Santa Catarina lidera o país em ameaças contra mulheres, tem 62,4% dos assassinatos femininos classificados como feminicídio, quase 20 pontos acima da média nacional, e registra alta de 36% nos casos em 2026. O paradoxo catarinense não é um acidente estatístico: é o retrato de uma violência que virou paisagem.

Por Luiza Soeiro para Desacato.info
Há um número no 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que resume o problema catarinense melhor que qualquer outro. Enquanto 44,4% das mulheres assassinadas no Brasil em 2025 morreram por razões de gênero, em Santa Catarina essa proporção chega a 62,4%.
Ou seja, no estado que acaba de conquistar o título de menor taxa de mortes violentas do país, quando uma mulher é morta, a chance de ela ter sido morta por ser mulher é quase 20 pontos percentuais maior que a média brasileira.
Não se trata de um estado violento. Trata-se de um estado onde a violência que resta é, majoritariamente, violência de gênero.
Os números
O Anuário catalogou 53 feminicídios em Santa Catarina em 2025, frente a 51 em 2024, isso é uma taxa de 1,3 mulheres mortas por questão de gênero a cada 100 mil mulheres, com crescimento de 2,3% no período. Um ano antes, o governo do estado comemorava: a queda de 12% registrada em 2024 ia “na contramão” da alta nacional. A contramão durou doze meses.
A série histórica do Observatório da Violência Contra a Mulher de Santa Catarina (OVM/SC) mostra por que a comemoração era prematura. Foram 57 feminicídios em 2020, 55 em 2021, 57 em 2022, 57 em 2023 e 51 em 2024. Uma linha quase reta. Enquanto homicídios dolosos despencavam, latrocínios diminuíram e o estado se credenciava como o mais seguro da federação, os feminicídios permaneciam onde sempre estiveram, teimosamente, monotonamente estáveis.
Em 2026, a linha reta virou subida. Entre janeiro e julho, Santa Catarina registrou 30 feminicídios, contra 22 no mesmo período de 2025, alta de aproximadamente 36%. Até maio eram 23; em pouco mais de um mês, mais sete mulheres foram assassinadas.
Se o ritmo se mantiver, 2026 fechará acima de qualquer ano da série.
A antessala do crime
Santa Catarina lidera a taxa de ameaças contra mulheres no Brasil: foram 71.697 registros em 2025, ou 1.733 para cada 100 mil mulheres, mais que o dobro da média nacional, de 720,9. O estado também aparece com a 4ª maior taxa de violência psicológica do país, empatado com o Rio Grande do Sul.
E não para aí: O anuário coloca Santa Catarina entre os estados com maior número de descumprimento de medidas protetivas. 93,8 por 100 mil, contra média nacional de 61,9.
Ameaça é a antessala do feminicídio. Descumprimento de medida protetiva é a antessala do feminicídio. E o estado lidera a primeira e figura no topo da segunda.
O que dá ao número catarinense sua dimensão mais brutal vem do próprio levantamento estadual: 85,7% das vítimas de 2026 já haviam procurado ajuda e denunciado episódios anteriores de violência. Nove foram mortas pelos namorados, oito pelos maridos, sete por ex-companheiros. A faixa etária mais atingida é a de mulheres entre 25 e 39 anos, e a arma branca foi o principal instrumento dos crimes.
Elas denunciaram, o sistema catarinense recebeu a denúncia. E elas morreram mesmo assim.
O Mapa do Feminicídio do MPSC completa o retrato: 71% dos feminicídios em Santa Catarina são feminicídios íntimos, cometidos por companheiros ou ex-companheiros.
Por que um estado vira feminicida?
A pergunta que os dados impõem não é quantas. É por quê.
A resposta que a criminologia feminista oferece há décadas é que o feminicídio é um desfecho que se inicia muito antes do que se espera. A antropóloga argentina Rita Segato, em La guerra contra las mujeres, descreve a violência de gênero como uma pedagogia: cada agressão não punida ensina, ao agressor e à comunidade que assiste, que aquele corpo é território disponível. A morte não interrompe a sequência, mas ela faz um papel de conclusão.
Marcela Lagarde, socióloga mexicana que cunhou o termo “feminicídio” em espanhol, foi ainda mais direta ao definir o conceito: não é apenas o assassinato de mulheres, é o assassinato de mulheres permitido pelo Estado, o que ela chamou de impunidade estrutural. Um feminicídio, nessa leitura, é sempre uma coautoria entre quem mata e quem deixou de impedir.
Aplique isso a Santa Catarina. Um estado que registra 71 mil ameaças contra mulheres por ano e as processa como ocorrência de menor potencial ofensivo. Um estado que concede medidas protetivas e depois convive com 93,8 descumprimentos por 100 mil mulheres. Um estado onde 85,7% das mulheres mortas em 2026 já haviam pedido socorro.
Isso demonstra que o nosso estado tem excesso de denúncia sem consequência.
Nossa realidade
O governo de Santa Catarina construiu uma narrativa de segurança pública sobre um indicador só: mortes violentas intencionais. O estado de fato reduziu suas MVI em 11,1% em 2025, e a taxa de homicídios por 100 mil habitantes caiu de 8,6 para 7,6, colocando SC à frente de São Paulo como o estado com menor taxa de mortes violentas do país.
É um resultado real. Mas é um resultado sobre um tipo específico de violência, reservado para aquela que acontece na rua, entre homens, geralmente associada a disputas territoriais e mercados ilícitos. É a violência que responde a policiamento ostensivo, câmera, viatura, efetivo.
O feminicídio, como sabemos, não acontece na rua. São dentro das casas, cometido por quem tem chave. É imune a policiamento ostensivo porque não há patrulha que entre no quarto.
Quando o estado reduz drasticamente um tipo de violência e não move o outro, o resultado é aritmético: a violência de gênero passa a ocupar uma fatia proporcionalmente maior do total. Daí os 62,4%. Não porque Santa Catarina piorou de repente, mas porque, ao limpar tudo ao redor, o estado expôs o que nunca foi prioridade.
O próprio Anuário registra a inadequação da resposta punitiva ao comentar o crescimento nacional dos descumprimentos de medidas protetivas: o documento defende que é essencial ir além dos caminhos punitivos habituais, argumentando que a reatividade precisa dar lugar à prevenção.
Reatividade é exatamente o que Santa Catarina tem oferecido: 71 mil boletins de ocorrência por ameaça, medidas protetivas emitidas e descumpridas, e 53 mulheres mortas no ano passado.
Se você ou alguém que você conhece está em situação de violência doméstica, ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) ou 190 em caso de emergência.
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