Ao completar quase 4,5 anos da Operação Militar Especial da Rússia na Ucrânia, torna-se ainda mais evidente que a caracterização deste país como uma potência imperialista carece de qualquer fundamento na teoria econômica clássica ou na realidade dos fatos. O imperialismo, pressupõe a exportação de capitais, a dominação de mercados por monopólios transnacionais e a subordinação de nações periféricas a uma estrutura de exploração financeira. A Rússia, embora possua o maior território do mundo (com aproximadamente 17,1 milhões de km², é quase 2x o tamanho do Canadá – segundo maior país), apresenta uma inserção externa típica de uma economia dependente de recursos naturais, exportando majoritariamente commodities agrícolas e minerais.
A tese do imperialismo russo desmorona, inclusive, quando confrontada com a lista Fortune Global 500 de 2025. Enquanto os Estados Unidos abrigam 138 das maiores empresas do mundo e a China detém 124, a Rússia possui apenas 6 empresas no ranking, como a Gazprom e a Lukoil. Comparativamente, o Brasil, uma economia historicamente fustigada pelo subdesenvolvimento, possui 7 empresas na mesma lista. O imperialismo é uma etapa superior do capitalismo que exige uma rede global de corporações que drenam riqueza de outros povos; a Rússia, com sua pauta exportadora primária, é um alvo do imperialismo da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), e não o seu agente. A guerra na Ucrânia é, portanto, a resposta de um Estado nacional que se recusa a ser desmembrado e reduzido a uma colônia fornecedora de energia para o Ocidente.
A estrutura econômica russa fundamenta-se na exportação de petróleo, gás e minérios, o que a coloca em uma posição de vulnerabilidade diante das flutuações de preços internacionais e das sanções impostas pelo bloco liderado pelos Estados Unidos. Sanções estas que são as mais numerosas da história: de acordo com referências amplamente citadas por veículos de imprensa, o total geral de sanções contra a Rússia considerando todos os países e blocos imperialistas (EUA, UE, Reino Unido, Canadá, Japão etc.), ultrapassa 23.960 designações.
Ademais, logo após o início da guerra com a Ucrânia (na verdade, com a OTAN), em fevereiro de 2022, os países do G7, a União Europeia, Austrália e Suíça “congelaram” aproximadamente US$ 300 bilhões em reservas do Banco Central da Rússia mantidas em suas jurisdições. Esse valor representava cerca de metade das reservas totais da Rússia na época (que eram de cerca de US$ 640 bilhões). Essas reservas estavam distribuídas entre diversos países e instituições, sendo que o maior volume está na Euroclear (Bélgica), a câmara de liquidação central europeia, que sozinha detém cerca de € 200 bilhões em ativos do Banco Central Russo.
Em 2025, a Rússia manteve-se como o 3º maior produtor de petróleo do mundo, com uma extração aproximada de 10,7 milhões de barris por dia. O crescimento da Rússia, entre 2023 e 2025, mesmo com todas as sanções, chegou a 8,9%, enquanto a União Europeia cresceu meros 3,03% nestes três anos. A resiliência da economia russa decorre de um agregado de fatores. O principal motor são os gastos militares. A indústria bélica tornou-se o centro da economia: fábricas operando 24h, 3 turnos, produzindo tanques, mísseis, drones e munição. Isso gerou empregos e renda em regiões industriais (Urais, Sibéria, Tatarstão), com salários acima da média. O efeito multiplicador aqueceu setores como transporte, metalurgia, química e construção civil.
Outro fator fundamental foi o “desvio” do petróleo para China e Índia. Com as sanções ocidentais, e a sabotagem dos gasodutos Nord Stream 1 e 2, pelos EUA, a Rússia redirecionou suas exportações de energia para Ásia. As importações chinesas de petróleo russo saltaram de cerca de 1,6 milhão de barris/dia (2021) para 2,4 milhões (2024). Além disso, a China fornece semicondutores, máquinas e componentes industriais que substituíram produtos ocidentais. A Índia, passou de praticamente zero petróleo russo para mais de 2 milhões de barris/dia em 2024, com descontos de 15-20% sobre o Brent (padrão global de preço do petróleo). Refinarias indianas processam o petróleo e reexportam derivados para a Europa, burlando na prática as sanções. Turquia, Emirados Árabes e Brasil: tornaram-se polos de reexportação de produtos sancionados, a chamada “frota fantasma” de navios (navios que operam às escondidas para transportar petróleo russo acima do teto de preço. Usam manobras de ocultação e têm sido essenciais para a Rússia evitar o colapso das exportações de petróleo).
Outros elementos fundamentais na resistência russa foram o controle de Capital e a Política Monetária agressiva. Em 2022, o Banco Central Russo agiu rápido para evitar o colapso financeiro, elevando a taxa de juros, visando estabilizar o rublo. Além disso fez controle de capital forçando exportadores a vender 80% das receitas em moeda estrangeira, diversificando assim suas reservas. Também proibiu estrangeiros de venderem ativos russos sem autorização. Esse conjunto de ações monetárias permitiu a recuperação do rublo, evitando a hiperinflação, que teria sido um veneno para a economia. Outra medida importante, foi a substituição de importações, decorrência natural das sanções extremas. A Rússia tornou-se o maior exportador mundial de trigo, por exemplo. No setor tecnológico surgiram alternativas locais para softwares ocidentais. Na área farmacêutica, a produção nacional de medicamentos essenciais cresceu significativamente.
Antes da guerra, a Rússia já tinha dívida pública baixa: cerca de 21% do PIB, que é a menor das 11 principais economias do mundo (a dos EUA é 120% e a do Japão, 237%). Esse aspecto foi muito importante. A economia russa tem também reservas cambiais de cerca de US$ 630 bilhões, o que lhe proporcionou um colchão fiscal para absorver o choque das sanções sofridas pelo ocidente. O “jeitinho” russo também entrou em campo. Empresários e traders encontraram caminhos criativos para contornar sanções, como importações paralelas, que possibilitam entrar produtos através de países terceiros. Se estabeleceram, além disso, corredores comerciais via Cazaquistão, Geórgia, Armênia e Uzbequistão.
A OTAN, criada em 1949 com apenas 12 membros sob o pretexto de defesa mútua contra a União Soviética, deveria ter sido extinta em 1991 com a queda do Muro de Berlim e a dissolução do Pacto de Varsóvia. No entanto, o que se viu nas décadas seguintes foi uma expansão agressiva e injustificada em direção às fronteiras russas, violando promessas verbais feitas a Mikhail Gorbachev. Hoje, a organização conta com 32 países-membros, tendo incorporado a Finlândia em abril de 2023 e a Suécia em março de 2024. Essa movimentação transformou o Mar Báltico em um “lago da OTAN” e colocou infraestrutura militar de ponta a poucos minutos de voo de Moscou, ignorando sistematicamente as “linhas vermelhas” estabelecidas pelo Kremlin para sua segurança nacional.
Por outro lado, a Europa enfrenta uma desindustrialização acelerada devido ao custo da energia, antes barata e proveniente da Rússia, e agora cara e importada dos Estados Unidos. Países como Alemanha e França viram o número de suas empresas na Fortune Global 500 cair drasticamente entre 2020 e 2025 — a Alemanha passou de 27 para 23 empresas e a França de 31 para 24. É que o imperialismo americano não hesita em canibalizar seus próprios aliados para manter sua supremacia e ganhar dinheiro com a guerra vendendo armas de petróleo. Por isso que a guerra na Ucrânia não termina, mesmo com as bravatas de Donald Trump e do risco de o país ser literalmente varrido do mapa. A guerra e a russofobia servem também para subordinar definitivamente a Europa aos interesses estratégicos e energéticos de Washington, eliminando qualquer possibilidade de uma autonomia estratégica europeia em parceria com a Eurásia.
O cenário atual de ataques recíprocos no Mar Negro e bombardeios constantes em Kiev e Odesa reflete um impasse militar que interessa diretamente aos fabricantes de armas. A Ucrânia, exaurida demograficamente e endividada por gerações, tornou-se um laboratório de testes para novas tecnologias de destruição. O envio contínuo de bilhões de dólares em ajuda militar, sem perspectiva de vitória da OTAN, confirma que o objetivo nunca foi a “democracia” ou a “liberdade”, mas sim o enfraquecimento permanente de um adversário geopolítico, independentemente de quantas vidas ucranianas ou russas sejam sacrificadas no processo.
Os acontecimentos na Ucrânia oferecem preciosas lições aos países atrasados do mundo. Fica evidente que a ação diplomática deve ser acompanhada de uma robustez industrial e militar. Somente um projeto nacional de desenvolvimento, que integre a defesa, a energia e a tecnologia, poderá garantir que os países atrasados não sejam a próxima vítima de uma dominação forjada a ferro e fogo. A guerra na Ucrânia, que completará cinco anos em poucos meses, é um alerta de que a ordem mundial unipolar está morrendo, mas seu estertor é violento e perigoso. A transição para um mundo multipolar não será pacífica, pois o imperialismo não renuncia a seus privilégios sem derramamento de sangue. Cabe às nações do Sul Global, como o Brasil, fortalecerem seus laços de cooperação fora do eixo Washington-Bruxelas e construírem as bases de uma soberania real, fundamentada na ciência, na indústria e na defesa intransigente de seus recursos naturais e de seu povo.
Dentre outras coisas, a guerra na Ucrânia desmascarou a hipocrisia das instituições ligadas aos países imperialistas. O direito internacional é invocado apenas quando convém aos interesses das potências dominantes. Quando os Estados Unidos invadiram o Iraque ou destruíram a Líbia, ou na atual agressão criminosa ao Irã, não houve sanções ou exclusão do sistema SWIFT. A diferença agora é que a Rússia possui os meios para resistir militarmente, o que transformou o conflito em uma guerra de atrito que testa os limites da globalização financeira. O povo ucraniano, tragicamente, é quem paga o preço mais alto por ter acreditado nas promessas de integração ao “primeiro mundo”. A destruição de sua infraestrutura e a perda de uma geração de jovens são danos irreparáveis. Enquanto isso, os lucros das 500 maiores empresas continuam a crescer, alimentados pela instabilidade e pelo medo. A lição para o mundo é clara: em um sistema dominado pelo capital financeiro e pelo poderio militar, a única garantia de paz é a capacidade de defesa soberana e a independência econômica. A dominação forjada a ferro e fogo continua sendo a regra do jogo, e ignorar essa realidade é o primeiro passo para a derrota definitiva.
José Álvaro Cardoso é membro do DIEESE/SC, economista, escritor e apresentador da coluna Análise da Economia, no JTT do Portal Desacato.
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