Dissolver o Parlamento para salvar Netanyahu? A crise terminal da política israelense.

Redação.- A tentativa de dissolução da Knesset (parlamento israelense) expõe mais do que uma crise parlamentar conjuntural em Israel. O episódio revela o aprofundamento de uma deterioração institucional que combina guerra e genocídio permanente, radicalização ultranacionalista, colapso da legitimidade política e personalização extrema do poder em torno de Benjamin Netanyahu. A dissolução do Parlamento tornou-se instrumento de chantagem interna numa coalizão dependente de setores messiânicos, supremacistas e ultrarreligiosos.

A crise atual foi detonada pelas disputas em torno do recrutamento militar obrigatório de judeus ultraortodoxos. Durante décadas, partidos haredim garantiram isenções para estudantes religiosos, sustentando um pacto histórico com o Estado israelense. Porém, a devastadora guerra em Gaza alterou o equilíbrio político e social. O enorme desgaste militar, o aumento das mortes de soldados e a ampliação das mobilizações tornaram cada vez mais insustentável a manutenção de privilégios para setores que se recusam a servir nas Forças Armadas. O tema passou a ameaçar diretamente a sobrevivência da coalizão governista.

Netanyahu, contudo, não governa apenas para manter uma maioria parlamentar. Governa para evitar sua própria queda política e judicial. Réu em processos de corrupção e dependente do apoio da extrema-direita religiosa para permanecer no poder, o premiê transformou o Estado israelense em refém de sua sobrevivência pessoal. A dissolução do Parlamento aparece, assim, não como solução democrática, mas como manobra de autopreservação. Quanto mais prolonga a guerra e a instabilidade institucional, mais adia investigações, pressões internas e possíveis derrotas eleitorais.

O problema central é que a crise não pode ser reduzida à figura de Netanyahu. Ela expressa contradições estruturais do próprio projeto político israelense contemporâneo. O país vive uma tensão crescente entre liberalismo formal e etnonacionalismo expansionista. A extrema-direita deixou de ser força periférica para se tornar eixo central do governo. Ministros que defendem anexações, expulsões populacionais e destruição total de Gaza passaram a ocupar posições decisivas no aparelho estatal. A fronteira entre democracia liberal e regime de supremacia étnica torna-se cada vez mais difusa.

Desde o início da ofensiva contra Gaza após os ataques de outubro de 2023, a política israelense entrou numa lógica de militarização total. O estado de guerra permanente permitiu suspender debates internos, neutralizar críticas e reconstruir temporariamente a imagem de liderança de Netanyahu. Mas o prolongamento do conflito produziu o efeito inverso: aprofundou divisões sociais, ampliou o isolamento internacional de Israel e desgastou severamente o governo perante parte da população israelense.

Ao mesmo tempo, cresce a percepção de que a guerra já não possui objetivos militares claros. A promessa de ‘eliminação total’ do Hamas converteu-se em justificativa indefinida para a destruição contínua de Gaza, enquanto o número de palestinos mortos continua aumentando, cidades inteiras permanecem devastadas e denúncias de crimes de guerra se acumulam em organismos internacionais. A crise parlamentar ocorre precisamente nesse contexto: um governo sem horizonte político tentando sobreviver por meio da escalada permanente.

A dissolução da Knesset pode levar Israel a novas eleições, mas dificilmente resolverá a crise de legitimidade. O sistema político israelense encontra-se fragmentado, polarizado e incapaz de construir consensos mínimos sobre segurança, religião, colonização e relação com os palestinos. Mesmo setores da oposição compartilham premissas fundamentais da ocupação e do expansionismo territorial. As divergências concentram-se mais na gestão da crise do que no modelo estrutural que a produz.

Há ainda a dimensão internacional, na qual o governo israelense continua sustentado por apoio político, diplomático e militar das potências ocidentais, especialmente dos Estados Unidos. Esse apoio tem permitido que sucessivos governos israelenses expandissem assentamentos ilegais, aprofundassem o bloqueio de Gaza e mantivessem um regime permanente de exceção sobre os palestinos sem consequências nem sanções efetivas. A atual crise parlamentar ocorre sob proteção geopolítica externa que reduz os custos internacionais da radicalização interna.

O resultado é um cenário paradoxal: quanto maior for a crise política israelense, maior tende a ser a radicalização do governo. Em vez de moderar posições, a instabilidade fortalece atores que defendem soluções maximalistas, repressão absoluta e expansão militar. A dissolução do Parlamento, portanto, não representa necessariamente enfraquecimento da extrema-direita — pode significar justamente sua consolidação.

A crise da Knesset simboliza algo mais profundo: o esgotamento do sionismo, um modelo político-ideológico incapaz de conciliar ocupação e limpeza étnica permanentes, militarização da sociedade e pretensão democrática. Israel enfrenta hoje não apenas uma crise de governo, mas uma crise histórica de projeto nacional e identidade. Enquanto a “guerra” permanente e o genocídio continuarem funcionando como mecanismo de sobrevivência política interna, qualquer estabilidade parlamentar será fictícia e apenas temporária.


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