos e felizes, em todas as épocas e em todos os lugares, não querem apenas ser ricos e felizes. Querem saber que tem direito à riqueza e felicidade. Isso significa que o privilégio – mesmo fragrantemente injusto, como o que se transmite por herança, necessita ser legitimado, aceito mesmo por aqueles que foram excluídos de todos os privilégios”.

Por isso essa classe apoia a ideia fundamental do liberalismo brasileiro, segundo a qual tudo o que vem do Estado é ruim. O Estado é corrupto e o melhor que devemos fazer é substituí-lo pela iniciativa privada. Ela sim não é corrupta, e nela vence “os melhores”. A meritocracia é outra ideia corolária desta. Ocorre que “os melhores” fazem parte desta elite dos dominantes. Por isso todas as vezes que se verificou historicamente qualquer preocupação política com as demandas das classes populares, estas sempre partiram do Estado. Como o que ocorreu nos últimos governos assumidos pelo partido dos trabalhadores, que bem ou mal representou a classe popular. As políticas oriundas de um governo que tinha como objetivo defender e promover o bem social da população mais necessitada deste país foram esquecidas e escondidas atrás do famigerado conflito mercado/Estado e corrupção/Estado. A ideologia dos dominantes realizada no Brasil fez o povo brasileiro acreditar que apenas o que tinha que ser levado em conta era que o Estado é corrupto e que os problemas econômicos devem ser resolvidos pelo mercado e não pelo Estado. Episódios como mensalão ou os escândalos de corrupção do Estado permaneceram vivos no imaginário social cotidiano de todos nós, como afirma Jessé. Mas o que não conseguimos enxergar é que a classe dos dominantes dá gargalhadas bem altas pelo seu sucesso em ter desvirtuado e deslocado a atenção para longe dos aspectos mais relevantes que assolam esse país: um mundo social injusto no qual o Brasil está imensamente atolado, a pobreza profunda de homens e mulheres que lutam diariamente para conseguir ter o mínimo necessário para a sua subsistência. Por isso Jessé Souza insiste em afirmar que “a forma mais importante de o essencial ser reprimido em nome da ênfase no acessório da sociedade brasileira é por meio da repressão dos conflitos de classe em favor do deslocamento da questão da corrupção sempre “estatal” para o núcleo da análise social”. E este golpe ideológico foi tão bem feito que levou um contingente importante de cidadãos pertencentes a classe dos dominados a votarem contra seus interesses, aplaudindo de pé e defendendo com unhas e dentes interesses da classe dominante.

Evania ReichEvânia E. Reich é doutora em Filosofia pela UFSC – Pesquisa do pós-doutorado em Filosofia Política pela UFSC.

A opinião do autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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