Redação.- A reação da Federação das Indústrias de Santa Catarina à redução da jornada de trabalho expõe, mais uma vez, o velho padrão das elites empresariais brasileiras: qualquer avanço social é tratado como ameaça econômica, catástrofe produtiva ou “imposição” intolerável. O discurso da entidade contra a transição da jornada de 44 para 40 horas semanais em apenas um ano ignora deliberadamente que os trabalhadores brasileiros já sustentam há décadas uma das rotinas mais exaustivas do mundo, convivendo com baixos salários, precarização crescente e perda contínua de qualidade de vida. Quando a indústria fala em “falta de preparo”, o que realmente demonstra é sua histórica dependência de jornadas extensas para manter margens de lucro, em vez de investir em inovação, tecnologia e reorganização produtiva.
O argumento de que a redução da jornada provocaria queda de produtividade também soa cada vez mais anacrônico diante das experiências internacionais. Países que reduziram a carga horária registraram melhora na saúde mental, redução de afastamentos e aumento de eficiência. A resistência patronal brasileira lembra os mesmos discursos usados contra férias remuneradas, descanso semanal, 13º salário e direitos trabalhistas básicos ao longo do século XX. Em todos esses momentos, empresários anunciaram colapsos econômicos que jamais aconteceram. A retórica do “caos” sempre serviu para preservar privilégios e impedir que os ganhos de produtividade fossem compartilhados com quem realmente produz a riqueza.
A fala do presidente da Fiesc, Gilberto Seleme, ao defender que o tema seja tratado apenas por negociação coletiva, também revela um profundo desequilíbrio de forças no mercado de trabalho brasileiro. Em muitos setores, trabalhadores enfrentam sindicatos enfraquecidos, medo do desemprego e enorme poder patronal nas mesas de negociação. Transferir integralmente esse debate para acordos setoriais significa, na prática, eternizar jornadas abusivas em áreas nas quais a organização sindical é mais frágil. Direitos sociais históricos não nasceram da boa vontade empresarial, mas de legislação, pressão popular e intervenção do Estado.
Há ainda uma contradição evidente no discurso industrial catarinense. Enquanto setores empresariais celebram automação, inteligência artificial e modernização produtiva como símbolos de eficiência, recusam-se a admitir que os ganhos tecnológicos deveriam resultar também em mais tempo livre para os trabalhadores. A lógica parece simples: toda inovação permite aumentar lucro, nunca para melhorar a vida humana. O trabalhador continua tratado como peça descartável de uma engrenagem produtiva, obrigado a sacrificar saúde, convivência familiar e descanso para sustentar um modelo econômico concentrador.
A tentativa de atribuir o debate à “corrida eleitoral” é outro expediente previsível para deslegitimar uma demanda social legítima e crescente. O fim da escala 6×1 e a redução da jornada não surgiram de campanhas publicitárias eleitorais, mas da exaustão concreta vivida diariamente por milhões de brasileiros. O que assusta parte do empresariado não é a velocidade da transição, mas a possibilidade de perder um modelo historicamente baseado em superexploração da mão de obra barata.
A resistência da indústria catarinense revela, no fundo, uma visão ultrapassada de desenvolvimento: crescimento econômico sustentado por jornadas extensas, baixos salários e concentração de renda. O debate sobre redução da jornada não deveria perguntar se o trabalhador merece mais tempo de vida, descanso e dignidade. A verdadeira questão é por que, em pleno século XXI, ainda há setores empresariais que consideram isso um “equívoco”.
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