Por Mariano Saravia.
A expulsão do árbitro somali foi um dos muitos episódios vergonhosos que esta Copa do Mundo, que está apenas começando, nos deixa. Ao chegar a Miami, ele foi detido pela Imigração, interrogado por 11 horas e, finalmente, deportado. Um verdadeiro escândalo que continuou com as revistas humilhantes às delegações do Uzbequistão e do Senegal, e a proibição imposta aos jogadores do Irã de pernoitarem em território americano. Mas o caso do árbitro Omar Artan supera tudo, pois ele estava em situação regular: possuía o visto correspondente, a designação e o convite oficial da FIFA para arbitrar nesta Copa do Mundo e até mesmo um passaporte diplomático. Para contextualizar melhor, estamos falando de quem foi eleito no ano passado o melhor árbitro de toda a África.
Diante dessa verdadeira ignomínia, as reações foram diversas. Vejamos.
A FIFA lavou as mãos e afirmou que não podia interferir na política migratória de um país anfitrião. Mas poderia ter designado o árbitro para partidas disputadas nos outros países-sede. Na verdade, o Canadá se ofereceu, dizendo que não tinha nenhum problema em receber Artan. Por que a FIFA não fez isso? Há muito mais aqui do que apenas desorganização ou negligência.
Os outros árbitros não disseram nada, nem uma reação, nem uma palavra. Não existe uma organização internacional que agrupe os árbitros, como existe na Argentina: SADRA (Sindicato de Árbitros Esportivos da República Argentina) e AAA (Associação Argentina de Árbitros). Nenhuma das duas entidades emitiu sequer um comunicado. Muito menos os árbitros argentinos que estão apitando na Copa do Mundo: Facundo Tello, Yael Falcón Pérez e Darío Herrera. Eu sei que é difícil se opor ao poder… mas uma palavrinha, um pouco de dignidade, seguindo o exemplo que nos deixou, já sabemos quem…
O jornalismo, bem, o jornalismo… Já sabemos como é o jornalismo. Abordaram o assunto de forma anedótica, sem conhecimento e, pior ainda, sem querer saber, o que deveria ser a essência do jornalismo. Ou então como algo pitoresco, ou, no caso mais ousado, fazendo uma crítica tímida ao governo Trump, mas sempre abordando as consequências dos fatos, nunca as causas.
Resultado: para a galera, os torcedores e o público em geral, foi, no máximo, mais uma das loucuras de Trump. Um pensamento que vem se generalizando, a má imagem do presidente americano, mas a partir do reducionismo de que ele é um louco e nada mais.
Jogada geopolítica de Netanyahu e Trump
A realidade está muito longe de ser uma simples loucura ou mais uma manifestação da xenofobia e do racismo norte-americanos. Se fosse apenas isso, as autoridades dos Estados Unidos teriam negado antecipadamente o visto ao árbitro somali. Elas teriam evitado o escândalo internacional. Mas, justamente, o que essas autoridades buscavam era o escândalo midiático, porque faz parte de uma jogada no xadrez da geopolítica do Oriente Médio.
Os responsáveis pela decisão nunca deram uma explicação oficial, mas se encarregaram de lançar suspeitas vagas, falando de “pessoas perigosas”. Na verdade, sem dizer isso abertamente, eles se referem ao grupo jihadista Al Shabaab, uma filial da Al Qaeda no Chifre da África. Mas acontece que, justamente, esses terroristas lutam constantemente contra o governo central da Somália, e o árbitro Artan está ligado ao governo, recebeu um passaporte diplomático e, ao retornar à capital, Mogadíscio, o próprio governo o condecorou e organizou uma recepção grandiosa, com um estádio de futebol lotado para aclamá-lo como herói. A versão velada dos EUA sobre suas ligações com o Al Shabaab não faz sentido algum.
Por trás de toda essa novela está uma manobra de Donald Trump e daquele que, nos últimos meses, parece ser seu chefe: o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.
Acontece que, em 1991, a parte norte da Somália declarou unilateralmente sua independência, adotando o nome de Somalilândia. Desde então, a Somalilândia funciona de fato como um Estado independente, com seu próprio governo, moeda e exército. Mas, para o governo da Somália, a Somalilândia continua sendo parte integrante de seu território e rejeita qualquer tentativa de secessão.
Nesta novela há um marco importante: há menos de seis meses, no final de dezembro passado, o Estado de Israel reconheceu formalmente a Somalilândia, tornando-se o primeiro e único país do mundo a fazê-lo. Por quê? Por uma razão geopolítica muito importante: a Somalilândia, ou melhor, a parte norte da Somália, fica bem em frente ao Iêmen (Península Arábica) e no Estreito de Bab al Mandeb, que é a passagem do Oceano Índico e do Mar Arábico para o Mar Vermelho. Por ali passam 30% dos contêineres em nível mundial e 12% do comércio de petróleo. Os navios seguem, através do Mar Vermelho, pelo Canal de Suez para, em seguida, chegar ao Mar Mediterrâneo. Ou seja, tem uma importância geoestratégica enorme, complementando a do Estreito de Ormuz, fundamental para entender o atual triunfo iraniano na guerra contra Israel e os Estados Unidos.
Resumindo, Israel reconheceu há seis meses a “independência” da Somalilândia para ampliar sua influência geopolítica, e até mesmo militar, na região e poder enfrentar diretamente os houthis do Iêmen.
Nesse contexto, os Estados Unidos também moveram suas peças. Sem chegar ao reconhecimento pleno, o que Donald Trump fez foi agir como o que ele é: mais um empresário do que um estadista. Ele prometeu ao governo da Somalilândia que também reconheceria sua soberania se eles aceitassem receber os dois milhões de palestinos da Faixa de Gaza. Diante do genocídio cometido por Israel em Gaza, lembremos que a ideia mais brilhante que ocorreu a Trump foi transformar Gaza na “Riviera do Oriente Médio”, com uma explosão de jogos de azar, prostituição e outros vícios (https://www.youtube.com/watch?v=PslOp883rfI). Ele disse claramente: “Vou assumir o controle de Gaza”. Claro, para isso seria necessária uma limpeza étnica. E ele também disse isso claramente, propondo que os palestinos da Faixa saíssem de lá. E para onde? Justamente para a Somalilândia.
Por tudo isso, a expulsão do árbitro somali não é apenas uma palhaçada, fruto de uma loucura. É verdadeiramente uma jogada geopolítica de Israel, dos Estados Unidos e da FIFA.
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