Por Mariana Soares.
Há quem imagine que a maior ameaça às sociedades seja a corrupção, o autoritarismo ou a ganância. O historiador econômico italiano Carlo M. Cipolla propôs uma hipótese ainda mais perturbadora: nenhuma dessas forças é tão destrutiva quanto a estupidez organizada. Em seu célebre ensaio As Leis Fundamentais da Estupidez Humana, ele argumenta que o indivíduo estúpido é aquele que provoca prejuízos aos outros sem obter qualquer benefício para si — e, muitas vezes, causando dano também a si próprio. É justamente essa irracionalidade que torna a estupidez mais perigosa do que o banditismo.
A tese parece exagerada até olharmos para o mundo contemporâneo. Vivemos uma época em que a desinformação é celebrada como coragem, a ignorância é apresentada como autenticidade e a incompetência se fantasia de rebeldia. A política passou a recompensar quem grita mais alto, não quem apresenta melhores argumentos. O debate público foi substituído pelo espetáculo permanente.
No Brasil, a era dos idiotas não significa que a população tenha se tornado menos inteligente. Significa que determinados comportamentos passaram a ser premiados. O desprezo pelo conhecimento científico, o ataque às universidades públicas, a demonização da cultura, o incentivo às teorias conspiratórias e a transformação da mentira em estratégia política produziram um ambiente em que o absurdo deixou de causar espanto.
Durante a pandemia de covid-19, vimos exemplos eloquentes desse fenômeno. Milhões de pessoas recusaram medidas sanitárias, propagaram informações falsas sobre vacinas e medicamentos sem eficácia comprovada, colocando em risco a própria vida e a de terceiros. Sob a ótica de Cipolla, trata-se de um caso clássico de comportamento estúpido: produzir danos coletivos sem qualquer ganho real para si.
O mesmo ocorre quando setores da sociedade defendem cortes na educação pública acreditando que isso reduzirá impostos ou melhorará os serviços. Na prática, o resultado costuma ser o oposto: menos formação profissional, menor produtividade, aumento das desigualdades e redução das oportunidades para toda a sociedade, inclusive para quem apoiou essas medidas.
Outro exemplo aparece na devastação ambiental. O desmatamento ilegal, a destruição de biomas e o incentivo à exploração predatória podem gerar lucro para grupos específicos. Mas quando cidadãos comuns defendem políticas que degradam os recursos naturais dos quais dependem sua agricultura, seu abastecimento de água e sua qualidade de vida, estão colaborando para perdas que também os atingirão.
As redes sociais ampliaram exponencialmente esse processo. Algoritmos privilegiam indignação, simplificações e polarização. A mentira circula mais rápido que a correção. Influenciadores sem qualquer conhecimento especializado acumulam milhões de seguidores, enquanto pesquisadores são tratados como inimigos. Nunca foi tão fácil transformar opiniões infundadas em verdades compartilhadas.
Cipolla também alertava que pessoas inteligentes costumam subestimar o poder destrutivo dos estúpidos. Esse talvez seja o erro mais recorrente das forças democráticas. Durante muito tempo acreditou-se que o extremismo desapareceria diante dos fatos, que a educação formal bastaria para neutralizar a desinformação ou que instituições consolidadas seriam suficientes para conter aventuras autoritárias. A realidade mostrou o contrário.
A estupidez não precisa de uma organização central. Ela se espalha por imitação, medo, ressentimento e oportunismo. Não depende de escolaridade, renda ou posição social. Como observava Cipolla, ela pode ser encontrada em qualquer profissão, partido político ou classe econômica. Subestimar esse fato significa abrir espaço para que decisões irracionais se tornem políticas públicas.
Isso não significa que todo erro político seja estupidez. Existem projetos autoritários perfeitamente racionais do ponto de vista de quem busca acumular poder ou riqueza. Cipolla chamaria esses agentes de “bandidos”: prejudicam os demais para obter vantagens pessoais. O problema é que esses projetos frequentemente recrutam milhares de pessoas dispostas a defender políticas que também as prejudicam. É aí que a estupidez se converte em força política.
O Brasil enfrenta desafios enormes: desigualdade, concentração de renda, precarização do trabalho, crise climática e ataques recorrentes às instituições democráticas. Nenhum deles será enfrentado com slogans, negacionismo ou culto à ignorância. Uma democracia depende de cidadãos capazes de distinguir fatos de propaganda, ciência de superstição e crítica de manipulação.
Talvez a maior contribuição de Carlo Cipolla seja lembrar que a defesa da inteligência não passa apenas pela acumulação de conhecimento, mas pela responsabilidade coletiva. Uma sociedade madura é aquela que incentiva decisões capazes de produzir benefícios para quem as toma e para toda a comunidade.
A era dos idiotas não terminará por si mesma. Ela só poderá ser superada quando o pensamento crítico voltar a ser tratado como virtude pública e quando a política deixar de premiar quem produz mais ruído para valorizar quem produz soluções. Afinal, como advertia Cipolla, ignorar o poder destrutivo da estupidez sempre cobra um preço — e esse preço costuma ser pago por toda a sociedade.
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