Do divã ao estádio: a alma argentina entre a psicanálise e os mitos

Redação.- Há algo na Argentina que escapa às estatísticas, aos discursos políticos e às análises econômicas. Algo que não pode ser medido em números nem explicado apenas pela história. É uma força invisível que une milhões de pessoas por meio da música, da memória e dos afetos.

Talvez seja por isso que, sempre que um grande ídolo se despede, o país pareça parar por alguns instantes.

As imagens se repetem durante décadas. Filas que se estendem por quarteirões. Pessoas que viajam durante horas apenas para estar presentes. Flores, bandeiras, lágrimas e abraços entre desconhecidos. Como se, diante da perda de uma figura amada, cada argentino e argentina estivesse também se despedindo de uma parte de sua própria vida.

Foi assim com Maradona.

Foi assim com Néstor Kirchner.

Foi assim quando Cristina Fernández de Kirchner encerrou seu mandato, em 9 de dezembro de 2015, diante de uma Plaza de Mayo tomada por uma multidão emocionada.

E foi assim, também, com o Indio Solari.

Para um observador estrangeiro, talvez seja difícil compreender. Afinal, trata-se de um cantor, um jogador de futebol ou um dirigente político. Mas, para milhões de argentinos e argentinas, essas figuras representam algo muito maior. São capítulos vivos de suas próprias histórias.

Porque a Argentina não constrói apenas líderes ou artistas.

Constrói mitos.

E os mitos possuem uma função profunda na vida humana. Eles ajudam a organizar a memória, a dar sentido ao sofrimento e a alimentar a esperança. São pontos de referência emocionais em um mundo cada vez mais instável.

Não por acaso, a Argentina é também um dos países mais ligados à psicanálise. Em Buenos Aires, falar de terapia é tão comum quanto falar de futebol. Durante décadas, gerações inteiras aprenderam a olhar para dentro de si mesmas, a interpretar seus sentimentos e a buscar explicações para suas dores.

Mas existe algo que nem mesmo o divã consegue alcançar sozinho.

É aí que entra a música.

Uma canção do Indio Solari, de Charly García, de Spinetta ou de Mercedes Sosa consegue fazer em poucos minutos aquilo que às vezes leva meses de terapia: transformar emoções difusas em palavras. Dar forma à saudade. Nomear a angústia. Traduzir a esperança.

Por isso os shows do Indio nunca foram apenas shows.

Eram encontros quase espirituais.

Milhares de pessoas cruzavam estradas durante a madrugada para compartilhar algo que parecia maior do que um espetáculo. Não estavam ali apenas para ouvir músicas. Estavam ali para confirmar que pertenciam a uma comunidade construída por versos, lembranças e sonhos.

O mesmo aconteceu quando Maradona morreu.

As intermináveis filas diante da Casa Rosada não eram apenas uma homenagem ao maior jogador da história argentina. Eram uma tentativa coletiva de agradecer a alguém que havia feito milhões acreditarem que os humildes também podiam desafiar gigantes.

Quando Néstor Kirchner partiu, muitos choraram como quem perde um familiar. Não era apenas a morte de um ex-presidente. Era o fim abrupto de uma narrativa política na qual milhões depositavam suas expectativas.

E quando Cristina deixou a Presidência, a Plaza de Mayo transformou-se em um enorme ritual de despedida. Não importava se alguém concordava ou não com suas ideias. O que se via era uma multidão consciente de estar vivendo um momento histórico.

Essas cenas revelam uma característica singular da sociedade argentina: a capacidade de transformar acontecimentos públicos em experiências profundamente pessoais.

Talvez porque as e os argentinos tenham compreendido algo que outras sociedades tentam esconder.

Eles precisam de histórias.

Precisam de símbolos.

Precisam de canções.

Precisam de heróis.

Precisam de mitos.

Não porque ignorem a realidade, mas porque a vida se torna mais difícil quando faltam referências capazes de conectar passado, presente e futuro.

É por isso que a Argentina canta tanto.

É por isso que chora tanto.

É por isso que se reúne nas praças, nos estádios e nas ruas quando um de seus grandes nomes parte.

Porque, no fundo, cada despedida é também um espelho.

E, ao olhar para seus ídolos, os argentinos e argentinas enxergam algo que vai muito além da fama ou da política.

Enxergam a si mesmos.

Enxergam suas derrotas, suas esperanças, suas memórias e seus sonhos.

Talvez seja essa a verdadeira razão pela qual o país continua produzindo mitos.

Porque, em uma nação construída pela emoção, eles nunca morrem completamente.

Continuam vivos nas canções, nas histórias contadas entre amigos, nas bandeiras erguidas nas praças e na memória coletiva de um povo que aprendeu a transformar seus afetos em identidade.

E que, diante de cada despedida, volta a cantar para não esquecer.


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