Por Alejandro Marcó del Pont.
A regra é: déficit para as armas, austeridade para as pessoas (El Tábano Economista)
Nunca na história do pós-guerra alemão se viu uma operação de engenharia fiscal e social tão descaradamente hipócrita. Enquanto Friedrich Merz anuncia um corte drástico de quase 40 bilhões de euros no Estado de bem-estar — com o fim da gratuidade do seguro de saúde para cônjuges que não contribuem e pensões reduzidas a uma mera “cobertura básica” — seu governo aprovou simultaneamente uma reforma constitucional que permite endividamento ilimitado para financiar o rearmamento, eliminando de uma só vez qualquer restrição ao déficit público quando se trata de armamentos.
A lógica é simples e brutal: austeridade para a maioria, dívida ilimitada para a indústria armamentista. No centro dessa operação, um mesmo nome — BlackRock — aparece tanto no passado profissional do chanceler quanto como acionista institucional de praticamente todas as empresas do índice DAX e, de forma destacada, dos principais contratantes de defesa alemães, com participação de 7,19% na Rheinmetall AG.
O orçamento alemão para 2026, aprovado pelo Bundestag, gira em torno de 524 bilhões de euros em gastos ordinários, aos quais se somam fundos especiais fora do orçamento. O resultado é um endividamento total próximo de 180 bilhões de euros, a segunda maior cifra desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
A Alemanha eliminou o limite de gastos com defesa por meio de uma mudança constitucional em março de 2025. O artigo 109 da Lei Fundamental passou a incluir uma exceção: todo gasto com defesa acima de 1% do PIB fica automaticamente fora do freio da dívida. Na prática, isso significa que, acima de cerca de 45 bilhões de euros anuais, o Estado pode se endividar sem limites para financiar rearmamento, segurança, inteligência e apoio militar a países como a Ucrânia, flexibilizando a disciplina fiscal, imposta durante décadas a outros países.
Paralelamente, o governo criou um fundo especial de 500 bilhões de euros para infraestrutura, também fora das regras de controle da dívida e financiado integralmente por crédito, a ser gasto em 12 anos. Ao mesmo tempo, a União Europeia ativou para a Alemanha a “cláusula de escape” do Pacto de Estabilidade, permitindo que o país ultrapasse o limite de 3% de déficit por quatro anos se o excesso for devido a gastos militares.
O Tratado de Maastricht estabeleceu limites de 3% para o déficit e 60% para a dívida pública. Embora a Alemanha tenha sido durante anos o “aluno exemplar”, a situação atual é distinta: vários países já ultrapassam esses limites, e a própria Alemanha atingiu cerca de 3,2% de déficit em 2025 ao considerar gastos fora do orçamento.
A BlackRock está entre os principais beneficiários dessa política. O fundo lançou produtos financeiros diretamente ligados ao aumento dos gastos militares europeus e lucra tanto com contratos de defesa quanto com a dívida pública emitida para financiá-los. Assim, a mesma entidade ligada ao chanceler se beneficia duplamente do processo.
A ironia é evidente: durante anos, a Alemanha impôs austeridade a países como a Grécia, mas agora flexibiliza suas próprias regras — e justamente para financiar o rearmamento. A justificativa oficial é a “ameaça russa”, mas essa narrativa enfrenta críticas.
Primeiro, porque o principal choque recente à economia alemã não veio da Rússia, mas da destruição do gasoduto Nord Stream em 2022, cujos efeitos — aumento dos preços da energia, perda de competitividade industrial e baixo crescimento — ainda persistem. Segundo, porque a própria União Europeia permite maior déficit para gastos militares, o que indica que os cortes sociais não são inevitáveis, mas uma escolha política.
Enquanto isso, grandes empresas alemãs expandem suas operações no exterior, especialmente na China e nos Estados Unidos, aproveitando custos mais baixos e incentivos fiscais, ao mesmo tempo em que se beneficiam dos gastos públicos em defesa dentro da Alemanha. Isso revela uma contradição: apoio ao rearmamento, mas desinvestimento produtivo interno.
A relação entre Merz e a BlackRock levanta questionamentos sobre conflitos de interesse. O chanceler foi dirigente do fundo na Alemanha, que hoje é acionista relevante das principais empresas de defesa europeias e estadunidenses. O resultado é uma transferência massiva de recursos públicos para o setor armamentista e seus investidores.
Esse processo é descrito não como conspiração, mas como dinâmica estrutural: o déficit não desaparece, apenas muda de destino — sai das políticas sociais e vai para o setor militar.
O texto traça ainda um paralelo histórico com o apoio de industriais alemães ao nazismo nos anos 1930, destacando como interesses econômicos estiveram ligados ao rearmamento e às consequências catastróficas que se seguiram. Hoje, argumenta-se, o mecanismo se repete sob nova retórica — antes o “comunismo”, agora a “ameaça russa”.
A crítica final aponta para a concentração do poder econômico em grandes fundos internacionais e para o risco de repetir erros históricos: rearmamento financiado por dívida e acompanhado de austeridade social. Enquanto isso, a população enfrenta inflação, custos elevados de energia e redução de serviços públicos — pagando o preço de uma política que beneficia principalmente o setor financeiro e a indústria de defesa.
A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.
Descubra mais sobre Desacato
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





