A conjuntura impõe o desafio do trabalho de base e aponta a necessidade da revolução

Publicado em: 28/06/2017 às 11:53
Vitor Hugo Tonin elencou alguns elementos que justificam o golpe (Foto: Rosangela Bion de Assis)

Por Rosângela Bion de Assis, para Desacato.info.

A primeira mesa do 9º Congresso Estadual do Sindprevs/SC, realizado em Itá, de 22 a 24 de junho, reuniu Vitor Hugo Tonin e Nildo Ouriques para debater a conjuntura nacional e internacional. Para Vitor Hugo, da Intersindical e doutorando em desenvolvimento econômico pela Unicamp, “hoje, a ideologia faz com que o país se polarize entre os brasileiros e os comunistas. Isso nos divide entre os 99% que ficam com as migalhas e a classe dominante que fica com toda a riqueza do país. A polarização real é entre os debaixo e os de cima, que são 1%. O nosso inimigo não é a classe média”.

A Agenda do desmonte da Previdência e da Reforma Trabalhista sempre esteve pairando sobre nós, afirmou Vítor. “No governo anterior, ela foi apresentada gradualmente, com o golpe a velocidade da implementação das reformas mudou. Não foi um golpe contra um partido, foi um golpe contra a classe trabalhadora. Mas porque dar um golpe contra um governo que era deles, ou um governo de ‘conciliação de classes’?” Vítor Hugo elencou alguns elementos para responder a essa pergunta. O primeiro elemento é a questão geopolítica. “Ocorreu uma ofensiva forte contra a América Latina, desmontando suas articulações econômicas, como Alca (Área de Livre Comércio das Américas), Brics (grupo: Brasil, Rússia, Índia e China), Selac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América), destruindo a Petrobrás e apropriando-se do pré sal”.

A classe dominante já está ganhando com a crise

O segundo elemento do golpe, segundo o palestrante, foi o latifúndio, que controla a produção agroexportadora. “Estamos no ciclo do minério de ferro, que é o produto mais exportado pelo Brasil. Seu valor caiu de U$ 200 para U$ 50 nos mercados externos. Isso acabou com a conciliação de classes, pois reduziu os ganhos da elite”.

O terceiro ator do golpe foram os empresários, afirmou Vítor. “Assim que as margens de lucro da indústria cresceram menos, os empresários colocam um pato na Avenida Paulista”. O quarto ator foram os banqueiros, “que aderiram a agenda do golpe, quando viram que o governo não tinha a capacidade de implementar as reformas com a velocidade que eles queriam. Os 13 anos de superávit primário ininterrupto foram desconsiderados, após a queda que iniciou em 2014”.

Vítor Hugo explicou que o bloco golpista tem contradições internas. “A adesão não foi rápida e fácil, precisou de uma organização criminosa, com Aécio e Temer. Pelas alianças que fez, o PT foi vítima e também corresponsável pelo golpe. O PT confundiu o povo. Ninguém mais sabe o que é direita e o que é esquerda. Apassivou o povo, levou as principais lideranças para o governo, alienou pelo consumo e reprimiu com violência os que não aderiram a essa lógica”.

“A classe dominante já está ganhando com a crise. Enquanto 1/4 da classe trabalhadora está desempregada, a bolsa valorizou 46% em 2016. Essa classe mantém o povo subordinado há 500 anos, nem na década de 70 distribuíram os ganhos para os trabalhadores. E esse aumento de pobreza significa aumento de encarceramento. Se mantivermos o crescimento da taxa de aprisionamentos no país, em 2022, o Brasil terá a maior população encarcerada do mundo”.

O controle ideológico será maior

Outra característica da crise é o aparecimento do paramilitarismo: onde não chegar a repressão do Estado vai chegar a repressão das milícias. Também o controle ideológico será maior, um exemplo é o projeto Escola sem Partido. Vítor alerta que “temos que estar preparados para o pior”.

O palestrante também citou as demonstrações da capacidade de resistência dadas pelo povo, como a Greve Geral, de 28 de abril e a Ocupação de Brasília, no dia 24 de maio. O povo obrigou a união das centrais sindicais, que não queriam muito estar na luta. “Isso só foi possível porque duas bandeiras unificaram: nenhum direito a menos e Fora Temer.

Vítor finalizou falando da bandeira que ele defende: as “Diretas por Direitos”, acima de tudo. “Neste momento, é fundamental retornar a capilarização da nossa ação. Precisamos formar uma nova maioria política e social, nos religarmos ao povo, realizarmos um imenso trabalho de base, para voltarmos a ser referência para o povo”.

Comunistas, socialistas e anarquistas não farão a revolução sozinhos

Nildo Ouriques, presidente do Iela (Instituto de Estudos Latino Americanos), professor de Economia da Universidade Federal de Santa Catarina, convidou os presentes no 9º Congresso Estadual do Sindprevs/SC a falar sobre a Revolução Brasileira. “É absolutamente indispensável, basta de lamber as feridas, ou vamos nos reunir no próximo Congresso para listar todas as perdas que tivemos. Hoje temos a oportunidade de fazer uma política diferente. Os comunistas, os socialistas e os anarquistas estão pensando nisso há muito tempo, mas eles sozinhos não fazem a revolução, eles precisam do povo. A revolução tem a cara de vocês. Ou nós fazemos ou eles nos liquidam”.

Falando de pé, Nildo questionou: “como vão ser essas eleições? Olhem as opções que existem? Não podemos mais nos iludir. Senadores e deputados formam um covil de ladrões. Nós temos que defender a extinção do Senado Federal. Eles ficam oito anos no poder, nos primeiros cinco aplicam todo tipo de maldade contra nós e depois de oito anos ninguém mais lembra em quem votou”.

Nildo Ouriques, presidente do Iela e professor de Economia da Universidade Federal de Santa Catarina, convidou os presentes no 9º Congresso Estadual do Sindprevs/SC a falar sobre a Revolução Brasileira (Foto: Rosângela Bion de Assis)

“Eles decretaram uma guerra de classes contra nós”

Nildo provocou os presentes: “vocês não acreditam no Senado, não acreditam no Congresso, no STF, no TSE, então como podem acreditar na democracia, que é tudo isso junto? Por isso tem que acabar com esse sistema”. “Eles decretaram uma guerra de classes contra nós, e já disseram que é por 20 anos, e quando chegar lá, será por mais 20. Estamos naquela hora da conjuntura e da estrutura em que não dá pra cutucar o leão, tem que matar o leão. Muitos dirão que é impossível pra nós, porque o sindicalismo se acostumou a lamber as feridas, mas até as máquinas sindicais completamente pelegas tiveram que ir à luta. Os sindicatos têm um papel na revolução brasileira, precisam acabar com essa letargia”.

Nildo explicou que vivemos em uma República rentista em que setores como o agronegócio, os latifundiários e os bancários ganham muito e se viciaram com os lucros. Por isso, ele disse que não podemos admitir concessões. Hoje 40% da população carcerária está na cadeia sem ter um processo. A quantidade de policiais e pessoas mortas diariamente equivale a uma chacina.

Ele afirmou que “a esquerda está renascendo no Brasil em congressos como o do Sindprevs/SC. O Sindicato tem que estudar economia e política, não só a questão da Seguridade Social. Desse aperto vai nascer nossa consciência”. “Na crise econômica e política a revolução tem hora, e é agora. Vocês não podem sair desse Congresso e ir pra casa ver novelas. É preciso alterar a qualidade da atuação sindical, ou vocês se envolvem ou vai passar um rolo compressor sobre vocês. É uma hora extraordinária e eu tenho uma fé profunda na luta do povo. É a hora latino americana, vamos beijar a boca da revolução”.

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