Ataques do Congresso à Anvisa prejudicam entendimento sobre as vacinas no Brasil

Parlamentares querem diminuir o prazo para autorização de uso emergencial de imunizantes; Anvisa vê risco à segurança

Moradora de comunidade no Rio Negro (AM) recebe vacina contra a covid. Aprovação dos imunizantes no Brasil passa por aval criterioso da Anvisa (Foto: Michel Dantas/ AFP)

Por Nara Lacerda.

Na semana que se encerra neste sábado (13), a média diária de mortes por causa da covid-19 no Brasil completa quase um mês acima de mil óbitos. Enquanto o país vive um cenário alarmante, o Congresso Nacional pressiona a Anvisa por prazos menores na aprovação de vacinas.

Essa pressão é irresponsável. Há muitos interesses aí que não estão óbvios.

A crise política entre as duas instituição começou ainda na sexta-feira (5), quando o líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros (Progressistas-PR), ameaçou “enquadrar” a Agência. Nos dias posteriores, ele trocou farpas públicas com o presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres.

Um dia antes, na quinta-feira (4), o Congresso Nacional aprovou uma Medida Provisória (MP) que, entre outras definições, diminui para cinco dias o prazo pra autorização do uso emergencial de vacinas no Brasil. A condição para isso é de que o imunizante tenha aval de alguma agência estrangeira.

No início desta semana, Jair Bolsonaro foi a público dizer que não apoiava o posicionamento do líder de sua base. O recado não adiantou e a pressão em cima da Agência seguiu forte.

A essa altura, a Associação dos Servidores da Agência Nacional de Vigilância Sanitária já havia divulgado uma nota rebatendo os parlamentares. O texto afirmava que a aprovação da MP demonstra “desconhecimento da complexidade do trabalho de avaliação envolvido”.

Ainda de acordo com o posicionamento, a Anvisa é uma das agências mais céleres do mundo e o congresso passa “a falsa impressão de que as dificuldades encontradas neste momento se devem à inoperância” da instituição.

O médico de família Aristóteles Cardona, da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares, afirma que existe uma pressão geral pela aprovação de vacinas, mas é preciso garantias de segurança e respeito às instituições brasileiras, historicamente consolidadas

Em conversa no podcast A Covid-19 na Semana (ouça na íntegra abaixo do título), ele ressalta que enfraquecer a Anvisa pode trazer consequências e riscos também no futuro.

“O problema não é só agora. O problema é daqui em diante, na aprovação de medicamentos, na aprovação de outras vacinas. Se a gente enfraquece a Anvisa desse jeito, a gente corre o risco de comprometer o suporte que ela nos dá”, alerta o médico.

As pressões empresariais no Congresso são um componente importante do embate. “Essa pressão é irresponsável. Há muitos interesses aí que não estão óbvios”, explica o médico, ao se referir às influências políticas de representantes da vacina russa Sputnik Z, ainda não aprovada.

De acordo com informações da Anvisa, “até o momento, nenhuma autoridade reguladora de referência e que participa dos mesmos fóruns técnicos que a Anvisa concedeu autorização de uso emergencial de forma automática, baseada na avaliação de um outro país”.

Na quarta-feira (10), Torres pediu diretamente a Bolsonaro que a proposta de diminuir o prazo seja vetada. Na saída da reunião, ele disse que houve sinalização positiva nesse sentido. Mas o Palácio do Planalto ainda não se pronunciou.

“Eu entendo que haveria risco sanitário para a população, sem dúvida alguma. Nós estamos falando de dossiês entre 18 mil e 20 mil páginas de cada vacina, a ser analisado por um grupo de pessoas”, afirmou ele após o encontro com  o presidente.

Enquanto a disputa perdura, o Brasil vacinou menos de 5% da população. A disponibilização de doses para o país caminha lenta e o Ministério da Saúde teve poucos resultados nas negociações com os laboratórios que, além de tudo, demoraram para começar.

Caminhando para um total de 10 milhões de contaminados desde o ano passado, não há sinalização de melhora nos números do Brasil. Se continuar com média móvel de mortes acima de 1 mil por dias, o país chegará ao pior momento da pandemia em solo nacional na próxima semana.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here


This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.