As Armas da Frota!

Por Tali Feld Gleiser.*

 imagem: pressenza.com
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Última hora, última hora! A Frota da Liberdade, nome raro se há, sim Tinha Armas a Bordo. Nós tínhamos que nos defender. Nós que sempre estivemos dispostos a nos sentar com os palestinos para discutir os termos de um tratado de paz. Como quando os britânicos durante seu Mandato na Palestina (entre 1917 e 1948) trataram de criar uma estrutura política que representasse equitativamente à comunidade palestina, apesar de ser majoritária, e à nossa comunidade judia. Em um princípio, a comunidade palestina não aceitou porque argumentava que era discriminatória. Como poderia ser injusta se precisamente a eles que representavam entre 80% e 90% da população total se lhes ofereciam os mesmos direitos que a nós. Apoiamos a proposta, mas, em 1928, as lideranças palestinas olharam com preocupação o aumento da imigração judia e a expansão de nossos assentamentos e mudaram de opinião: sim, queriam estabelecer conversas para chegar a um acordo. Nós não podíamos admitir uma direção palestina tão frouxa, que mudasse segundo o rumo do vento. Tínhamos que dar-lhes uma boa lição, de maneira que não aceitamos a proposta britânica.

Em 1947 já estávamos bastante bem organizados e tentamos persuadir os palestinos – ou seja, à maioria da população – para que abandonassem suas casas porque os legítimos donos éramos os sionistas. Tínhamos abandonado nossas casas na Europa para reinstalar-nos na terra ancestral. Os progromos eram sistemáticos e precisávamos sobreviver, não importava que para tanto, tivéssemos que despejar outros seres humanos. Bom, apenas despejar não! Roubar-lhes, perdão, comprar-lhes as terras cheias de limoeiros e oliveiras, muitas terras férteis onde pastavam nossas cabras e existia abundante água. Homens (desde os 16 anos), mulheres, crianças e idosos nos proporcionaram suas propriedades, onde suas famílias tinham vivido durante gerações. Certo é que tivemos que insistir um pouco, chegarmos até as aldeias pela noite, cercá-las e fazer-lhes entender que se não se “transladavam” morreriam. Lastimavelmente os danos colaterais foram comuns. E aqueles que se resistiram, executados. Tínhamos advertido, mas, não podíamos perder tempo. Não abandonavam a aldeia ou o bairro, a melhor vida. Não acreditem que foi fácil; fizemos desaparecer mais de 400 aldeias, bairros inteiros. Aos palestinos lhes arrancamos a vida para ter a nossa própria. Que ironia, dizem que foram expulsos, não que simplesmente deixaram suas casas pela sua própria e espontânea vontade.

Ainda bem que a maioria dos líderes árabes nos deram ajuda porque aceitaram os transladados e outros mais que se instalaram em Gaza ou Cisjordânia. Em 1947, o Comitê Especial para a Palestina da ONU, recomendou-lhe à Assembléia Geral a partição da Palestina em dois Estados, unidos em uma espécie de federação pela unidade econômica. Jerusalém seria administrada pela ONU sob um regime internacional. A Resolução 181 de 29 de novembro de 1947 previa dos estados idênticos. Foi uma espécie de compensação pelo Holocausto nazista na Europa. A Liga Árabe e o Alto Comitê Árabe quiseram boicotar esta partição. Portanto, nós negociamos com o Comitê para a Palestina da ONU. Já que os palestinos decidiram ficar de fora não aceitando democraticamente o que se tinha estabelecido, conseguimos que se nos adjudicasse mais do 50 por cento do território, a maior parte das terras férteis, quase todo o espaço urbano e rural judeu e mais de quatrocentas aldeias palestinas. Possuíamos só o 6% da terra e não chegávamos aos dois terços da população. Nossa capacidade negociador dava seus frutos. Os palestinos eram responsáveis do seu destino, tinham se negado a compartir sua terra de forma igualitária e se retiraram das negociações. Só ficou uma parte disposta a negociar e era lógico que obtivéssemos mais do que se nos tinha destinado originalmente. De toda forma, nosso líder Bem Gurion decidiu aceitar a proposta e fazê-la fracassar. O Estado judeu devia ter a menor quantidade de árabes possível e abarcar a maior parte da Palestina. Nos próximos anos alguns artefatos nos ajudarão a defender o conquistado: metralhadoras, tanques, mísseis, fósforo branco, armas nucleares que oferecemos ao governo da África do Sul do apartheid, além de utilizar a tortura cotidiana e sistemática, o bloqueio de Gaza até que Hamás deixe de governar. Não importa que Hamás tenha sido escolhido em um processo eleitoral. Ou fazem o que nós dizemos ou se acostumam aos cortes de luz, procuram sua água potável, medicinas, alimentos, etc. Os egípcios são nossos bons vizinhos que têm a fronteira fechada. Como é possível que digam que há crise humanitária se nosso governo tem permitido este ano a entrada a Gaza de 24.302 toneladas de fruta, 14.879 de farinha e 600 de carne? Se as dividimos por 150 dias e 1.5 milhões de pessoas, isso dá 180 gramas de fruta, 66 gramas de farinha e 2 gramas de carne por pessoa a cada dia.

Por isso nós atacamos essa frota. Porque trazem armas muito perigosas. Por isso nos atacaram quando nossos soldados desceram em modernos helicópteros às 4 da manhã em águas internacionais. Os pacifistas nos atacaram com facas de cozinha, paus, chaves, martelos e correntes. Nosso governo afirma que, além disso, tinham coletes anti-balas (como se vez alguma tivéssemos atirado em alguém), prismáticos e equipes de visão noturna, que não aparecem nas fotografias difundidas pela imprensa.

Que direito eles têm a se defender? Esse direito só nos pertence aos sionistas. O primeiro ministro turco Erdogan disse que os barcos tinham sido inspecionados exaustivamente antes de zarpar da Turquia e não se encontraram armas nem terroristas a bordo. Turquia é a nossa aliada, mas, nós temos que velar por nossa segurança. Também não podemos ser irresponsáveis, devemos desconfiar dos nossos amigos e até da nossa própria sombra. Como sempre, tínhamos razão. As armas foram descobertas. Podem apreciar-las neste vídeo onde os ativistas se delatam.

httpv://www.youtube.com/watch?v=ZvxH_VvIAiU

Querem que o mundo deixe de tratar os sionistas como as vítimas eternas e comece a ver a realidade na qual vivem os palestinos. Não vão enganar a ninguém. Assim como vocês não se enganarão e verão que armas levavam em sua “ajuda humanitária”: material médico e educativo, material para a construção, cem casas pré-fabricadas destinadas às famílias que perderam suas moradias durante a Operação Chumbo Fundido (uma das nossas bem sucedidas operações militares) e 500 veículos elétricos para deficientes físicos.

Santo Domingo, junho de 2010.

*A autora é judia.

Fontes:

http://open.salon.com/blog/rickyb/2010/05/30/gaza_come_for_the_blockade_stay_for_the_stroganoff

http://www.larazon.es/noticia/2963-flotilla-de-la-libertad-la-ayuda-humanitaria-que-se-encontro-con-el-fuego

La limpieza étnica de Palestina, Pappé I, 2008, Crítica S.L., Barcelona

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