Por Martin Jay.
O presidente Donald Trump possivelmente assinou o pior acordo para ele e para os EUA, na curta história de seu país com o Irã, o que ressalta o quanto ele estava desesperado para reabrir o Estreito de Ormuz e começar a restabelecer o transporte marítimo mundial, na esperança de reduzir os preços do petróleo. De acordo com relatos na noite de domingo, 14 de junho, parece que ele e o Irã chegaram a um acordo provisório que muitos já estão chamando de “memorando de 60 dias”, dada a janela de oportunidade para conquistar o prêmio maior: fazer com que Teerã concorde em abandonar seu programa nuclear.
Mas mesmo que ambos os lados cheguem a um acordo e assinem o documento, o momento de alívio pode ser efêmero, já que há muitos obstáculos à frente que podem inviabilizar o acordo a qualquer momento. A questão de quem realmente está conduzindo a política externa dos Estados Unidos – certamente no Oriente Médio – poderá ser respondida nos próximos meses, já que a relação de Trump com Benjamin Netanyahu será fundamental para qualquer avanço, com inúmeros analistas já apontando que Bibi romperá o cessar-fogo logo após sua assinatura. Ainda mais provável é um ataque de bandeira falsa, planejado para enganar Trump, fazendo-o acreditar que foram os iranianos que violaram o acordo e que ele tem o dever de se unir a Israel para retomar a guerra.
Para que o acordo se mantenha, Israel precisa parar de combater o Hezbollah no Líbano, o que é uma tarefa muito difícil, já que essa batalha é o único pretexto que Bibi possui tanto para permanecer no cargo quanto para evitar acusações de corrupção que poderiam levá-lo à prisão.
No entanto, o verdadeiro problema do acordo é a falta de confiança que os iranianos têm em Trump – e com razão. Eles não acreditam que o acordo possa durar, mesmo que uma segunda fase seja assinada e eles abram mão de seus direitos de enriquecer urânio. Sempre acreditaram que tudo o que Trump faz e diz é um ardil, e que qualquer acordo de paz assinado dentro do prazo de 60 dias só se manteria até as primárias, antes que Trump fosse seduzido mais uma vez a voltar à guerra.
No curto prazo, porém, parece que o Irã garantiu um acordo extraordinário que poderia, se cumprido, render-lhes US$ 300 bilhões em compensação para reconstrução e a devolução de US$ 24 bilhões dos fundos apreendidos que os EUA mantinham. É difícil imaginar como Trump vai apresentar isso ao público estadunidense como uma vitória, já que tudo o que os EUA ganham são preços mais baixos de combustível e a possibilidade de pagar ainda mais dinheiro ao Irã para que este desista de seu programa nuclear.
Claramente, dada a falta de confiança que o Irã tem, o país vai garantir que os US$ 324 bilhões sejam pagos primeiro antes de realmente levar a sério a segunda parte do acordo. Mas, com o Estreito de Ormuz aberto, ainda será um alívio para Trump que o comércio global de petróleo possa começar a voltar ao normal, embora especialistas tenham afirmado que isso possa levar meses. Convencer os corretores de seguros internacionais em Londres de que todas as três partes – os EUA, Israel e o Irã – manterão o estreito aberto será difícil, e espera-se que os principais assessores de Trump utilizem todo o seu poder para pressionar o setor sediado em Londres.
Mas o acordo é terrível para os Estados Unidos no longo prazo, pois corrobora a analogia do professor Bob Pape de que Trump transformou o Irã na quarta potência mundial. Com o estreito aberto e parte das sanções petrolíferas dos EUA suspensas, isso já é um axioma e fica claro para todos.
E ninguém perceberá melhor o significado disso do que as elites do CCG, que agora passarão a encarar o Irã como uma potência regional à qual terão de demonstrar reverência, por ser o vencedor desta última chamada “guerra do Irã” contra os EUA e Israel. Antes de 28 de fevereiro, o Irã não controlava o Estreito de Ormuz e era visto como um rival militar em pé de igualdade com os Estados do Golfo, que contavam com bases estadunidenses em seu território. Agora, o Irã receberá o dinheiro e aguardará ansiosamente o crescimento de sua economia, enquanto, ao mesmo tempo, seu próprio programa de mísseis não apenas crescerá, mas também avançará. Mais do que nunca, o Irã reforçará ainda mais suas forças armadas, sabendo que, a qualquer momento, o Ocidente, mais uma vez, pode se entregar a fantasias de “mudança de regime” ou ao envio de tropas estadunidenses de paraquedas para a Ilha de Kharg. Você sabe do que se trata.
Trump fez literalmente tudo o que podia para impulsionar a economia do Irã, seu domínio militar regional e a força política de seu próprio regime internamente. O acordo que ele está oferecendo para assinar com o dinheiro que disponibilizou é uma derrota sísmica em uma escala que nunca vimos antes, embora possa ser comparada à retirada do Vietnã – que foi tanto um fracasso militar quanto econômico, pois esvaziou os cofres dos EUA e forçou Nixon a desvincular o dólar do ouro.
Trump não se limitou a recuar, mas caiu de joelhos; tal é a magnitude do fracasso de ter sido enganado por Israel em primeiro lugar e de ter seguido adiante com a campanha fracassada que lhe explodiu na cara quase desde o primeiro dia. O que estamos testemunhando agora é um novo ponto baixo na história moderna dos EUA, à medida que o país vira uma nova página em sua jornada de afastamento da liderança hegemônica dos anos do pós-guerra, e Trump entrará para os livros de História como o palhaço desastrado cujo ego foi o catalisador desse processo inevitável que alguns estão simplesmente chamando de “o fim do império”.
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