Redação.- A votação da PEC que reduz a jornada semanal de trabalho e põe fim à escala 6×1 revelou, mais uma vez, a profunda distância entre parte da bancada catarinense e a realidade da classe trabalhadora. Enquanto a maioria da Câmara aprovou em dois turnos a proposta que estabelece a jornada de 40 horas semanais e garante dois dias de descanso, deputados e deputadas de Santa Catarina decidiram se alinhar ao conservadorismo patronal e ao discurso do medo econômico.
Santa Catarina apareceu entre os estados com maior resistência à mudança. Entre os parlamentares catarinenses que votaram contra a PEC estão Caroline de Toni (PL), Daniel Freitas (PL), Daniela Reinehr (PL), Julia Zanatta (PL), Ricardo Guidi (PL), Zé Trovão (PL), Carlos Chiodini (MDB), Fabio Schiochet (União), Rafael Pezenti (MDB) e Gilson Marques (Novo).
A posição desses parlamentares escancara uma lógica antiga: exigir sacrifícios permanentes dos trabalhadores enquanto grandes grupos econômicos acumulam lucros recordes. O discurso de que reduzir a jornada destruiria empregos ou quebraria empresas ignora experiências internacionais e até estudos produzidos em Santa Catarina. Pesquisa citada pelo Sinte/SC aponta que o fim da escala 6×1 poderia gerar cerca de 64 mil empregos formais no estado, além de ampliar renda e consumo.
A escala 6×1 é um dos modelos mais brutais de exploração laboral ainda naturalizados no Brasil. Ela reduz drasticamente o tempo de convivência familiar, limita o descanso físico e mental e atinge principalmente trabalhadores do comércio, serviços, supermercados, telemarketing, limpeza, logística e alimentação. Na prática, milhões de pessoas vivem para trabalhar, sem tempo para estudar, cuidar da saúde ou simplesmente existir fora do ambiente de exploração.
Ao votarem contra a redução da jornada, esses deputados e deputadas não defenderam “liberdade econômica”. Defenderam a manutenção de um modelo baseado em exaustão, adoecimento e precarização. Em um estado que frequentemente se apresenta como exemplo de desenvolvimento, parte da bancada federal escolheu permanecer presa à velha mentalidade de que direitos trabalhistas são obstáculos, e não conquistas civilizatórias.
O mais revelador é que a resistência à PEC veio justamente dos setores políticos que costumam exaltar “família”, “valores” e “qualidade de vida”. Mas que qualidade de vida existe para quem trabalha seis dias por semana e mal consegue conviver com os filhos? Que defesa da família é essa que sustenta jornadas incompatíveis com descanso e dignidade?
A aprovação da PEC na Câmara representa uma vitória histórica das mobilizações sindicais, dos movimentos sociais e da pressão popular nas redes e nas ruas. Ainda há caminho no Senado, mas a votação já deixa registrado quem escolheu o lado dos trabalhadores e quem preferiu defender os interesses mais conservadores do mercado. Em Santa Catarina, vários parlamentares fizeram sua escolha — e ela ficou gravada na história política do estado.





