A reforma da Lei de Glaciares na Argentina: um retrocesso anunciado em nome do mercado

A recente mudança na Lei de Glaciares, aprovada sob o argumento de impulsionar a economia, levanta uma pergunta incômoda: até onde um país está disposto a ir para atrair investimentos?

Redação.- A modificação aprovada ontem pelo Congresso argentino não é um ajuste técnico — como sustenta o governo —, mas uma redefinição profunda do equilíbrio entre proteção ambiental e exploração econômica. Na prática, trata-se de uma inflexão política clara: a água deixa de ser prioridade absoluta e passa a disputar espaço com a mineração.

O que mudou — e por que isso importa

A reforma introduz três mudanças estruturais:

  • Critério seletivo de proteção: apenas glaciares com “função hídrica comprovada” passam a ser protegidos
  • Descentralização: províncias ganham poder para decidir o que proteger e o que liberar
  • Flexibilização prática: áreas antes automaticamente protegidas podem ser abertas à mineração

Isso rompe com o princípio original da lei de 2010, que estabelecia proteção preventiva e ampla sobre glaciares e ambientes periglaciais.

Na nova lógica, a proteção deixa de ser regra e passa a ser exceção técnica — e, portanto, negociável.

O argumento oficial: desenvolvimento e “segurança jurídica”

O governo de Javier Milei defende que a reforma:

  • Corrige “excessos” da legislação anterior
  • Atrai investimentos em mineração (cobre, ouro, lítio)
  • Garante segurança jurídica para empresas

A expectativa oficial é ambiciosa: transformar o país em um grande exportador de minerais estratégicos para a transição energética global.

Mas esse discurso parte de uma premissa discutível: a de que o entrave ao desenvolvimento argentino era ambiental — e não estrutural, fiscal ou político.

O problema central: quem decide sobre a água?

Ao transferir poder às províncias, a reforma cria um cenário de fragmentação regulatória. Isso tem implicações críticas:

  • Governos locais, muitas vezes dependentes de royalties, passam a arbitrar sobre áreas sensíveis
  • Critérios científicos podem ser substituídos por interesses econômicos de curto prazo
  • Empresas passam a negociar diretamente em territórios com menor capacidade institucional

Na prática, isso equivale a politizar a definição do que é um glaciar relevante — algo que antes era tratado como questão técnico-científica.

A crítica científica e social

A reação foi imediata. Cientistas, universidades e organizações ambientais alertam que a reforma:

  • Reduz o alcance da proteção ambiental
  • Coloca em risco reservas estratégicas de água doce
  • Viola o princípio de não regressão ambiental

Além disso, o processo legislativo foi alvo de críticas severas. Mais de 100 mil pessoas se inscreveram para participar das audiências públicas, mas uma fração mínima teve voz.

Organizações como Greenpeace classificam a decisão como um retrocesso que pode afetar diretamente o acesso à água de milhões de pessoas.

Um dado incômodo: o contexto climático

A reforma ocorre em um momento particularmente sensível:

  • Os glaciares andinos estão em retração acelerada
  • A escassez hídrica já afeta regiões da Argentina
  • A mudança climática aumenta a dependência dessas reservas naturais

Ou seja, a lei é flexibilizada justamente quando esses ecossistemas se tornam mais estratégicos — não menos.

O que está em jogo

O debate não é “meio ambiente versus desenvolvimento”. Essa é uma simplificação conveniente.

O que está em jogo é:

  • Quem controla recursos naturais estratégicos
  • Qual horizonte temporal orienta as decisões (curto vs. longo prazo)
  • Se a América Latina continuará como zona de extração primária para demandas externas

Nesse contexto, ganha relevância a presença da estatal israelense Mekorot, que vem expandindo sua atuação na Argentina por meio de convênios com governos provinciais. Desde 2022, ao menos uma dezena de províncias firmaram acordos — frequentemente via Conselho Federal de Investimentos— para a elaboração de “planos mestres” de gestão hídrica e assessoramento técnico. Embora apresentados como cooperação tecnológica para enfrentar a escassez de água, esses acordos são alvo de críticas por sua falta de transparência, cláusulas pouco acessíveis ao público e pelo risco de transferência de controle estratégico sobre recursos hídricos. Além disso, organizações sociais questionam o histórico internacional da empresa, associando sua atuação à gestão desigual da água em territórios palestinos e alertando para a possível reprodução de lógicas de mercantilização e concentração do recurso em contextos latino-americanos. Nesse sentido, a flexibilização da Lei de Glaciares não pode ser analisada isoladamente: ela se articula com uma reconfiguração mais ampla da governança da água, na qual atores externos passam a ocupar um papel crescente em decisões estratégicas sobre um bem essencial.

A reforma sinaliza uma escolha: priorizar o papel da Argentina como fornecedora de minerais para o mercado global, mesmo que isso implique assumir riscos ambientais estruturais.

A nova Lei de Glaciares não elimina a proteção ambiental — mas a torna condicional, negociável e politicamente vulnerável.

É um deslocamento sutil, porém decisivo: a água deixa de ser um limite intransponível e passa a ser uma variável dentro da equação econômica.

Para o público brasileiro, a lição é direta: mudanças legais aparentemente técnicas podem redefinir, de forma silenciosa, o destino de recursos essenciais. E, quando isso acontece, o custo raramente aparece no curto prazo — mas quase sempre se impõe no futuro.

Referências

ARGENTINA. Lei nº 26.639, de 30 de setembro de 2010. Régimen de Presupuestos Mínimos para la Preservación de los Glaciares y del Ambiente Periglacial. Buenos Aires: Congreso de la Nación Argentina, 2010.

ARGENTINA. Ministerio del Interior. Wado de Pedro encabezó la firma de un acuerdo técnico entre cinco provincias y la estatal Mekorot. 2022. Disponível em: https://www.argentina.gob.ar/noticias/wado-de-pedro-encabezo-la-firma-de-un-acuerdo-tecnico-entre-cinco-provincias-y-la-estatal. Acesso em: 9 abr. 2026.

EL PAÍS. Milei logra que el Congreso reforme la ley de glaciares para aumentar la actividad minera en los Andes. 2026. Disponível em: https://elpais.com/argentina/2026-04-09/milei-logra-que-el-congreso-reforme-la-ley-de-glaciares-para-aumentar-la-actividad-minera-en-los-andes.html. Acesso em: 9 abr. 2026.

GREENPEACE. Reforma a la ley de glaciares: convocan a la demanda colectiva más grande de la historia. 2026. Disponível em: https://www.greenpeace.org/argentina/story/problemas/climayenergia/reforma-a-la-ley-de-glaciares-convocan-a-la-demanda-colectiva-mas-grande-de-la-historia/. Acesso em: 9 abr. 2026.

REUTERS. Argentina passes mining reform to spur investment near glaciers. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/sustainability/climate-energy/argentina-passes-mining-reform-spur-investment-near-glaciers-2026-04-09/. Acesso em: 9 abr. 2026.

TIERRA VIVA. ¿Qué hace Mekorot en Argentina? De los convenios secretos a su rol en AySA. 2023. Disponível em: https://agenciatierraviva.com.ar/que-hace-la-empresa-mekorot-en-argentina-de-los-convenios-secretos-a-su-rol-en-aysa/. Acesso em: 9 abr. 2026.

EL SALTO DIARIO. Mekorot y el apartheid del agua: de Palestina a Argentina. 2023. Disponível em: https://www.elsaltodiario.com/agua/israel-palestina-mekorot-apartheid-agua-argentina. Acesso em: 9 abr. 2026.


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