Segundo pesquisa recente do DIEESE (Síntese Especial Subsídios para Debate Número 23 – 15/05/2026), utilizando dados da PEIC (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), realizada pela Confederação Nacional do Comércio, o percentual de famílias endividadas no Brasil chegou a 80,4% em março último, maior patamar desde o início da série histórica, em 2010. Segundo a PEIC, a piora do endividamento começou em 2019, quando o percentual de famílias endividadas era de 60,7%, até chegar aos atuais 80,4%, elevação de 20 pontos percentuais em apenas seis anos.
Segundo a mesma pesquisa do DIEESE, usando agora dados do Relatório de Cidadania Financeira do Banco Central do Brasil, o número de pessoas utilizando cartão de crédito nas modalidades com juros (rotativo e parcelado) aumentou de 34 milhões, em 2020, para 52,8 milhões, em 2024. Nesse mesmo período, as pessoas que não utilizam crédito pessoal não consignado aumentaram de 13,3 milhões para 41,7 milhões.
A síntese feita pelo DIEESE mostra que as famílias estão endividadas principalmente por três tipos de dívida: cartão de crédito (84,9% das famílias), carnês (16,0%), crédito pessoal (12,6%). Esses três tipos de dívida — especialmente o cartão de crédito — são modalidades que visam cobrir consumo corrente. As famílias, em sua maioria, pagam compras do mês, supermercado, farmácia, contas domésticas, usando esse tipo de crédito. É claro que pagar contas do mês com crédito que carrega juros de até 425% ao ano é o caminho mais curto para a ruína total da família. Se fosse crédito para aumentar o patrimônio, por exemplo, ou para gerar um ativo, as modalidades seriam diferentes, com juros bem menores.
Há outros dados que reforçam a deterioração da renda familiar, como é o caso do recorde histórico de endividamento atingido recentemente no Brasil, de 80,4%. Outra informação que corrobora o diagnóstico de que o problema é estrutural, é a elevada inadimplência: 30% das famílias estão com contas atrasadas; 82,8 milhões de pessoas negativadas (51% da população adulta). Além disso, fazer dívidas para cobrir gastos de consumo básico, em si, indica uma capacidade de pagamento extremamente frágil.
Outro dado que mostra que o problema do endividamento está relacionado à renda familiar é o fato de que a população de baixa renda é a mais afetada. Famílias com renda de até 3 salários mínimos têm taxa de inadimplência 2,6 vezes maior que as de renda mais alta. Isso indica que o endividamento não decorre de “consumo supérfluo”, mas é uma necessidade de fechar contas básicas do mês. O raciocínio é:
- Se a dívida fosse para investimento ou aquisição de ativos (casa própria, negócios), as modalidades seriam diferentes (financiamento imobiliário, crédito empresarial).
- 84,9% das famílias usam cartão de crédito — a modalidade mais curta, mais cara e mais associada ao consumo cotidiano. Como os juros são astronômicos, os bancos facilitam o acesso.
- Esses fatores, combinados com o recorde de endividamento e a alta inadimplência entre os mais pobres, só pode significar que as famílias estão usando crédito para cobrir despesas básicas que a renda do trabalho já não cobre mais. Este fenômeno, por definição, mostra a deterioração das condições econômicas da população.
O problema do endividamento das famílias oportuniza a discussão sobre o nível dos salários no Brasil. Com um Produto Interno Bruto (PIB) projetado de US$ 2,26 trilhões, o Brasil encerrou 2025 na 11ª posição global em produção de riqueza. Entre essas 11 maiores economias do planeta, somente Índia e Rússia praticam salários mínimos inferiores ao do Brasil (medidos em dólares). Esse debate puxa a questão do Salário Mínimo Necessário (SMN) no Brasil, calculado mensalmente pelo DIEESE. Segundo os dados divulgados pelo DIEESE com base na Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, em abril de 2026 o Salário Mínimo Necessário foi calculado em R$ 7.612,49. Este é o valor do salário necessário para uma família formada por quatro membros, o casal e dois filhos pequenos.
A viabilidade do aumento significativo do salário mínimo no Brasil, convergindo para o SMN do DIEESE está intrinsecamente ligada à redistribuição das fatias de despesas do orçamento federal. Atualmente, a estrutura orçamentária brasileira prioriza o pagamento de juros em detrimento da valorização do trabalho, o que cria um teto político para o aumento do salário mínimo. Pagar os serviços da dívida, há muito tempo, passou a ser a prioridade no Brasil. O principal obstáculo ao aumento do SM não é a “falta de dinheiro”, mas a captura do orçamento pelo setor financeiro. Enquanto quase metade do orçamento é destinada a juros e amortizações, qualquer aumento no salário mínimo é tratado como “ameaça fiscal”.
Os juros circulam com baixíssimo efeito multiplicador e alta concentração, enquanto o salário mínimo gera um ciclo virtuoso de consumo, produção e arrecadação. Se apenas 10% da fatia dos juros da dívida pública fosse redirecionada para a valorização do salário mínimo o impacto no PIB já seria extraordinário. Como o salário mínimo é o indexador da Previdência e do Benefício de Prestação Continuada (BPC), sua elevação impacta essas fatias. Porém, isso traz retornos compensatórios muito importantes. O aumento do salário mínimo eleva a arrecadação da previdência social, por exemplo. Embora a despesa suba, a receita contributiva também cresce, o que estabiliza a fatia de cerca de 22% do orçamento destinada à seguridade atualmente.
O BPC é a ferramenta mais barata e eficiente para tirar idosos da miséria. Mesmo dobrando o valor do SM, o peso do BPC no orçamento continuaria sendo uma fração mínima se comparado aos gastos com o sistema da dívida pública. A viabilidade do aumento expressivo do SM depende de uma inversão na lógica de gastos da União. A redução da fatia de 43% de comprometimento do orçamento federal com os serviços da dívida, para 30%, por exemplo, abriria um espaço fiscal de centenas de bilhões para a valorização salarial. Outro aspecto fundamental nessa equação é o crescimento do PIB. Salários maiores aumentam o consumo e o PIB, o que faz com que o peso percentual da dívida diminua naturalmente, tornando o SMN mais sustentável a cada ano.
A simulação do impacto fiscal na arrecadação federal, ao elevar o salário mínimo ao patamar do SMN, revela que essa medida atua como um potente estabilizador das contas públicas. Diferente da visão tradicional de “gasto”, o aumento do salário mínimo funciona como uma injeção de liquidez que retorna ao Estado em forma de tributos. O ganho de arrecadação federal ocorre por três vias principais, impulsionado pelo consumo de massa:
- Impostos Indiretos (PIS, COFINS e IPI): Como as famílias de baixa renda consomem praticamente 100% do que ganham, o aumento salarial flui imediatamente para a compra de produtos industrializados e serviços. Isso gera um incremento direto na arrecadação desses impostos vinculados ao faturamento das empresas;
- Arrecadação Previdenciária (RGPS): A valorização do salário mínimo aumenta a base de cálculo das contribuições previdenciárias de milhões de trabalhadores da iniciativa privada e contribuintes individuais. Esse aumento de receita ajuda a financiar o próprio sistema e o pagamento de benefícios;
- Imposto de Renda (IRPF e IRPJ): O aumento do consumo eleva o lucro das empresas varejistas e industriais, aumentando a base de cálculo do IRPJ. Além disso, trabalhadores que ultrapassarem a faixa de isenção passam a contribuir com o IRPF, gerando uma nova camada de receita para a União.
A viabilidade fiscal dessa medida depende da redução da taxa de juros e da auditoria da dívida pública. Ao reduzir a fatia de 43% do orçamento destinada aos serviços da dívida, o governo ganha margem para investir no salário mínimo, o que retroalimentaria a arrecadação federal. Uma parte substancial do “custo” do aumento salarial voltaria para o caixa da União na forma de impostos em menos de 30 dias. O crescimento do PIB gerado pelo consumo de massa melhoraria a relação Dívida/PIB, tornando o Estado brasileiro mais sólido financeiramente. Em termos sociais e econômicos, uma medida como essa faria o Brasil mudar profundamente. E para melhor.
José Álvaro Cardoso é membro do DIEESE/SC, economista, escritor e apresentador da coluna Análise da Economia, no JTT do Portal Desacato.
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