Política da Copa do Mundo. Por Michel Goulart da Silva.

Enquanto bilhões acompanham os jogos, povos inteiros enxergam na Copa muito mais que futebol: veem representação, pertencimento e resistência. O campo é palco do espetáculo; a política, porém, continua jogando fora dele.

Por Michel Goulart da Silva.

Estamos próximos do início de mais uma Copa do Mundo de Futebol. Embora haja muitas tentativas de despolitizar o evento, procurando esconder ou mesmo neutralizar os embates que se dão do lado de fora do campo, a realidade é muito mais forte do que as vontades daqueles que controlam as entidades de futebol. Enquanto esporte popular, que mobiliza milhões de pessoas no apoio a seus times e seleções nacionais, o futebol se insere de forma profunda na classe trabalhadora e, portanto, acaba expressando a luta de classes.

Um elemento político que se destaca, por certo, é o fato de o torneio se dar nos Estados Unidos, em uma gestão encabeçada por Donald Trump, dividindo a sede com México e Canadá. E que um dos países que logrou a classificação foi o Irã, bombardeado nos últimos meses pelos Estados Unidos em aliança com Israel. Durante meses vem pairando a dúvida sobre a participação do Irã na Copa do Mundo, considerando o cenário de destruição pela qual passa o país e pela hostilidade com a qual seus atletas e equipe técnica certamente devem ser recebidos pelo governo norte-americano.

Outro elemento relacionado às guerras passa pela exclusão, nos últimos anos, da Rússia de todos os torneios relacionados à FIFA. Isso faz parte das sanções recebidas pelo país por conta da guerra com a Ucrânia, não tendo a oportunidade sequer de participar das eliminatórias para a Copa do Mundo, assim como sua seleção e seus times vêm sendo banidos de torneios da UEFA. Quanto à Ucrânia, não apenas vem podendo participar de todos os torneios da UEFA, como sua seleção deve ir aos Estados Unidos, possivelmente sendo recebida de braços abertos pela gestão Trump. O mesmo aconteceria com Israel, diante do massacre que promove contra os palestinos, mas sua seleção (felizmente) não teve a capacidade de se classificar para o torneio.

Por mais que o discurso oficial tente despolitizar a Copa do Mundo, o torneio está completamente permeado pelos interesses e disputas econômicas e políticas em âmbito mundial. Os organizadores, representados principalmente pelo presidente da FIFA, o ítalo-suíço Gianni Infantino, procuram estar alinhados com os mandos e desmandos de Trump, inclusive participando de constrangedoras celebrações com o mandatário norte-americano.

Não deixa de haver resistências, ainda que pontuais. Na última edição da Copa do Mundo, viram-se alguns jogadores da Suíça com origem kosovar provocando o time da Sérvia durante a partida entre as duas seleções. Os seus gestos ao comemorar gols buscavam provocar os sérvios por conta do massacre promovido contra diferentes nacionalidades e da guerra na década de 1990. Os jogadores suíços foram punidos.

Quatro anos atrás, a causa palestina teve seu principal difusor e defensor na seleção do Marrocos. Sensação do torneio, tendo chegado à semifinal e conseguido a melhor campanha de uma seleção africana na história das Copas do Mundo, os marroquinos em diversos momentos desfraldaram a bandeira palestina. Esse apoio não se deu apenas por parte da torcida, mas até mesmo dos jogadores.

Os marroquinos, inclusive, colocaram outra questão, a da diáspora africana. Muitos dos principais jogadores da seleção que disputou a última Copa do Mundo – e isso deve se repetir este ano – não nasceram no Marrocos. São filhos de imigrantes espalhados por países como Espanha, França, Canadá, Holanda, entre outros. Optaram, contudo, por representar as cores do país de origem de seus pais e avós, celebrando sua cultura e nacionalidade.

Essa mesma questão, mas de outra perspectiva, deve aparecer novamente em relação à seleção da França. Nas duas últimas Copas do Mundo, cerca de dois terços da seleção foram compostos por jogadores com famílias oriundas de países africanos. No futebol, optaram por representar as cores do país onde cresceram e com o qual compartilham uma cultura desde a infância. Dentro da sociedade francesa, somente a extrema-direita não tem a capacidade de respeitar e se orgulhar dessa escolha.

Quando se fala em Copa do Mundo, não estamos nos referindo apenas a futebol. Os jogadores, membros das comissões técnicas e os torcedores são pessoas de carne e osso, que estão representando uma nação e uma cultura e, óbvio, uma diversidade de posições políticas. Se dentro de campo, estratégia e tática devem falar mais alto, fora de campo as disputas são muito mais complexas, na medida em que cada jogador e membro das comissões técnicas são representantes da nação com a qual se identifica.

O povo que cada seleção representa vive uma realidade de exploração e sonha com dias melhores, mesmo que seja a alegria efêmera de assistir a um jogo de futebol de alguém com o qual se identifica pela língua, pelo sotaque, pela cor de pele ou pelo pertencimento cultural que compartilham.

A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.


Descubra mais sobre Desacato

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here
Are you human? Please solve:Captcha


Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.