Ali Khamenei e a Palestina como eixo permanente da Revolução Islâmica

Por Sayid Marcos Tenório.

A defesa da Palestina não foi, para o Ayatullah Seyyed Ali Khamenei, uma questão circunstancial de política externa. Constituiu o eixo permanente de sua atuação política, diplomática e estratégica ao longo de quase quatro décadas à frente da República Islâmica do Irã.

Desde a Revolução Islâmica de 1979, a causa palestina deixou de ser apenas uma pauta regional para se tornar um princípio estruturante do Estado iraniano. Sob a liderança de Khamenei, esse compromisso foi aprofundado e consolidado como expressão da luta contra o colonialismo, a ocupação e a hegemonia estrangeira no Oriente Médio.

Na visão de Khamenei, a Palestina simboliza a maior injustiça contemporânea contra um povo privado de sua terra, de sua soberania e de seu direito à autodeterminação.

Por isso, sempre rejeitou iniciativas que reduzissem a questão palestina a negociações limitadas ou acordos patrocinados pelas potências ocidentais, sustentando que nenhuma solução seria legítima enquanto preservasse a ocupação, negasse o direito de retorno dos refugiados e mantivesse a negação dos direitos nacionais do povo palestino.

Para ele, a libertação da Palestina era uma questão de justiça histórica e de direito internacional, não uma concessão diplomática.

Esse compromisso deu continuidade ao legado do Imam Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica, que transformou Jerusalém e a Palestina em um dos pilares da Revolução.

Mesmo enfrentando uma guerra devastadora, décadas de sanções econômicas, isolamento internacional e constantes ameaças militares, Khamenei jamais relegou a causa palestina a um plano secundário.

Ao contrário, insistiu que a defesa da Palestina era inseparável da defesa da independência e da soberania do próprio Irã.

Ao longo de sua liderança, Khamenei transformou esse compromisso em uma política permanente de Estado. Teerã tornou-se um dos principais centros de diálogo entre as lideranças da resistência palestina.

Em sucessivos encontros com delegações do Hamas, da Jihad Islâmica Palestina e de outras organizações, o Líder Khamenei reafirmava o apoio político, espiritual e material da República Islâmica, ao mesmo tempo em que incentivava a coordenação entre os diferentes movimentos.

Mais do que anfitrião desses encontros, Khamenei foi um dos principais articuladores da aproximação entre o Hamas e a Jihad Islâmica Palestina, defendendo mecanismos permanentes de cooperação política e estratégica entre as forças da resistência. Sua convicção era a de que a fragmentação favorecia a ocupação, enquanto que a unidade fortalecia o caminho da libertação.

O apoio iraniano ultrapassou a solidariedade retórica. Sob sua liderança, a República Islâmica ofereceu respaldo político nos fóruns internacionais, assistência material e apoio ao fortalecimento da capacidade de resistência das organizações palestinas.

Ao mesmo tempo, Khamenei conferiu legitimidade moral e religiosa à luta palestina, apresentando-a como um dever coletivo da Ummah. Ao receber regularmente dirigentes de movimentos de maioria sunita, reafirmou que a Palestina estava acima das diferenças confessionais, transformando a resistência à ocupação sionista em um elemento de convergência entre xiitas e sunitas.

Essa concepção explica também a centralidade da Palestina na construção do chamado Eixo da Resistência.

Para Khamenei, a resistência nunca foi apenas uma resposta militar à ocupação, mas um projeto político regional voltado à defesa da soberania dos povos frente às intervenções estrangeiras.

Palestina, Líbano, Síria, Iraque, Iêmen e Irã passaram a integrar uma mesma arquitetura estratégica, fundada na convicção de que a estabilidade da região depende do fim da ocupação da Palestina e da superação do projeto colonial representado por “Israel”.

Essa visão conferiu à questão palestina uma dimensão que ultrapassa as fronteiras do Oriente Médio.

Para Khamenei, a Palestina tornou-se o principal símbolo contemporâneo da luta anticolonial, da autodeterminação dos povos e da resistência à dominação imperial.

Não por acaso, fez do Dia Internacional de Al-Quds um instrumento permanente de mobilização política e de solidariedade internacional, mantendo viva a centralidade da causa palestina mesmo em períodos de menor atenção da comunidade internacional.

O legado político de Ali Khamenei, portanto, não pode ser compreendido sem a Palestina.

Mais do que um defensor da causa palestina, ele ajudou a transformá-la em um dos principais eixos da geopolítica regional e em elemento estruturador da política externa iraniana.

Para seus apoiadores, sua maior contribuição foi demonstrar que a resistência não constitui apenas uma estratégia militar, mas um projeto político capaz de unir diferentes povos, correntes islâmicas e movimentos de libertação em torno de um objetivo comum: o fim da ocupação e a construção de uma Palestina livre, soberana e independente.

Sayid Marcos Tenório é historiador, analista de geopolítica e presidente do Instituto de Amizade Brasil-Irã. É autor do livro ‘Palestina, do mito da terra prometida à terra da resistência’.

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