Coletivo indígena Guarani Mbya retoma território tradicional e pede apoio à demarcação do tekoa Jakupe Amba

A retomada ocorreu na última sexta-feira (6) em área onde o líder Guarani Sepé Tiaraju foi assassinado e onde ocorreu o massacre de Caibaoté, que vitimou milhares de indígenas Guarani

Coletivo indígena Guarani Mbya retomam tekoa Jakupe Amba, área tradicional onde morreu o líder Guarani Sepé Tiaraju e onde ocorreu o massacre de Caibaoté, que vitimou milhares de indígenas Guarani. Foto: Vhera Poty

Por Cimi Regional Sul.

Na manhã da última sexta-feira (6), um grupo de famílias Mbya Guarani retomaram parte de seu território tradicional, o tekoa Jakupe Amba, localizado no município de São Gabriel, região de fronteira do Rio Grande do Sul com Uruguai e Argentina.

Em 7 de fevereiro de 1776, nessa mesma região, Sepé Tiaraju, líder Guarani, foi assassinado em uma emboscada por soldados da Espanha e Portugal em Sanga da Bica, área onde está localizada, hoje, um monumento à memória de Sepé. No dia 09 de fevereiro daquele mesmo ano, também em São Gabriel, ocorreu o massacre de Caibaoté, no qual milhares de indígenas Guarani foram mortos depois de serem atacados pelos exércitos da Espanha e Portugal.

Um grupo de famílias Mbya Guarani retomaram parte de seu território tradicional, o tekoa Jakupe Amba

Há muitos anos os Mbya Guarani realizam reuniões, encontros e articulam ações culturais e religiosas naquela região. Durante mais de 10 anos ocorrem encontros em memória a Sepé Tiaraju naquela localidade. Em carta, a comunidade pede apoio de pessoas solidárias e instituições e requerem a presença de agentes da Fundação Nacional dos Povos Indígena (Funai) na região, além da atenção e monitoramento do Ministério Público Federal (MPF).

Na carta, o coletivo reivindica a garantia aos seus direitos territoriais por meio da demarcação do Tekoa Jakupe Amba, do povo Mbya Guarani. “Decidimos ocupar um lugar onde sempre foi e será o nosso lar, estamos continuando nossa história vivendo em um lugar onde sempre nos pertenceu e nos pertencerá. Nossa história deve ser respeitada, escrita e contada por nós, através da nossa presença e prática de tudo que nos faz ser Guarani, povo originário deste território”, afirmam em carta.

“Nossa história deve ser respeitada, escrita e contada por nós, através da nossa presença e prática de tudo que nos faz ser Guarani, povo originário deste território”

Coletivo indígena Guarani Mbya retomam tekoa Jakupe Amba, área tradicional onde morreu o líder Guarani Sepé Tiaraju e onde ocorreu o massacre de Caibaoté, que vitimou milhares de indígenas Guarani. Foto: Vhera Poty

Leia a carta na íntegra:

Carta do Coletivo

06 de outubro de 2023, Tekoa Jakupe Amba, São Gabriel-RS

Nós, coletivo de indígenas da etnia Guarani Mbya moradores do Tekoa Jakupe Amba, em São Gabriel, no Rio Grande do Sul, em área de retomada – anciãos, adultos e crianças representados pelo cacique Vherá Poty – todos falantes da língua materna Guarani Mbya, viemos por meio desta carta solicitar providências imediatas por parte dos órgãos competentes, Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Ministério Público Federal (MPF) e Ministério dos Povos Indígenas (MPI) para a demarcação. Pedimos ainda a todos os outros órgãos competentes atenção aos direitos dos povos indígenas da retomada Jakupe Amba no município de São Gabriel, Rio Grande do Sul.

Poder viver nessa região era o sonho de um casal de anciãos, nossos avós, de nome guarani Vhera Xunu, seu Marcolino da Silva, e Pará Mirim, Dona Florentina Fernandes. Esse também continua sendo o sonho de muitos outros anciãos de outros lugares. Nossos avós, no ano de 2016, nos deixaram sem ver os seus sonhos e desejos se realizarem, que era viver em uma aldeia na região de São Gabriel onde sempre foi um lugar de convivência e pertencimento de nossos antepassados.

Anos depois foram seus filhos, meus pais, que em suas conversas solicitaram a mim, que eu fosse realizar esse sonho dos nossos avós, que sempre tinha sido sonho de todos o tempo todo, por pertencermos aos povos que na região viviam e de muitos que foram massacrados no processo de guerra que houve na região.

Desde então decidimos ocupar um lugar onde sempre foi e será o nosso lar, estamos continuando nossa história vivendo em um lugar onde sempre nos pertenceu e nos pertencerá. Nossa história deve ser respeitada, escrita e contada por nós, através da nossa presença e prática de tudo que nos faz ser Guarani, povo originário deste território.

Nessa região onde é considerado como terra do líder guarani Sepé Tiaraju, e que também é comprovada através de estudos, e também pelos mais velhos, os próprios Guarani, que é um território de ocupação de nossos ancestrais, onde também houve muitas guerras e massacres de muitos povos indígenas, inclusive onde o líder Guarani Sepé Tiaraju foi assassinado e onde até hoje tem uma estátua e o local onde ele tombou. Por toda uma questão histórica e de reconhecimento por parte do nosso povo como um lugar sagrado, nós coletivo com apoio e acompanhamento de outros caciques do estado estamos aqui reivindicando uma área localizada dentro do município que está desocupado.

O nosso sonho é viver nessa aldeia onde possamos ter o nosso espaço de convivência coletiva, viver de acordo com nossa cultura e, através dela, sempre se comunicar com as políticas externas de modo equilibrado, sempre protegendo nosso modo de vida e nossa compreensão de mundo. Construindo nossa OPY, casa tradicional de ritual, e assim praticar e fortalecer o nosso modo de vida que sempre foi e será a nossa fortaleza, o Mbya reko, modo de ser Guarani. Assim finalizamos essa carta de reivindicações e aguardamos a resposta. Abaixo assinamos todos do coletivo.

Coletivo Guarani Mbya do Tekoa Jakupe Amba.

 

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