O acordo Irã-EUA e os limites da hegemonia americana. Por Sayid Marcos Tenório.

Por Sayid Marcos Tenório.

Após quase meio século de hostilidade, sanções, ameaças militares e confrontos indiretos, o anúncio de um memorando de entendimento entre a República Islâmica do Irã e os Estados Unidos pode representar um dos acontecimentos geopolíticos mais relevantes do Oriente Médio desde a Revolução Islâmica de 1979.

Mais do que um entendimento sobre questões nucleares, o acordo revela algo mais profundo: o reconhecimento, por Washington, dos limites da estratégia de pressão máxima adotada contra Teerã ao longo das últimas décadas.

Desde a vitória da Revolução Islâmica, em fevereiro de 1979, os Estados Unidos buscaram conter o Irã por diferentes meios. Houve sanções econômicas, isolamento diplomático, operações de sabotagem, guerra híbrida, assassinatos seletivos e a constante ameaça de ação militar.

O objetivo era forçar a República Islâmica a abandonar sua política externa independente, limitar sua capacidade de defesa e reduzir sua influência regional.

Passados 47 anos, os resultados ficaram aquém do esperado pelos EUA.

Apesar das sanções mais severas do planeta, o Irã preservou sua soberania política, consolidou importantes capacidades industriais e tecnológicas, desenvolveu um dos mais avançados programas de mísseis da região e manteve sua influência sobre os principais acontecimentos do Oriente Médio.

O memorando agora divulgado parece refletir essa nova realidade.

Se confirmadas as informações divulgadas pela imprensa iraniana e internacional, o acordo prevê a suspensão de importantes sanções econômicas, a liberação de recursos financeiros iranianos congelados no exterior, o levantamento gradual do bloqueio naval e o compromisso dos Estados Unidos de respeitar a soberania iraniana e não interferir em seus assuntos internos.

Trata-se de uma mudança significativa.

Durante décadas, a narrativa predominante no Ocidente apresentou o Irã como um Estado que deveria ser compelido a aceitar condições impostas pelas grandes potências. Agora, os Estados Unidos se sentam à mesa de negociações, reconhecendo o Irã como um interlocutor indispensável para a estabilidade regional.

Talvez o aspecto mais revelador do acordo seja justamente aquilo que ficou de fora das negociações.

Segundo os termos divulgados, o programa de mísseis iraniano e o apoio da República Islâmica aos movimentos de resistência da região foram retirados da pauta.

Não se trata de um detalhe secundário.

Durante anos, “Israel” e setores do establishment norte-americano insistiram que qualquer acordo deveria incluir o desmantelamento da capacidade de dissuasão iraniana e o rompimento de seus vínculos com os movimentos de resistência.

A exclusão desses temas sugere que os negociadores compreenderam aquilo que a realidade já havia demonstrado, o de que tais exigências eram inviáveis.

Outro elemento importante envolve o Líbano.

Informações divulgadas por agências iranianas indicam que garantias relativas à integridade territorial libanesa, à retirada de forças israelenses de áreas fronteiriças e ao levantamento do cerco fizeram parte das discussões que antecederam o entendimento.

A reação do primeiro-ministro sionista, Benjamin Netanyahu, foi imediata. Segundo a imprensa israelense, ele informou ao presidente Donald Trump que “Israel” não se considera vinculado às cláusulas referentes ao Líbano.

Independentemente dos desdobramentos, o episódio sugere que os interesses dos Estados Unidos e “Israel” já não coincidem automaticamente em todos os aspectos da política regional.

Também merece atenção a questão do Estreito de Ormuz.

Por aquela estreita passagem marítima circula uma parcela significativa do comércio mundial de petróleo. Durante décadas, a presença militar dos Estados Unidos no Golfo Pérsico foi justificada em nome da proteção da navegação internacional. Agora, as discussões apontam para mecanismos de coordenação envolvendo diretamente o Irã e os países da região.

Na prática, isso representa um reconhecimento do papel central do Irã na segurança do Golfo.

Nada disso significa o fim das tensões.

Persistem divergências profundas sobre o programa nuclear iraniano, a arquitetura de segurança regional e a presença militar norte-americana no Oriente Médio.

Além disso, o histórico das relações entre os dois países recomenda cautela. Diversos acordos anteriores foram abandonados ou descumpridos, alimentando uma desconfiança que dificilmente desaparecerá no curto prazo.

Ainda assim, o significado político deste momento não deve ser subestimado.

Ao final de décadas de sanções, ameaças e tentativas de isolamento, os Estados Unidos não conseguiram impor ao Irã uma rendição estratégica. Ao contrário, encontram-se diante de um país que chega à mesa de negociações preservando sua soberania, sua capacidade de defesa, seu desenvolvimento tecnológico e suas alianças regionais.

Mais do que um acordo nuclear, o que está em jogo é o reconhecimento de uma nova correlação de forças no Oriente Médio.

A grande questão não é apenas o conteúdo do documento que será assinado. A verdadeira questão é que, após quase meio século de confrontação, Washington parece admitir aquilo que os acontecimentos já vinham demonstrando, de que a era em que os Estados Unidos podiam determinar unilateralmente os rumos da região está cada vez mais distante.

Sayid Marcos Tenório é historiador, analista de geopolítica e Vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (IBRASPAL). É autor do livro Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência.

A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.


Descubra mais sobre Desacato

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here
Are you human? Please solve:Captcha


Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.