Exposição têxtil aborda a erva-mate enquanto Patrimônio Cultural

Protagonista no dia a dia das comunidades da região oeste do Estado, a erva-mate também é inspiração para criação das obras da artista Juliane Maria Fornari em um projeto que chega à comunidade a partir deste final de semana, em Chapecó/SC.

Por Camila Almeida.

O artesanato, os saberes ancestrais e a história da erva mate na região oeste catarinense estão retratados nas obras têxteis do Projeto “Tramas e Fios da Memória – A Erva-Mate”. Idealizada pela artesã Juliane Maria Fornari e desenvolvida através do Edital de Chamamento Público nº 031/2025 da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura em Chapecó, a iniciativa evidencia uma figura central no cotidiano das comunidades regionais: a erva-mate.

A planta, que já possui o reconhecimento internacional como Patrimônio Cultural Imaterial do Mercosul devido à sua herança compartilhada na América do Sul , serve como o fio condutor de uma robusta pesquisa que une antropologia, artes visuais, design e artesanato.

Para a artista, a relação com a erva-mate é antiga, nasce a partir de memórias e segue para o processo criativo. “A erva-mate, enquanto identidade cultural regional, veio ganhando meu apreço há alguns anos já. Comecei a inserir a imagem dela nas roupas de mesa do meu ateliê, pensando em difundir e firmar ela enquanto identidade cultural nossa. Concomitante a isso, foi surgindo o desejo de criação, de arte mesmo, saindo um pouco das peças comerciais, partindo para algo mais conceitual. Assim foram surgindo as obras, sempre ligadas a outras referências culturais e fazeres ancestrais, como o bordado rústico, que são formas e desenhos feitos à mão livre na máquina de costura doméstica, como se a ponta da agulha fosse um lápis de desenho, algo que minha mãe fazia para seu enxoval de casamento. Assim, tornou-se uma forma de valorização de nossas raízes”.

Diálogo intercultural e técnicas ancestrais

A proposta caminha na busca pela fruição artística autoral — algo imprescindível para a concepção dos trabalhos de artistas locais. A espinha dorsal do processo criativo apoia-se em um diálogo intercultural protagonizado por três mulheres com técnicas distintas: o artesanato têxtil de Juliane Maria Fornari, os pontos minuciosos da bordadeira Joçânia Maria Fornari e ancestralidade da artesã indígena Kaingang Maria Rosângela de Oliveira Carvalho, moradora da Terra Indígena Xapecó, com o suporte e a orientação científica da antropóloga Dra. Adiles Savoldi.

É a partir da palha e do fazer tradicional Kaingang que as obras ganham suporte, valorizando as matrizes estéticas originárias que frequentemente foram invisibilizadas no território. Do processo criativo, que durou cerca de 1 ano, foram produzidas oito obras têxteis que chegam agora ao público por meio de um circuito expositivo

“As obras expressam as várias etapas da vida da planta, sua história entre os seus primeiros usuários, os povos indígenas, que a tinham como erva sagrada, curiosidades da botânica da planta, o ritual do chimarrão e a roda de mate, simbolismo de hospitalidade e amizade. Trazemos representações pictóricas e táteis que mapeiam as fases botânicas e os simbolismos da erva-mate, da semente à floração. Esse trabalho traz também as lendas míticas guarani sobre a planta, as curiosidades antropológicas do chimarrão como prática de socialização e hospitalidade”, explica a artista.

Acessibilidade cultural

Um dos pontos importantes do compartilhamento do projeto com o público é o desenho de sua política de acessibilidade cultural. O projeto nasce acessível, desde a sua proposta ainda escrita, o planejamento, o desenvolvimento das ações, através de assessoria especializada. As telas totalmente táteis para pessoas cegas, dispõe de legendas e textos de conceito inteiramente transcritos para o sistema Braille, além de criar um inédito glossário de texturas que funciona como um vocabulário tátil, para que o público cego ou de baixa visão compreenda detalhadamente de onde vem cada elemento utilizado na obra, por exemplo: a pequena folha de erva mate deita de trançado indígena, que veio do miolos do cipó, que veio da planta guaimbé do alto das árvores, a variedade de fios, pontos e materiais aplicados. A circulação contará com visitas mediadas em parceria com a Associação de Deficientes Visuais do Oeste de Santa Catarina (Adevosc) e com a Associação de Surdos de Chapecó, esta última contando com interpretação em Libras.

Programe-se

Com o objetivo de democratizar o acesso aos bens culturais e descentralizar as artes visuais dos circuitos tradicionais, o projeto prevê 03 exposições gratuitas, com duração de 15 dias cada, inseridas no cotidiano de diferentes bairros. Além do circuito expositivo, o projeto realizará rodas de chimarrão e conversas abertas ao público.

30/05 – Sábado – Lançamento Exposição com roda de mate

Local: Programa Viver – Bairro Quedas do Palmital

Horário: 14h

15/06 – Segunda-feira – Abertura da Exposição na UFFS com roda de mate

Local: Hall da Biblioteca

Horário: 19h

04/07 – sábado – Abertura Exposição Supermercado Celeiro Sul com roda de mate

Local: Hall do Celeiro Sul – Bairro Palmital

Horário: 10h

Acompanhe outras informações pelas redes sociais da artista: @mariasateliechapeco .


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